Diogo Mainardi

Esta semana
Sumário
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos

Colunas
Diogo Mainardi
Luiz Felipe de Alencastro
Sérgio Abranches
Roberto Pompeu de Toledo

Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Contexto
Holofote
Veja essa
Arc
Hipertexto
Gente
Datas
Cotações
Para usar
VEJA Recomenda
Os mais vendidos

Arquivos VEJA
Para pesquisar nos arquivos da revista, digite uma ou mais palavras

Busca detalhada
Arquivo 1997-2000
Busca somente texto 96|97|98|99
Os mais vendidos
 

A mão explica tudo

Ilustração Pepe Casals


Sou a Xuxa da imprensa. Nos últimos meses, exibi meu filho nesta coluna mais ou menos como Xuxa exibiu Sasha nas passarelas de moda. A diferença é que meu filho ainda nem tinha nascido. Agora nasceu. Os primeiros dias de convivência com o desconhecido que se incorporou à minha vida recordaram-me Clint Hallam. Sabe de quem estou falando? Do neozelandês que pediu para os médicos amputarem a mão que lhe haviam transplantado. Ocorreu-me que um filho recém-nascido e uma mão transplantada são a mesma coisa. Os dois são intrusos grudados, na marra, ao nosso organismo. Os dois são praticamente inertes. Os dois são, simultaneamente, parte de nós e completos estranhos.

Mas a mão transplantada de Clint Hallam não ajuda a refletir apenas sobre a paternidade. Ela permite muitas outras leituras. É de uma riqueza alegórica infinita. Veja um problema sério como o racismo, por exemplo. Recentemente, os partidos de direita da Itália organizaram uma marcha contra a construção de uma mesquita na cidade de Lodi. Eles recusam a presença de intrusos muçulmanos em território italiano, assim como Clint Hallam recusa a mão do motociclista defunto em seu corpo. Melhor maneta do que com a mão de um forasteiro. Os partidos de direita receberam o apoio das autoridades eclesiásticas, que exigem reciprocidade: se os muçulmanos têm o direito de construir uma mesquita em Lodi, querem ter o direito de construir igrejas nos países muçulmanos. Não sei até onde vai essa reciprocidade. Se um tutsi corta a cabeça de uma freira em Ruanda, podemos cortar a cabeça de um tutsi na Itália?

É necessário dizer, porém, que a mão transplantada de Hallam também se presta à interpretação oposta. Ele quer amputá-la porque não tolera os remédios que impedem a rejeição da mão alienígena. Esses remédios minam seus anticorpos, e fazem com que ele fique exposto a todos os tipos de doença. Ou seja, rejeitar os intrusos é perigoso, mas a tolerância excessiva também o é. Meses atrás, sempre na Itália, um professor judeu alegou ter sido espancado por um bando de nazistas. Os partidos de esquerda organizaram grandes marchas (os italianos gostam de marchas) contra os de direita que, segundo eles, acobertavam os bandos nazistas. Na semana passada, o professor judeu confessou ter inventado a história do espancamento. Um verdadeiro papelão dos iluminados, bem-pensantes e politicamente corretos partidos de esquerda.

A mão de Hallam é a metáfora perfeita. Como um conto de Jorge Luis Borges, ela diz tudo e, ao mesmo tempo, o contrário de tudo. É uma ferramenta indispensável para se compreender o mundo. Se você aceita um conselho, aplique-a ao assunto que lhe interessar: o novo técnico da seleção, as últimas declarações de Sandy ou os safados em quem você acaba de votar. Pode crer que a mão explica tudo.

 

Copyright 2000
Editora Abril S.A.
  VEJA on-line | Veja São Paulo | Veja Rio | Veja Recife | Guias Regionais
Edições Especiais | Site Olímpico | Especiais on-line
Arquivos | Downloads | Próxima VEJA | Fale conosco