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Remédio amargo

Um livro chato sobre hospitais, do criador
de Plantão Médico

Flávio Moura

No fim da década de 60, o escritor americano Michael Crichton era aluno de medicina em Harvard. Para obter o diploma, teve de passar uma temporada de sete meses como assistente no Hospital de Massachusetts, em Boston. Cinco Casos (tradução de Roberto Grey; Rocco; 191 páginas; 21 reais), que chega às livrarias nesta semana, é o relato do tratamento de cinco pacientes que o autor observou nesse período, seguido de reflexões sobre o ambiente hospitalar e sobre as mudanças por que passava a medicina na época. O livro não tem nem um milésimo da dose de aventura e suspense com que estão acostumados os leitores de Michael Crichton, um mestre do thriller americano e autor, entre outros, de Parque dos Dinossauros e Revelação. Por que, então, publicar essa obra no Brasil agora, 31 anos depois de ela ter sido escrita? Primeiro, porque Crichton já vendeu mais de 100 milhões de livros em todo o mundo. A esta altura, poderia publicar as receitas de bolo da avó que teria leitores garantidos. Segundo, porque, embora nunca tenha exercido a medicina de fato, a experiência no hospital lhe serviu de matéria-prima para escrever a série televisiva Plantão Médico. Já exibida no Brasil pela Globo, a série foi capa da revista Newsweek e vencedora de oito prêmios Emmy (o Oscar da televisão), em 1995.

Ainda que a campanha publicitária que acompanhou o lançamento da obra nos Estados Unidos tenha tentado situá-la como "o Plantão Médico na vida real", o que o livro faz é um arrazoado frio, em tom de trabalho de aluno de faculdade, sobre a medicina americana. Se na TV o mundo hospitalar era apenas um pretexto para abordar sexo e poder, na "vida real" esse mundo aparece em seus contornos mais ordinários e desinteressantes. No lugar do bonitão George Clooney escapando para a sala de limpeza com belas enfermeiras, os leitores terão de se empolgar com o sangramento da parte inferior do trato gastrointestinal ou com as complicações da úlcera e da pancreatite aguda. No prefácio à reedição de Cinco Casos (o livro foi republicado nos Estados Unidos, em 1994), Crichton diz que preferiu não mexer no texto para deixá-lo como "um retrato de como eram encaradas as questões relativas à saúde". Se você quer mesmo saber como era a relação entre médicos residentes e estudantes de medicina num hospital de Boston em 1969, vá em frente e compre o livro. Caso contrário, poupe seu dinheiro. Michael Crichton não notará a diferença em sua conta bancária.

 
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