Adeus,
computador
O grupo irlandês U2 volta ao rock e às
letras
de cunho social em seu novo disco
Sérgio
Martins
Kevin Westenberg
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| U2:
eles largaram a música eletrônica e esnobaram Mick
Jagger |
Quando
lançou o álbum Achtung Baby, no final de 1991,
o quarteto irlandês U2 assustou boa parte de seus fãs.
O disco era ótimo, mas representava uma mudança radical
na trajetória da banda. Conhecidos por fazer rock de boa
cepa misturado com letras que defendiam causas sociais, em Achtung
Baby os músicos iniciaram um namoro firme com a música
eletrônica. O tempo provou que a decisão do U2 foi
mais do que acertada. Astros como David Bowie, Madonna e até
o vetusto Paul McCartney acabaram por flertar com os ruídos
estranhos, com o "plunct plact zoom" proporcionado pelos computadores.
Passados quase dez anos de sua iniciativa pioneira, os roqueiros
aprontam novamente. Em All That You Can't Leave Behind,
que chega às lojas brasileiras neste domingo, o U2 varreu
os computadores e a bateria eletrônica para debaixo do tapete.
Aumentou o volume das guitarras e produziu sua melhor safra de refrões
e melodias em muitos anos. Resumindo: eles voltaram em grande estilo
ao bom e velho rock'n'roll.
A
guinada já vinha sendo anunciada havia algum tempo. Toda
vez que conversava com os jornalistas, o cantor Bono Vox confessava
estar compondo músicas que lembravam a primeira fase do grupo.
A última pista de que o U2 estava voltando aos braços
do rock foi o recrutamento dos produtores Brian Eno e Daniel Lanois.
A dupla foi a responsável pelos maiores sucessos da banda,
entre eles o celebrado Joshua Tree. Bono também retomou
com afinco seu figurino de defensor dos fracos e oprimidos, que
andava meio abandonado. Ele é um dos mentores da campanha
que pede para que os países do Primeiro Mundo aceitem um
calote de 100 bilhões de dólares dos países
africanos. Mais do que nostalgia dos tempos em que músico
tinha de aprender a tocar um instrumento e não a programar
computador, a reviravolta do U2 é uma estratégia de
sobrevivência. Ao contrário de bandas como os Rolling
Stones, que sempre defenderam o mesmo estilo musical, os roqueiros
da Irlanda crêem que é necessário mudar para
que o sucesso continue igual. O U2 surgiu na década de 70,
em meio à explosão do punk rock na Europa. Suas letras
falavam de problemas políticos, como a eterna luta entre
católicos e protestantes que assombra sua terra natal. Quando
a vertente do "rock com mensagem" virou mania, o U2 se rebelou contra
os estereótipos que ajudara a criar e lançou Achtung
Baby. Agora, com a banalização da música
eletrônica e com a ascensão de grupos como o Backstreet
Boys e o 'NSync, a trupe irlandesa chegou à conclusão
de que era hora de plugar novamente a guitarra.
All
That You Can't Leave Behind não tem fôlego para
superar os clássicos da banda. Mas tem canções
superiores a Pop, o canto do cisne da era eletrônica
do U2. Algumas, com o tempo, talvez se tornem antológicas.
Beautiful Day, o single de estréia do CD (que entrou
em primeiro lugar da parada inglesa na semana de seu lançamento),
confirma o talento do guitarrista The Edge para produzir fraseados
de guitarra que grudam na cabeça do ouvinte. Stuck in
a Moment You Can't Get Out Of traz à tona a faceta soulman
do vocalista Bono Vox. Originalmente, a faixa teria a participação
do stone Mick Jagger e de sua filha, Elizabeth, nos vocais. Isso
não ocorreu. "A música tomou um rumo diferente e a
participação deles ficaria esquisita", justifica o
guitarrista The Edge. Em New York, Bono Vox parece encarnar
o roqueiro Lou Reed, que passou a vida a retratar os tipos esquisitos
que vivem naquela cidade americana. Como já foi dito, em
algumas letras o U2 reassumiu sua atitude "vamos salvar o mundo".
As chances de o planeta melhorar por causa disso são nulas.
Mas, pelo menos, All That You Can't Leave Behind é
um refúgio para aqueles em busca de boa música.
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