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Roberto
Pompeu de Toledo
Casa
e rua duelam
nas
urnas
A
campanha em São Paulo opôs duas
ordens de moralidade, dominantes em
dois espaços diferentes
Existe
a casa e existe a rua. Na casa prevalecem certas regras, na rua
outras. Na casa impera certo tipo de moral, na rua outro. Quem quer
que tenha lido um livro, artigo ou entrevista do antropólogo
Roberto da Matta sabe do que se está falando. É dele
a sagaz distinção entre casa e rua, na psicologia
do brasileiro. Somos um em casa, outro na rua, entendida a casa
como expressão da vida privada e a rua a da vida pública.
A casa, como locus por excelência da vida privada, é
o lugar onde se impõem soberanas as relações
familiares e afetivas. A rua, lugar do convívio entre estranhos,
é, ou deveria ser, regida pelas regras de civilidade das
quais depende o bom funcionamento da sociedade. O brasileiro é
um povo que dedica valor diverso a um espaço e outro. Em
casa, só para citar um exemplo comezinho, e mesmo à
custa de simplificar as formulações de Da Matta, de
resto aqui citadas com bastante liberdade, apenas como ponto de
partida, longe da riqueza com que costuma qualificá-las o
autor, prevalece a regra de que só se joga lixo na lata de
lixo. Na rua, joga-se onde bem se entender. Até se atira
lata de cerveja da janela dos ônibus, uma das modalidades
de arremesso prediletas entre nós.
A dicotomia entre a moralidade da casa e a moralidade da rua esteve
presente de maneira acentuada na campanha para a prefeitura de São
Paulo. O leitor de outra cidade, não familiarizado com a
campanha paulistana, tenha em conta, para começar, que ela
foi carregada de duras acusações. Foi suja, para recorrer
ao adjetivo de costume. Houve múltiplos argumentos assacados
um contra o outro pelos dois candidatos Paulo Maluf, do PPB,
e Marta Suplicy, do PT. Da soma de tudo o que disseram, no entanto,
pode-se concluir que prevaleceram duas ordens de acusações,
ou dois temas centrais, cada qual esposado por um dos contendores.
Marta Suplicy bateu na tecla da improbidade do adversário.
Lembrou, sem cessar, os processos por mau uso do dinheiro público
e a fama de inescrupuloso que o ronda, nas práticas políticas
e administrativas. Já Maluf carregou fortemente na lembrança
de que a adversária é a favor do aborto e do reconhecimento
da união entre homossexuais, além de escrever livros
de educação sexual, quando não insinuou, no
momento de maior inclinação para a baixeza, que conhecia,
e poderia divulgar a qualquer momento, detalhes embaraçosos
de sua vida conjugal.
O leitor já percebe que a clássica divisão
lembrada acima regia as duas ordens de acusações.
Marta Suplicy lançava mão dos argumentos da "rua".
Seu ponto era a moralidade do outro na vida pública. Já
Maluf aferrava-se aos argumentos da "casa". Servia-se dos assuntos
mais polêmicos no campo do afeto e da família, que
são os de fundo sexual, na tentativa de mobilizar os pavores
recônditos do eleitorado. A campanha não foi só
isso, e Maluf tentou explorar também a vinculação
da adversária com um partido que desperta fundas aversões,
como o PT, mas fiquemos nisso. Fiquemos no embate entre casa e rua,
que foi o leito por excelência por onde escorreu a campanha.
Quem venceria? Ou, por outra, que tipo de desqualificação
do adversário revelaria maior eficácia, a denúncia-casa
ou a denúncia-rua? Na resposta a tal indagação
podia surgir algo de revelador do estado atual da sociedade brasileira.
Registre-se que Maluf contava, para maior eficácia de sua
estratégia, com o fato de a adversária ser mulher.
Escrever livros, ou falar desabridamente sobre sexo na televisão,
como fez Marta Suplicy ao tempo em que participava do programa TV
Mulher, é algo que dificilmente seria assacado contra
candidato homem. Muito menos se insinuaria alguma coisa sobre sua
vida conjugal, mesmo porque haveria o risco de ninguém se
importar com isso. Maluf contava com o estereótipo da mulher
santa e sagrada, rainha do lar, doméstica e domesticada,
para que suas acusações e insinuações
produzissem efeito. De outro lado tinha a seu favor a crônica
dificuldade brasileira em exigir da vida pública os mesmos
padrões de moralidade que, certa ou erradamente, com ou sem
hipocrisia, se costuma exigir por aqui da vida privada. Este é
o país onde um crime da "rua", vale dizer, filiado ao universo
público, como o de sonegação, é encarado
como crime menor. Wanderley Luxemburgo que o diga, e, se ele não
disser, que o digam os responsáveis pelos consultórios
onde se pratica o conhecido "com ou sem recibo?"
Esta página foi escrita antes da eleição. As
pesquisas confirmavam o favoritismo de Marta Suplicy, mas indicavam
ao mesmo tempo que a derrota de Paulo Maluf não seria tão
aplastrante como se julgou a princípio. Ao contrário,
ele teria votação suficiente para garantir-lhe uma
sobrevida política que de outra forma estaria ameaçada.
Isso poderia ser debitado a muitos fatores, inclusive a aversão
ao PT. Mas teria a ver também, sim, devia ter a ver, com
a força, na sociedade brasileira, dos argumentos da "casa",
tão mais fortes, e insidiosos, e daninhos, quanto se têm
revelado historicamente fracos os argumentos da "rua".
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