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Argentina tenta manter
a pose

Empobrecidos, os argentinos se esforçam
para
convencer o mundo de que seu país
tem futuro

Raul Juste Lores e Carlos Prieto

 
AFP
Pobres em Buenos Aires (à esq.), De la Rúa, a primeira-dama e o rei espanhol, Juan Carlos : crise e pompa

A palavra recessão tem um significado mais amargo na Argentina. Apesar de seguidas crises e do empobrecimento geral, a população vinha mantendo o nariz empinado. Agora a coisa está ficando mais difícil. Buenos Aires tem o metrô mais antigo e as avenidas mais largas entre as capitais da América Latina. Os argentinos sempre tiveram um nível de escolaridade mais alto que os vizinhos. Coisas da ancestralidade européia, até poucos anos atrás as mulheres não usavam calças compridas nem saíam de casa sem maquiagem. O traje do dia-a-dia, até dos taxistas, era terno e gravata. Já há sinais evidentes de que a estagnação econômica começa a minar essa herança, que foi a marca registrada do país por quase todo o século XX. "O avô vê o filho vivendo pior que ele. E o neto não tem perspectiva", resume o sociólogo argentino Artemio Lopez, diretor da Consultoria Equis.

Segundo Lopez, há vinte anos 60% dos argentinos pertenciam à classe média. Hoje, são apenas 40%. Os que saíram dessa faixa empobreceram, e a classe média não tem mais cacife para gastar como no passado. No supermercado, boa parte dos compradores abandonou as marcas preferidas em favor de produtos mais baratos. "Nem as vendas de cerveja aumentam", reclama o gerente da Câmara Cervejeira Argentina, Antonio Fovakis. No Dia das Mães, celebrado no segundo domingo de outubro, os comerciantes registraram uma queda de 20% no movimento das lojas em relação ao mesmo período do ano passado.

 
AP
AP
Manifestação de trabalhadores e desempregado passeando com cães: 40% dos argentinos ganham dinheiro na informalidade

Em Buenos Aires, onde a renda per capita é 22.000 dólares anuais, similar à de países desenvolvidos, os sinais da estagnação são visíveis. Só no último mês, quatro elevadores despencaram. Um escândalo em si mesmo. Assustador quando as investigações mostraram que, por economia, os moradores autorizaram o síndico a adiar permanentemente os trabalhos de manutenção. No metrô, não há vagão que não seja visitado por pedintes ou vendedores ambulantes, coisa que nunca se viu na cidade. O número de favelados na capital chegou a 100.000, o dobro do que havia dez anos atrás. E o número de cuidacoches, como são conhecidos os flanelinhas, aumenta a cada dia. Há apenas cinco anos, eles eram personagens desconhecidos na cena urbana da capital. Em comparação com as agruras econômicas já enfrentadas pelos vizinhos, até mesmo o Brasil, a recessão argentina não é superlativa. O que dói mesmo é quando os portenhos comparam sua qualidade de vida atual com a que desfrutaram seus antepassados. Ou quando vêm a posição relativa de seu país no mundo atual em comparação com a potência regional que foi durante décadas.

Em outras temporadas de crise, quando a inflação era alta, o desemprego maior que o atual e a economia do país encolhia, os argentinos ainda davam um jeitinho de adiar o pagamento de suas contas e alisar a roupa velha para sair e tomar chocolate quente nas casas de chá. Mas as dificuldades se prolongaram demais no tempo, e não é mais possível disfarçar a situação. O maior sucesso de bilheteria – 1 milhão de pessoas foram assisti-lo e adoraram – é o filme Nueve Reinas (Nove Rainhas, em português), em que se conta a história de dois ladrõezinhos espertalhões que escapam das dificuldades aplicando pequenos golpes. "O público se identifica com os personagens que perseguem por todos os meios, mesmo os antiéticos, a perspectiva de melhorar de vida", diz o diretor do filme, Fabián Bielinsky.

Pelo manual dos investidores de Wall Street, das agências de avaliação de riscos e até do FMI, a Argentina vem fazendo tudo certo. A cada soluço de crise, o governo aperta ainda mais o torniquete dos gastos públicos. Na última década, o governo enfrentou três crises com medidas que aprofundaram a recessão. Isso ocorreu em 1990, 1995 e 1999. O que os argentinos se perguntam agora é se valeu a pena tanto esforço fiscal. As opiniões se dividem. Quando se ignoram as opiniões marcadamente ideológicas e aquelas com claro interesse político imediato, o que sobra é uma grande indagação. E uma enorme perplexidade coletiva, uma melancolia que os fracos indicadores de melhora não parecem ser suficientes para dissipar. Para este ano está previsto um crescimento econômico de 0,5%, comparado com uma queda de produção de 3,2% no ano passado. Embora reclamem muito das desvantagens cambiais ocasionadas pela paridade constitucional do peso com o dólar, os argentinos estão exportando 15% mais, neste ano, que no ano passado. Os números maiores da economia indicam que o país está numa rota de recuperação. Mas os efeitos do progresso demoram a repercutir no dia-a-dia das pessoas.

Na semana passada, a sensação que se tinha era de que a Argentina estava à beira do precipício. Uma crise política deflagrada por denúncias de corrupção no governo e pela renúncia do vice-presidente da República provocou tensão entre os investidores internacionais, que retiraram seus dólares da Bolsa de Valores de Buenos Aires. O presidente, Fernando de la Rúa, lançou o terceiro plano econômico em apenas dez meses de governo. As medidas foram boas – na verdade, as únicas que poderiam ter sido adotadas na tentativa de reaquecer a economia do país: houve uma série de cortes em impostos. Mas mesmo assim a popularidade de De la Rúa continuou ladeira abaixo. "As medidas estão no rumo certo, mas são tímidas. Ainda há inúmeros impostos que deixam nossa economia pouco competitiva", reclama o economista-chefe da União Industrial Argentina, Federico Polli. O problema é que existe o risco de, cortando demais os impostos, o governo ficar sem caixa para honrar seus compromissos e perder o crédito com o Fundo Monetário Internacional, que tem ajudado a nação a enfrentar a dolorosa saída do casulo para a vida num mundo de economia aberta e globalizada. A moeda local atrelada ao dólar paira como uma ameaça sobre a capacidade competitiva da economia. Mas, por outro lado, funciona como um escudo contra a especulação externa contra a moeda. "Uma corrida especulativa contra o peso argentino é muito pouco provável", diz Domingo Cavallo, o ex-ministro da Economia e pai da conversibilidade da moeda argentina.

Com a promessa de produzir um superávit de 1,9% do PIB no ano que vem, poucos analistas desconfiam genuinamente da capacidade argentina de pagar seus débitos. Ainda assim, muitos agentes do mercado financeiro internacional preferem manter o país no limbo da desconfiança. Para a maioria deles, a confiança só voltará quando a nação retomar o crescimento. "O crescimento só será possível no momento em que os argentinos se convencerem de que sua vocação está no desenvolvimento dos serviços e do turismo", diz João Paulo Cândia Veiga, pesquisador da Universidade de São Paulo especialista em Mercosul.

 
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