A mão
explica tudo
Ilustração Pepe Casals
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Sou a Xuxa da imprensa. Nos últimos meses, exibi meu filho
nesta coluna mais ou menos como Xuxa exibiu Sasha nas passarelas
de moda. A diferença é que meu filho ainda nem tinha
nascido. Agora nasceu. Os primeiros dias de convivência
com o desconhecido que se incorporou à minha vida recordaram-me
Clint Hallam. Sabe de quem estou falando? Do neozelandês
que pediu para os médicos amputarem a mão que lhe
haviam transplantado. Ocorreu-me que um filho recém-nascido
e uma mão transplantada são a mesma coisa. Os dois
são intrusos grudados, na marra, ao nosso organismo. Os
dois são praticamente inertes. Os dois são, simultaneamente,
parte de nós e completos estranhos.
Mas a mão transplantada de Clint Hallam não ajuda
a refletir apenas sobre a paternidade. Ela permite muitas outras
leituras. É de uma riqueza alegórica infinita. Veja
um problema sério como o racismo, por exemplo. Recentemente,
os partidos de direita da Itália organizaram uma marcha
contra a construção de uma mesquita na cidade de
Lodi. Eles recusam a presença de intrusos muçulmanos
em território italiano, assim como Clint Hallam recusa
a mão do motociclista defunto em seu corpo. Melhor maneta
do que com a mão de um forasteiro. Os partidos de direita
receberam o apoio das autoridades eclesiásticas, que exigem
reciprocidade: se os muçulmanos têm o direito de
construir uma mesquita em Lodi, querem ter o direito de construir
igrejas nos países muçulmanos. Não sei até
onde vai essa reciprocidade. Se um tutsi corta a cabeça
de uma freira em Ruanda, podemos cortar a cabeça de um
tutsi na Itália?
É
necessário dizer, porém, que a mão transplantada
de Hallam também se presta à interpretação
oposta. Ele quer amputá-la porque não tolera os
remédios que impedem a rejeição da mão
alienígena. Esses remédios minam seus anticorpos,
e fazem com que ele fique exposto a todos os tipos de doença.
Ou seja, rejeitar os intrusos é perigoso, mas a tolerância
excessiva também o é. Meses atrás, sempre
na Itália, um professor judeu alegou ter sido espancado
por um bando de nazistas. Os partidos de esquerda organizaram
grandes marchas (os italianos gostam de marchas) contra os de
direita que, segundo eles, acobertavam os bandos nazistas. Na
semana passada, o professor judeu confessou ter inventado a história
do espancamento. Um verdadeiro papelão dos iluminados,
bem-pensantes e politicamente corretos partidos de esquerda.
A mão de Hallam é a metáfora perfeita. Como
um conto de Jorge Luis Borges, ela diz tudo e, ao mesmo tempo,
o contrário de tudo. É uma ferramenta indispensável
para se compreender o mundo. Se você aceita um conselho,
aplique-a ao assunto que lhe interessar: o novo técnico
da seleção, as últimas declarações
de Sandy ou os safados em quem você acaba de votar. Pode
crer que a mão explica tudo.