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Dostoievski mineiro

Um autor a ser redescoberto: Lúcio Cardoso,
dono de uma obra marcada pelo tormento

Flávio Moura

A obra de Lúcio Cardoso (1912-1968) não é adotada nas escolas e seu nome raramente encontra eco fora dos círculos de iniciados. Lúcio, contudo, empreendeu feitos notáveis entre os autores brasileiros. Numa época em que o romance regionalista se impunha como regra, ele deixou de lado as descrições de "paisagens e homens da terra". Mergulhou fundo em questões existenciais e, dessa forma, produziu textos febris, torturados – como se fosse um Dostoievski nascido em solo mineiro. Duas de suas principais novelas, Mãos Vazias, de 1938, e O Desconhecido, de 1940, estão sendo relançadas em volume único pela editora Civilização Brasileira (317 páginas; 32 reais). Fora de catálogo há mais de três décadas, elas são admiráveis por sua força e viço, e importantes por terem prenunciado a obra-máxima do escritor, Crônica da Casa Assassinada, de 1959.

Em Mãos Vazias, o narrador põe a nu as angústias de Ida, mulher que, no mesmo dia da morte de seu filho de 6 anos, trai o marido com o médico que cuidou da criança. Já O Desconhecido – considerada pelo crítico Álvaro Lins "uma das obras mais poderosas da nossa literatura moderna" – conta a história de um homem que se emprega numa fazenda decadente e desestabiliza a vida dos que já estavam por lá. As duas novelas têm atmosfera sombria e personagens que caminham na fronteira entre a sanidade e a loucura. Do ponto de vista estilístico, o que mais se destaca nelas é o derramamento da linguagem e um uso de adjetivos e imagens que se poderia qualificar de "expressionista". Esses recursos seriam explorados ao máximo em Crônica da Casa Assassinada, narrativa composta de fragmentos de cartas, diários e depoimentos dos membros da aristocrática – e arruinada – família Meneses. Definido por um jornal francês como um "folhetim tumultuosamente filosófico", o livro traz personagens dilacerados e aborda tabus como o incesto e a homossexualidade. A condição de homossexual, aliás, era um martírio para Lúcio, que utilizava a literatura como meio de expiar sua culpa.

"Acredito apenas no romance que foi criado com as vísceras, os ossos, o corpo inteiro, o desespero e a alma doente do seu autor", declarou o escritor certa vez. Escrever para ele era isso: virar a alma pelo avesso. Embora o Brasil esteja caracterizado em sua obra – seus personagens quase sempre estão imersos em ambientes provincianos e sufocantes da fronteira entre Minas e Rio de Janeiro –, Lúcio preferiu mergulhar verticalmente na individualidade. Ele influenciou profundamente a escritora Clarice Lispector, sua parente literária mais próxima. Autora-símbolo da introspecção nas letras nacionais, Clarice chegou a dizer que poderia imaginar-se casada com aquele "corcel de fogo". Carlos Drummond de Andrade e Sérgio Buarque de Holanda, entre outros intelectuais, também não escondiam a admiração que sentiam por ele. Alcoólatra, Lúcio sofreu um derrame cerebral em 1962. Sem fala e com o lado direito paralisado, educou a mão esquerda e começou a pintar com a mesma urgência e compulsão com que escrevia. Fez quadros com cores fortes e luminosas, que conquistaram sua cota de fãs. Mas foi mesmo com as sombras torturadas de sua literatura que Lúcio Cardoso conquistou um lugar de honra na cultura brasileira.

 

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