Sérgio
Abranches
A rede das
oportunidades
"Existe
uma internet real, com resultados
importantes, que já começa a delinear
a
fronteira da nova desigualdade. É a de
transmissão de informação e conhecimento"
As
páginas de jornais e revistas estão cheias de notícias
sobre a internet. Falam da nova economia, do comércio eletrônico
ou da queda na Nasdaq, onde estão cotadas as principais
empresas da "webeconomia". Ninguém sabe realmente como
será a nova economia de rede. Pequenas idéias viraram
megaorçamentos, na aposta de investidores, dispostos a
perder alguns milhões em um milhar de empresas e ganhar
alguns bilhões, no punhado que pode ter sucesso.
O que tem dado mais certo é o uso da internet para melhorar
a eficiência nos mercados convencionais. No longo prazo,
haverá um mercado digital multimídia, de empresas
exclusivamente "virtuais". Hoje, há mais promessas do que
casos de sucesso. Como dizia Fernando Pessoa, "se quiseres, ousa".
Mas existe uma internet real, com resultados importantes, que
já começa a delinear a fronteira da nova desigualdade.
É a de transmissão de informação e
conhecimento. Um grande "webanfiteatro", onde se pode interagir
com quem tem, produz e usa informação e conhecimento.
É a "webescola", que permite realizar o velho sonho de
aprender a distância, com os melhores. Esse instrumento
é fácil de usar e ficará mais poderoso com
as mudanças iminentes, que farão a rede efetiva
e economicamente multimídia, digital e interativa.
Para a internet do e-comércio e da aliança entre
jovens criativos e capitalistas de risco ainda não temos
escala, mas as iniciativas proliferam. Para a internet do conhecimento
temos escala, mas estamos atrasados. A pesquisa do Ibope eRatings.com
sobre os internautas brasileiros, divulgada na semana passada
por VEJA, flagrou como estamos: 14 milhões de internautas,
dos quais, 9,8 milhões acessam a rede por computadores
domésticos. Os outros usam máquinas das escolas,
do trabalho, de cibercafés. Entre os vinte países
para os quais a ACNielsen coleta "webestatísticas", o Brasil
tem o quinto maior clube de internautas. Está atrás
de Estados Unidos, Japão, Inglaterra e Alemanha e à
frente de Canadá, Itália, França e Espanha.
Mas tem o menor porcentual de "plugados" na população,
inferior a 10%. Longe dos mais de 50% nos EUA e na Suécia
e mesmo dos 20% de Japão, Alemanha e Itália. Tudo
bem, mostra que ainda podemos crescer muito.
O problema é que esse perfil redesenha para pior a fisionomia
da exclusão e da desigualdade. Os "plugados" são
mais ricos e mais educados: 64% estão no Sudeste e 18%
no Sul; 72% são das classes A e B. Em pesquisa anterior,
o Ibope encontrou 68% com instrução de nível
superior ou pós-graduação. Tem acesso à
internet no Brasil quem já detém mais informação
e conhecimento, alargando-se o fosso entre "informados" e "desinformados",
critério que será determinante das oportunidades
de emprego e renda no futuro.
Mais grave é que as escolas mantêm esse perfil. Em
1999, só 3% das escolas públicas de ensino fundamental
e 10% das de ensino médio estavam "plugadas". Entre as
particulares já eram 39% e 59%, respectivamente. Nestas
últimas, estudam os filhos dos 9,8 milhões que têm
computador doméstico e também podem acessar a rede
de casa.
E ela já é uma ferramenta imprescindível
para obter conhecimento e educação. Antes dela só
tinha acesso ao conhecimento novo quem freqüentava congressos,
visitava bibliotecas e livrarias de universidades estrangeiras,
conhecia pessoalmente os colegas de outros países, fazia
estágios fora. Hoje, está tudo a um clique. Os trabalhos
estão disponíveis para download. Os autores estão
ao alcance de um e-mail, além de freqüentar as "listas"
temáticas que abundam na "webacademia", sem falar nas bibliotecas
e enciclopédias virtuais. Quem não acessa fica defasado.
Em qualquer ramo profissional, a internet já é indispensável.
Todo esse aprendizado começa na escola "plugada". Antes
de "democratizar" a web em quiosques de esquina, como planeja
fazer o governo, deveríamos usar todos os recursos para
"plugar" 100% das escolas brasileiras, públicas e privadas.
Investir para eliminar a defasagem de hoje o mais breve possível
e erradicar o "e-analfabetismo", que será mais excludente
do que é o analfabetismo convencional.
Sérgio
Abranches é cientista político (sergioabranches@sda.com.br)