Eles
estavam vivos
Bilhete
mostra que pelo menos
23 sobreviveram no Kursk
Reuters

O
capitão Kolesnikov, autor da mensagem: "Não
há como escapar" |
Só agora é possível um vislumbre real do pesadelo
a bordo do Kursk, o submarino nuclear russo que naufragou
no Oceano Ártico, em agosto. Um bilhete, encontrado no bolso
do uniforme de um dos quatro corpos resgatados na semana passada,
revela que pelo menos 23 marinheiros sobreviveram ao acidente que
matou de imediato a maioria dos 118 homens da tripulação.
No momento em que o escreveu e o protegeu dentro de um saquinho
plástico, o capitão Dmitry Kolesnikov, de 27 anos,
estava no escuro na parte traseira da embarcação,
a 108 metros de profundidade, e tinha como única perspectiva
a morte certa. "Toda a tripulação dos compartimentos
6, 7 e 8 veio para o compartimento 9. Há 23 pessoas aqui.
Tomamos essa decisão por causa do acidente. Nenhum de nós
pode escapar. Estou escrevendo isso no escuro", descreveu Kolesnikov.
Os submarinos russos são equipados com escafandros salva-vidas,
que permitem aos náufragos flutuar até a superfície.
Sem a ajuda externa, três marinheiros chegaram a tentar escapar
pela escotilha de emergência, sem sucesso.
Uma semana depois da tragédia, mergulhadores noruegueses
chegaram a abrir a escotilha de emergência localizada justamente
no compartimento 9, apenas para constatar que estava tudo alagado
e não havia mais ninguém vivo ali. A Marinha russa
então abandonou a esperança de encontrar sobreviventes
e se concentrou no resgate dos mortos. A questão que agora
põe um nó na garganta dos russos é que ninguém
sabe por quanto tempo os marinheiros resistiram e se foram
condenados à morte pela demora das operações
de resgate. As anotações foram feitas entre 13h34
e 15h15, o que indica que o capitão e seus 22 companheiros
sobreviveram pelo menos durante quatro horas após as duas
explosões, separadas por um intervalo de pouco mais de dois
minutos uma da outra, que puseram a pique o submarino. A Marinha
russa só localizou o Kursk dezesseis horas depois
do acidente e demorou outras quinze até que um minissubmarino
realizasse a primeira tentativa de resgate. "Apesar de o bilhete
mostrar que alguns tripulantes sobreviveram por algumas horas, não
havia como salvá-los", diz o vice-primeiro-ministro, Ilia
Klebanov.
Só um pequeno trecho do bilhete do capitão Kolesnikov
foi divulgado pelo comando da frota russa. A parte oculta, segundo
as autoridades, traz apenas mensagens particulares e seria repassada
a sua família. Kolesnikov, que comandava o setor de turbinas,
no compartimento 7, estava casado havia menos de um ano. As revelações
resgatadas do fundo do mar reabriram as feridas do que agora é
uma catarse nacional. Mais que uma simples tragédia, o desastre
do Kursk acentuou o sentimento de decadência militar
e tecnológica em que mergulhou o país, depois do fim
da União Soviética, e da incompetência das autoridades.
Sem condições técnicas de realizar o resgate,
o governo do presidente Vladimir Putin demorou a aceitar ajuda estrangeira
e, quando o fez, já era tarde demais, como agora se confirma.
É
possível que o compartimento 9 se tenha mantido enxuto por
dias. mas sem luz, aquecimento ou renovação
de oxigênio. À medida que a embarcação
era invadida pela água do mar, não restou ao capitão
Kolesnikov e seus companheiros muito mais que aguardar imóveis
pelo resgate que não veio. Qualquer movimento reduzia ainda
mais o ar respirável. É provável que, por causa
da temperatura, abaixo de 4 graus, tenham perdido a consciência
antes da morte, por parada cardíaca. Nos dias seguintes ao
acidente, as equipes de resgate captaram sons vindos do submarino,
como se alguém estivesse batendo no casco pelo lado de dentro.
Mais tarde, os ruídos foram atribuídos às estruturas
metálicas se quebrando. Provavelmente eram o que pareciam
ser: pedidos desesperados de socorro.
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