Artes e Espetáculos Ensaio

Esta semana
Sumário
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Novelas de Lúcio Cardoso são relançadas
Borges e os Orangotangos Eternos, de L.F. Verissimo
Os textos sobre medicina de Michael Crichton
Estudo clássico sobre o Rio de Janeiro antigo
Gugu nunca ganhou tanto dinheiro
Atores de comerciais querem melhores cachês
O novo disco da banda irlandesa U2
Os filhos dos famosos
Gerhard Schroeder é sucesso nas rádios alemãs
E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?, dos irmãos Coen
DVD americano de Toy Story 2 tem cenas de filme adulto

Colunas
Diogo Mainardi
Luiz Felipe de Alencastro
Sérgio Abranches
Roberto Pompeu de Toledo

Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Contexto
Holofote
Veja essa
Arc
Hipertexto
Gente
Datas
Cotações
Para usar
VEJA Recomenda
Os mais vendidos

Arquivos VEJA
Para pesquisar nos arquivos da revista, digite uma ou mais palavras

Busca detalhada
Arquivo 1997-2000
Busca somente texto 96|97|98|99
Os mais vendidos
 

Roberto Pompeu de Toledo

Casa e rua duelam
nas urnas

A campanha em São Paulo opôs duas
ordens de moralidade, dominantes em
dois espaços diferentes

Existe a casa e existe a rua. Na casa prevalecem certas regras, na rua outras. Na casa impera certo tipo de moral, na rua outro. Quem quer que tenha lido um livro, artigo ou entrevista do antropólogo Roberto da Matta sabe do que se está falando. É dele a sagaz distinção entre casa e rua, na psicologia do brasileiro. Somos um em casa, outro na rua, entendida a casa como expressão da vida privada e a rua a da vida pública. A casa, como locus por excelência da vida privada, é o lugar onde se impõem soberanas as relações familiares e afetivas. A rua, lugar do convívio entre estranhos, é, ou deveria ser, regida pelas regras de civilidade das quais depende o bom funcionamento da sociedade. O brasileiro é um povo que dedica valor diverso a um espaço e outro. Em casa, só para citar um exemplo comezinho, e mesmo à custa de simplificar as formulações de Da Matta, de resto aqui citadas com bastante liberdade, apenas como ponto de partida, longe da riqueza com que costuma qualificá-las o autor, prevalece a regra de que só se joga lixo na lata de lixo. Na rua, joga-se onde bem se entender. Até se atira lata de cerveja da janela dos ônibus, uma das modalidades de arremesso prediletas entre nós.

A dicotomia entre a moralidade da casa e a moralidade da rua esteve presente de maneira acentuada na campanha para a prefeitura de São Paulo. O leitor de outra cidade, não familiarizado com a campanha paulistana, tenha em conta, para começar, que ela foi carregada de duras acusações. Foi suja, para recorrer ao adjetivo de costume. Houve múltiplos argumentos assacados um contra o outro pelos dois candidatos – Paulo Maluf, do PPB, e Marta Suplicy, do PT. Da soma de tudo o que disseram, no entanto, pode-se concluir que prevaleceram duas ordens de acusações, ou dois temas centrais, cada qual esposado por um dos contendores. Marta Suplicy bateu na tecla da improbidade do adversário. Lembrou, sem cessar, os processos por mau uso do dinheiro público e a fama de inescrupuloso que o ronda, nas práticas políticas e administrativas. Já Maluf carregou fortemente na lembrança de que a adversária é a favor do aborto e do reconhecimento da união entre homossexuais, além de escrever livros de educação sexual, quando não insinuou, no momento de maior inclinação para a baixeza, que conhecia, e poderia divulgar a qualquer momento, detalhes embaraçosos de sua vida conjugal.

O leitor já percebe que a clássica divisão lembrada acima regia as duas ordens de acusações. Marta Suplicy lançava mão dos argumentos da "rua". Seu ponto era a moralidade do outro na vida pública. Já Maluf aferrava-se aos argumentos da "casa". Servia-se dos assuntos mais polêmicos no campo do afeto e da família, que são os de fundo sexual, na tentativa de mobilizar os pavores recônditos do eleitorado. A campanha não foi só isso, e Maluf tentou explorar também a vinculação da adversária com um partido que desperta fundas aversões, como o PT, mas fiquemos nisso. Fiquemos no embate entre casa e rua, que foi o leito por excelência por onde escorreu a campanha. Quem venceria? Ou, por outra, que tipo de desqualificação do adversário revelaria maior eficácia, a denúncia-casa ou a denúncia-rua? Na resposta a tal indagação podia surgir algo de revelador do estado atual da sociedade brasileira.

Registre-se que Maluf contava, para maior eficácia de sua estratégia, com o fato de a adversária ser mulher. Escrever livros, ou falar desabridamente sobre sexo na televisão, como fez Marta Suplicy ao tempo em que participava do programa TV Mulher, é algo que dificilmente seria assacado contra candidato homem. Muito menos se insinuaria alguma coisa sobre sua vida conjugal, mesmo porque haveria o risco de ninguém se importar com isso. Maluf contava com o estereótipo da mulher santa e sagrada, rainha do lar, doméstica e domesticada, para que suas acusações e insinuações produzissem efeito. De outro lado tinha a seu favor a crônica dificuldade brasileira em exigir da vida pública os mesmos padrões de moralidade que, certa ou erradamente, com ou sem hipocrisia, se costuma exigir por aqui da vida privada. Este é o país onde um crime da "rua", vale dizer, filiado ao universo público, como o de sonegação, é encarado como crime menor. Wanderley Luxemburgo que o diga, e, se ele não disser, que o digam os responsáveis pelos consultórios onde se pratica o conhecido "com ou sem recibo?"

Esta página foi escrita antes da eleição. As pesquisas confirmavam o favoritismo de Marta Suplicy, mas indicavam ao mesmo tempo que a derrota de Paulo Maluf não seria tão aplastrante como se julgou a princípio. Ao contrário, ele teria votação suficiente para garantir-lhe uma sobrevida política que de outra forma estaria ameaçada. Isso poderia ser debitado a muitos fatores, inclusive a aversão ao PT. Mas teria a ver também, sim, devia ter a ver, com a força, na sociedade brasileira, dos argumentos da "casa", tão mais fortes, e insidiosos, e daninhos, quanto se têm revelado historicamente fracos os argumentos da "rua".

 

Copyright 2000
Editora Abril S.A.
  VEJA on-line | Veja São Paulo | Veja Rio | Veja Recife | Guias Regionais
Edições Especiais | Site Olímpico | Especiais on-line
Arquivos | Downloads | Próxima VEJA | Fale conosco