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André
Petry Tudo às escuras
"Alckmin não foi capaz de usar a campanha
para mostrar o essencial: que o projeto tucano é diferente do projeto
petista"
No dia 26 de setembro de 1960, aconteceu o célebre debate televisivo entre
John Kennedy e Richard Nixon, que inaugurou a idéia de colocar candidatos
em confronto em transmissões ao vivo. No dia seguinte, Clark Clifford,
conselheiro de Kennedy, mandou-lhe uma carta curta e objetiva. Elogiava o desempenho
de Kennedy e alinhava três sugestões para os debates seguintes. A
primeira dizia assim: "Nixon está dizendo que vocês dois têm
os mesmos objetivos, apenas diferem sobre os meios de alcançá-los,
mas isso é falso". E encerrava, apelando: "Você não pode permitir
que ele crie a ilusão de que vocês trabalham para o mesmo fim". Kennedy
não permitiu. E ganhou. Na campanha de Geraldo
Alckmin, faltou alguém para lhe dar esse conselho singelo. As pesquisas
indicam que, neste domingo, Alckmin perderá a eleição. Mas
o problema não é perder uma eleição. Isso é
próprio da democracia. Alguém sempre perde. O problema é
perder a eleição sem cumprir seu papel de apresentar-se como uma
alternativa concreta. Alckmin não foi capaz de usar sua campanha para mostrar
o essencial: que o projeto tucano é diferente do projeto petista.
Não mostrou que seu partido defende a radicalização da experiência
social-democrata no Brasil, mobilizando todo o seu empuxo modernizador e seu sentido
libertário. Não defendeu sua crença no capitalismo avançado.
Não conseguiu sequer defender a privatização. Em vez disso,
resolveu fazer o campeonato da intensidade: era mais emprego, mais escola, mais
crescimento. No auge dessa disputa, Alckmin disse que era mais esquerda do que
Lula e mais pobre do que Lula (a contenda patrimonial, a se julgar pelas declarações
de bens apresentadas pelos candidatos, dá 691.000 reais contra 839.000
reais, com vantagem para Lula, o menos pobre). É
possível que a exposição das idéias tucanas não
levasse à vitória eleitoral, mas o inverso também não
levou e, para piorar, ainda deixou tudo às escuras. Se mostrasse com clareza
que o projeto tucano é diferente do projeto petista, a oposição
poderia até não mudar o resultado das urnas, mas colheria dois dividendos:
teria ajudado no seu compromisso pedagógico de esclarecer as massas, que
é papel da oposição em qualquer democracia, e não
teria se rendido à demagogia paralisante de que o país pode crescer
sem cortar nada, pode crescer sem fazer sacrifícios, pode crescer sem suor.
O único campo em que Alckmin tentou cravar
a diferença foi na ética. Diante da bandalheira petista, parecia
galinha morta. Não era. Os tucanos ignoraram que, tendo escondido Eduardo
Azeredo nas sombras do valerioduto, não podiam falar como guardiães
da moralidade pública. No fundo, os tucanos subestimaram a capacidade da
bandidagem petista de recuperar um discurso, qualquer discurso, e esqueceram de
organizar o seu próprio. Por isso, gritaram mais contra o dossiê
do que contra o mensalão quando, pela natureza dos crimes, deveria
ter sido justamente o contrário. O dossiê é uma delinqüência.
O mensalão é uma patologia. Repetindo:
"Você não pode permitir que ele crie a ilusão de que vocês
trabalham para o mesmo fim". Deu no que deu. |