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Brasil Entre
o azul e o vermelho A tarefa do novo presidente
será diminuir o fosso que separa o Brasil moderno do Brasil arcaico

Marcelo Carneiro, Camila Pereira e Rafael Corrêa
Daqui a pouco mais de dois meses,
o Brasil assistirá à posse do sétimo presidente da República
desde o fim do regime militar, em 1985. Nesse período, o país modernizou
suas leis, livrou-se de parte do peso do Estado, domou a inflação,
criou mecanismos para impedir a gastança irresponsável de governantes
e tornou-se líder mundial de exportações em setores como
agropecuária e mineração. Poderia ter ido muito além
não tivesse uma bola de ferro atada aos pés. O Brasil que
busca a riqueza e o crescimento, habitado por famílias que desejam preparar
seus filhos para um mundo mais complexo e dar a eles uma educação
livre de ranços ideológicos, encontra-se encapsulado por um outro
Brasil: um país arcaico, clientelista, resignado às práticas
de corrupção e habitado por uma população que, premida
pela miséria, tem como única perspectiva de vida usufruir os benefícios
imediatos proporcionados por projetos assistencialistas. É o Brasil em
que vicejam o patrimonialismo, o corporativismo, o populismo e outras velhas práticas
de efeito paralisante. O presidente
eleito tem a tarefa urgente de unir o país em torno de objetivos que permitam
vencer a pobreza não só material como de mentalidade. A história
das nações desenvolvidas ensina que os dois aspectos estão
indissociavelmente ligados. É preciso convencer para usar um verbo
caro a Lula os brasileiros de que a construção de uma nação
justa e moderna passa necessariamente pelo enxugamento do Estado, pelo investimento
pesado em educação de base e pela constatação de que
não existe governo capaz de salvar a pátria, pelo simples fato de
que ele não produz riqueza. Quem o faz é a sociedade. A campanha
presidencial, nesse sentido, não poderia ter sido mais decepcionante. Ambos
os candidatos lançaram mão de um discurso que soa como música
aos defensores do velho Brasil. Lula dedicou-se a "acusar" seu adversário,
Geraldo Alckmin, de, uma vez no poder, querer iniciar um processo de privatização
que resultaria na venda de empresas públicas como a Petrobras e o Banco
do Brasil. O petista declarou, por exemplo, que, se estivesse ocupando a Presidência
em 1997, não teria permitido a venda da Vale do Rio Doce, então
um dos maiores símbolos do gigantismo estatal. Diante das bravatas estatizantes
do presidente, a reação de Alckmin foi desastrosa. Intimidado, o
tucano chegou a fantasiar-se de garoto-propaganda de estatais para negar que pretendesse
privatizar empresas do governo. Triste papel. Alckmin perdeu a oportunidade de
lembrar o país do avanço que representaram os processos de privatização
nas áreas de telefonia, siderurgia e aviação conduzidos por
Fernando Henrique Cardoso. Em relação à venda da Vale do
Rio Doce, tampouco faltariam ao tucano argumentos para contrapor aos de Lula.
Se quisesse, o ex-governador poderia ter lançado mão dos números
apresentados pela presidente da companhia na fase pós-privatização,
Maria Silvia Bastos Marques, em artigo publicado, na semana passada, nos jornais
O Globo e O Estado de S. Paulo. Nele, a executiva apontou, de forma
translúcida, quais foram os ganhos concretos que o Brasil obteve a partir
do desmonte do mamute estatal que foi a Vale (veja
reportagem).
Vidal Cavalcante/AE  |
| Sala de aula do Ibmec, faculdade privada de São Paulo,
e classe de escola primária no interior do Pará (abaixo): choque de realidade
| Caio Guatelli/Folha Imagem
 | Analisado
à luz dos números, o Brasil é uma nação emergente.
Mas o que se vê na realidade são dois países bastante diferentes.
No Brasil moderno, mais de 90% das casas têm televisão e geladeira.
No Brasil arcaico, três em cada dez casas não dispõem nem
sequer de saneamento básico. No Brasil moderno, funciona o mais bem-sucedido
programa de combate à aids do mundo. No Brasil arcaico, morrem 27 crianças
de cada 1.000 nascidas vivas um índice pior do que o de países
como Equador e Albânia. Os critérios para eleger um governante também
divergem nos dois Brasis. "Nos grotões e nas periferias pobres das grandes
cidades, o voto está fortemente condicionado às alianças
que os candidatos firmam com lideranças regionais e à avaliação
imediatista que o eleitor faz dos benefícios que poderá receber
com seu voto", diz o cientista político Cesar Romero Jacob. Prova disso
é o impacto do programa Bolsa Família na votação que
Lula obteve no primeiro turno. Do mês de junho para julho, início
oficial da campanha eleitoral, o governo aumentou os gastos com o programa em
60%. O resultado foi que, no Nordeste, a região mais beneficiada pelo programa,
Lula venceu em nada menos do que 93% dos municípios (veja
mapa), de acordo com estudo feito pelos pesquisadores José
Afonso Mazzon e Wagner Kamakura. Um passo decisivo para modernizar os programas
sociais é justamente blindá-los contra a demagogia dos governos.
O México, para ficar num modelo próximo, criou uma comissão
independente do governo para gerenciar e fiscalizar programas sociais semelhantes
ao Bolsa Família, de forma a evitar que sejam interrompidos ou utilizados
de forma eleitoreira. "É uma experiência que poderia inspirar o Brasil",
afirma o economista Marcelo Neri. Não que os eleitores de Alckmin, concentrados
nas regiões Sul e Centro-Oeste, não tenham levado em conta o próprio
bolso na hora de votar. Muitos dos votos que Alckmin recebeu foram fruto da insatisfação
dos eleitores com a crise na agroindústria. Tanto assim que as regiões
em que ele teve mais votos foram Sul e Centro-Oeste, as mais afetadas. De forma
geral, no entanto, afirmam estudiosos, eleitores dos grandes centros tendem a
escolher seu candidato levando em conta aspectos que não necessariamente
tenham reflexos imediatos em sua vida. Diz Jacob: "Nesse segmento, a população
costuma estar mais atenta a temas como a corrupção ou o papel do
Estado na economia". Um dos principais
perigos de governos adeptos de práticas antigas, como o populismo, é
a ameaça recorrente de retrocesso em áreas cujos avanços
pareciam definitivos. Na semana passada, o presidente Lula acenou com a possibilidade
de o governo federal reabrir negociações com os estados endividados
junto à União. Seria um tiro no peito da Lei de Responsabilidade
Fiscal, uma das grandes conquistas do governo FHC. Em 1998, dois anos antes de
ela ser promulgada, a soma das dívidas dos estados e municípios
chegava a 2,8 bilhões de reais. No ano passado, esse número foi
transformado em um resultado positivo de 17,5 bilhões de reais. O afrouxamento
da lei, sinalizado por Lula às vésperas da votação
de segundo turno, pode atender a interesses eleitorais imediatos do presidente,
mas é um péssimo negócio para o Brasil. A volta da farra
da gastança significaria, para o país, o retorno a uma era que não
deixou saudade e que já se imaginava enterrada.
Werner Rudhart/Kino.com.br  |
| Colheita de soja mecanizada em Mato Grosso e família
de lavradores no Maranhão: a agroindústria empurra o país para a frente; o assistencialismo,
para trás | Sebastião
 | A
gestão populista do Orçamento da União é um descalabro
que se repete a cada mandato, desde a retomada do regime democrático. Sob
o pretexto de ajudar os mais pobres, os sucessivos governos concederam aumentos
no salário mínimo superiores à inflação. Nos
últimos doze anos, o mínimo foi reajustado em valores 95% maiores
do que a inflação. Mas a parcela mais pobre da população
não foi a mais beneficiada. Um estudo feito pelo Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada mostrou que, do gasto extra realizado para financiar
esse aumento, apenas um terço chega às famílias pobres ou
extremamente pobres. O custo para o Estado, em contrapartida, é enorme.
Como dois em cada três aposentados recebem um salário mínimo,
os gastos com a Previdência explodem e chegam a 12% do produto interno bruto.
Só o oportunismo eleitoral e a cegueira ideológica explicam que
o Brasil estoure suas contas dessa maneira e, para cobrir o déficit resultante,
aumente ainda mais os impostos medida que penaliza toda a sociedade.
Um país que se recusa a aderir à
economia globalizada está condenado à pobreza e à insignificância.
Infelizmente, o Brasil trilha esse caminho, em razão de uma diplomacia
marcada pelo antiamericanismo e por um terceiro-mundismo que atende apenas à
satisfação de quistos esquerdistas entranhados no atual governo
e no Itamaraty. "Para este governo, em nome da ideologia partidária, é
possível até contrariar os interesses do país", diz o filósofo
Roberto Romano. Enquanto a diplomacia brasileira se recusa a encarar como uma
possibilidade positiva a Área de Livre Comércio das Américas,
que permitiria a entrada de um maior número de produtos nacionais em mercados
cobiçados, como o americano e o canadense, os Estados Unidos tecem acordos
bilaterais com outros países do continente e o Brasil, assim, perde
espaço e oportunidades. Quando será que vamos perceber que a diplomacia
comercial é coisa séria demais para ficar apenas nas mãos
de diplomatas? Abrir as fronteiras, e conseqüentemente os horizontes, é
fundamental. Um levantamento da Heritage Foundation, que estabelece um ranking
dos países com mais liberdade na economia, listou o Brasil em 81º
lugar, na categoria das nações "menos livres". O Chile, que nas
duas últimas décadas aumentou em 535% suas exportações
para os Estados Unidos, é o único país latino-americano a
integrar a lista dos "livres", em 14º lugar. Conclui o ex-presidente Fernando
Henrique Cardoso: "O risco para o Brasil é tornar-se irrelevante no plano
da economia mundial, em razão desse fechamento, fruto de uma ideologia
atrasada". "Desencapsular" o Brasil
que quer crescer e libertá-lo do Brasil arcaico não é uma
tarefa fácil, mas urge dar os primeiros passos. É consenso entre
os economistas que a modernidade só penetrará nos grotões,
nas cidades minúsculas onde nem a eletricidade chega, por meio de um investimento
maciço em educação. Isso está longe de ser um blablablá
teórico, como demonstra o caso da Coréia do Sul. Em 1960, 35% de
sua população era analfabeta e a renda per capita não passava
de 900 dólares anuais. Em menos de quarenta anos, os dispêndios pesados
em formação técnica e intelectual mudaram radicalmente esse
cenário. Hoje, o analfabetismo foi erradicado e 82% dos jovens coreanos
estão na universidade. Na economia, o país passou de patinho feio
a gigante: a renda per capita aumentou dezenove vezes, passando para 17 900 dólares,
e as exportações bateram a casa dos 270 bilhões de dólares
anuais. A receita usada pela Coréia é, em tudo, diferente das políticas
educacionais adotadas pelo Brasil nos últimos anos. Aqui, o investimento
do governo federal nas universidades, por aluno, é onze vezes maior do
que no ensino fundamental. Inverter essa equação é mexer
em um vespeiro do corporativismo: reitores das universidades públicas resistem
em abrir mão das verbas destinadas ao ensino superior, da mesma forma que
rejeitam a abertura da educação ao investimento internacional. O
projeto de reforma universitária em tramitação no Congresso
prevê que apenas 30% do capital das universidades brasileiras possa ficar
nas mãos de instituições estrangeiras. "Esse protecionismo
está na contramão de tudo o que foi feito em países como
Cingapura e Chile, onde a abertura ao mercado externo trouxe a competição,
elevou a produtividade e criou uma revolução na educação",
afirma o especialista Claudio de Moura Castro.
No domingo, o Brasil terá um presidente eleito. Mas os desafios do país
são velhos conhecidos. O preço de não querer enfrentá-los
será pago por todos os brasileiros pertençam eles à
parte arcaica ou ao pedaço moderno. Ao trabalho, portanto.
Os motivos dos eleitores VEJA
esteve em oito estados para saber em quem os brasileiros votarão e por
quê. As entrevistas sugerem que os eleitores de Lula e os de Alckmin usaram
critérios distintos para decidir seu voto. Os que votam em Lula justificam
a opção citando a queda do preço de alimentos da cesta básica,
o emprego conquistado por um parente, os benefícios assistenciais promovidos
pelo governo. Já os que apóiam Alckmin costumam apontar razões
mais conjunturais. Falam da necessidade de reformas, de maior dinamismo no comércio
exterior e do combate à corrupção. Noventa eleitores declaram
as razões de sua escolha. | | Com
reportagem de Duda Teixeira, Renato Piccinin
e Clara Passi |