O dogma e a dúvida

O papa fez a Igreja à sua imagem, mas o catolicismo
está numa encruzilhada, em busca de novos caminhos

Mario Sabino

Bispo de Roma. Vigário de Jesus Cristo. Sucessor do príncipe dos apóstolos. Sumo pontífice da Igreja universal. Patriarca do Ocidente. Primaz da Itália. Arcebispo e metropolita da província romana. Soberano do Estado da Cidade do Vaticano. Servo dos servos de Deus. Nove são os títulos a pesar sobre os ombros de um homem alquebrado pela doença, de voz balbuciante e andar trôpego que visitará nesta semana o Rio de Janeiro o polonês Karol Wojtyla, de 77 anos, há dezenove o papa João Paulo II. Incorporados ao longo de quase dois milênios de História, esses títulos refletem em sua grandiloqüência os poderes espiritual e temporal de que outrora o chefe da Igreja Católica estava investido. Ainda hoje, aos olhos de João Paulo II, tradição, hierarquia férrea e autoridade dogmática deveriam ser suficientes para que seu rebanho pascolasse tranqüilamente nos domínios pontifícios. Mas, numa época que requer religiões moldáveis a valores em constante mutação, isso está longe de ser realidade.

O papa desembarca no Rio na quinta-feira e irá embora no domingo, depois de cumprir uma agenda de compromissos que tem a família como tema central. Passados dezessete anos de sua primeira visita, o papa encontrará um Rio de Janeiro superpoliciado, já que os cuidados com sua segurança foram redobrados depois que cartazes com o retrato do pontífice apareceram sujos de tinta e pichados, um deles com o desenho de um alvo. Em seus pronunciamentos, o papa enfatizará a indissolubilidade do casamento, condenará o aborto e os métodos artificiais de contracepção. Para atenuar um pouco a sucessão de anátemas, decidiu-se que João Paulo II discorreria a respeito da necessidade de a Igreja acolher em seu regaço os fiéis que incorreram no pecado de desfazer um casamento o que não representa novidade. "Esse acolhimento, que já existe, deverá ser fortalecido", explica dom Eugênio Sales, arcebispo do Rio. "Ele visa ajudar os integrantes de famílias incompletas, especialmente os filhos."

Montagem: Lucia Mindlin Loeb
Servos dos servos de Deus: 264 papas no total, e todos eles políticos

Para os milhares de pessoas que assistirão à missa campal no Aterro do Flamengo, ápice do evento, talvez importe mais ver do que ouvir o papa. A maioria dos católicos o considera uma figura admirável, objeto até de intensa veneração, mas não infalível. Ao contrário do que João Paulo II prega com mais veemência do que os papas anteriores, boa parte do 1 bilhão de fiéis da Igreja utiliza camisinhas e pílulas anticoncepcionais, admite em diferentes graus a prática do aborto para evitar filhos indesejados e rompe casamentos que viraram uma cruz a ser carregada. Além disso, são poucos os que se definem católicos praticantes no Brasil, apenas 13% do total de pessoas batizadas se declaram como tal. A classificação, aliás, não deixa de ser curiosa, já que a adesão a uma religião implica necessariamente a freqüência a seus ritos e a observância de suas prescrições. Outro problema da Igreja é o reduzido número de padres em suas fileiras em todo o Brasil, eles são apenas 15.652, o que significa uma média de um padre para cada 10.000 brasileiros. É verdade que o número de ordenações cresceu de 284 em 1978, ano em que Wojtyla foi eleito, para 646 em 1996, mas esse incremento está longe de atender às necessidades das dioceses. Uma saída para aumentar o efetivo eclesiástico seria abolir ou flexibilizar o celibato e permitir que mulheres fossem ordenadas, algo impensável para o papa.

Diante de tantas dificuldades em impor sua doutrina, a Igreja chega ao final do século XX na mesma condição que atravessou o fim do século XIX, sob a égide de Leão XIII: procurando afirmar-se, em meio ao avanço da secularização, como uma instituição capaz de dar conta de questões morais e políticas que extrapolam o plano da fé. Leão XIII, porém, demonstrou ser mais rápido do que João Paulo II no que se refere à capacidade de adaptação às circunstâncias terrenas. É dele a encíclica Rerum Novarum, de 1891, o primeiro documento do vaticano que faz referência explícita a problemas sociais, como a luta dos operários por melhores salários e condições de trabalho. Embora tenha sido promulgada mais de quarenta anos depois da publicação do Manifesto Comunista, de Marx e Engels, a encíclica é vista como um exemplo raro de agilidade papal.

Algumas perguntas rondam hoje a cabeça de teólogos, vaticanistas e historiadores. Até que ponto o estilo de João Paulo II contribuiu ainda mais para que os católicos se distanciassem da Igreja? Teria sido diferente se ele fosse menos conservador, acreditando-se na hipótese, até agora desmentida pela História, de que possam existir papas liberais? Quais serão os desafios do próximo papa? Para respondê-las, eles tentam avaliar globalmente o pontificado ora em seu epílogo, tarefa que exige um retrospecto isento de antipatias ou simpatias doutrinárias e ideológicas. Daqui a 100 anos, os estudiosos que se debruçarem sobre sua figura talvez o definam como o papa que foi um sucesso de público e um desastre quase completo de crítica. No comando da Igreja, Karol Wojtyla vem sendo um mesmerizador de multidões desde o primeiro instante. Ao ser entronizado, em 1978, ele impressionou as milhares de pessoas presentes à cerimônia na Praça de São Pedro, em Roma, com uma frase dita em alto e bom som: "Não tenham medo". Como observa o estudioso francês Philippe Levillain, no final da década de 70 havia vários sentidos para ela: não tenham medo de um papa não italiano, o primeiro desde 1522, não tenham medo das dificuldades por que passa o catolicismo, não tenham medo do terrorismo que esgarça as democracias ocidentais, não tenham medo da ameaça nuclear que congelou o planeta na Guerra Fria.

Do ponto de vista de apelo às massas, viu-se logo, ali nascia um líder mais carismático do que seus antecessores imediatos. Paulo VI, que se ordenou padre usando uma túnica feita com o vestido de noiva de sua mãe, tinha personalidade complexa e era intelectualizado demais para comover o grande público. João Paulo I, protagonista de um pontificado relâmpago, de 34 dias, era simplório como um pároco do interior. Depois de sua morte, descobriu-se que ele havia começado a tomar aulas de inglês para fazer frente às exigências do cargo. Com João Paulo II, enfim, a Igreja parecia estar vivendo seu momento definitivo de modernização. Incisivo, poliglota e desembaraçado diante das câmaras, o papa ainda contava com uma qualidade suplementar, que poderia facilitar a aproximação com os jovens, essas ovelhas desgarradíssimas: era esportista. Suas performances sobre o esqui não só demonstravam o vigor físico e a jovialidade do pontífice como levaram ao engano de que se tratava do primeiro papa-atleta. Esqueceu-se que Pio XI, por exemplo, era praticamente um profissional do alpinismo talvez porque não houvesse televisão nem paparazzi entre 1922 e 1939, período em que ele reinou.

O aproveitamento intenso e calculado dos meios de comunicação aliado à estratégia da peregrinação (1 milhão de quilômetros percorridos mundo afora) fizeram que a imagem de João Paulo II adquirisse uma universalidade superior à do próprio catolicismo. Parafraseando a frase de John Lennon, o papa se tornou mais popular do que Jesus Cristo ou, pelo menos, mais mediatizado, para usar de um jargão contemporâneo. "A figura papal fez-se presente na Igreja e na sociedade em uma dimensão desconhecida antes de Wojtyla", diz o vaticanista italiano Giancarlo Zizola, autor do livro I Papi del XX Secolo (Os Papas do Século XX). "Isso gerou o medo de um retorno do triunfalismo e do culto à personalidade do pontífice, aspectos que haviam sido criticados durante o Concílio Vaticano II." Fortalecido por essa universalidade e popularidade, o papa lançou-se àquela que se tornou a pedra de toque de seu pontificado: o combate ao comunismo, sob o qual penavam o clero e os fiéis da Polônia desde o final da II Guerra.

"Por uma questão de nacionalidade, a ênfase na luta contra o comunismo marcou o governo da Igreja sob o atual papa", aponta o padre Alberto Antoniazzi, coordenador do curso de teologia do seminário da Arquidiocese de Belo Horizonte. Sempre às voltas com questões de fronteira, espremida entre a Alemanha de maioria protestante e a Rússia ortodoxa, quando não comunista, a Polônia é um país que tem no catolicismo um dos elementos de identidade nacional. "Todo polonês é católico, todo católico é polonês", diz uma máxima propositadamente exagerada. Assim, o anticomunismo de Karol Wojtyla assumiu uma perspectiva não só religiosa como patriótica. É sob essa luz que se deve entender, ou pelo menos tentar fazê-lo, algumas das atitudes do papa, entre elas a condenação de teologias que vicejavam no Terceiro Mundo.

A cronologia não deixa margem a dúvidas quanto à realpolitik de João Paulo II durante a Guerra Fria, que acabou por contaminar questões teológicas. Depois de ter papel relevante na criação do sindicato Solidariedade, pólo de resistência católica à União Soviética dentro da Polônia, o Vaticano estabeleceu relações diplomáticas com os Estados Unidos. Em seguida, a Congregação para a Doutrina da Fé divulgou documento em que atacava a teologia da libertação, surgida na América Latina e impregnada de preceitos marxistas. No mesmo ano, 1984, o papa interveio no episcopado americano para que os bispos voltassem atrás na sua decisão de criticar abertamente a política armamentista do governo dos Estados Unidos. Para não aborrecer seu principal aliado na cruzada anticomunista, João Paulo II chegou à minúcia de censurar a publicação das conclusões de um simpósio da Pontifícia Academia de Ciências contra o mirabolante projeto Guerra nas Estrelas, lançado pelo então presidente americano Ronald Reagan.

Diz-se que João Paulo II é muito político, o que seria seu maior defeito. A crítica é produto de um equívoco até irônico, considerando-se o histórico dos 263 papas anteriores, reconhecidos como tal pelo Anuário Pontifício. Assim como reis e imperadores, até 1870 o papa exercia seu poder diretamente sobre territórios que acabariam sendo anexados pela Itália unificada. Depois disso, todos os papas que se seguiram tentaram, em maior ou menor grau, recuperar o papel da Igreja de potência entre outras potências. Durante o nazi-fascismo, visando a sobrevivência de seu poder temporal, Pio XI assinou com outros países doze concordatos, 21 pactos diplomáticos e oito convenções. Em certo instante, chegou a proclamar que o ditador Benito Mussolini, com o qual assinou o Tratado de Latrão, pondo fim às pendengas surgidas com a unificação italiana, era "um homem que a Providência nos fez encontrar". Seu sucessor também foi claríssimo quanto às atribuições extra-religiosas do pontífice. "É uma tendência nefasta, que reina inclusive entre católicos, a que deseja confinar a Igreja nas questões ditas 'puramente espirituais'.", rugiu Pio XII, em 1951, no mesmo ano em que admitiu a validade do prazer sexual entre cônjuges, desde que submetido à disciplina dos sentidos.

No caso de João Paulo II, a atuação política passou a ser um defeito porque perdeu o sentido cedo demais, ao contrário do que aconteceu com outros papas igualmente engajados em embates temporais. O Muro de Berlim caiu antes do previsto, deixando-o sem bandeira e com uma estrutura engessada pela centralização burocrática. Esse vácuo se viu preenchido, mais do que nunca, por uma reafirmação de vetos morais em confronto direto com hábitos e costumes liberais das sociedades contemporâneas. Evidentemente, seria ingenuidade pensar que a Igreja pudesse mudar seu pensamento acerca do comportamento humano no espaço de um pontificado, mas muitos analistas acreditam que o discurso monocórdio do papa serviria principalmente para compensar uma falha de sua formação. "A teologia de João Paulo II é pobre. Mais do que um biblista, ele é um moralista eclesiástico", afirma Ettore Masina, um veterano observador da cena vaticana. A salvaguarda das premissas teológicas do atual pontificado é de responsabilidade do cardeal alemão Joseph Ratzinger, desde 1981 prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e a encarnação do diabo para a ala progressista da Igreja. "Ratzinger é o homem dos limites", critica o dominicano frei Betto. "Ele determina até onde se pode ir, sem apontar caminhos ou abrir possibilidades."

De João Paulo II se esperava, no entanto, que impulsionasse a renovação pretendida por João XXIII, que governou a Igreja entre o final de 1958 e meados de 1963. Eleito quando já contava 77 anos de idade, para ser apenas um "papa de transição", de mandato curto e sem maiores ambições, João XXIII surpreendeu os que o julgavam um homem limitado intelectualmente ao anunciar a organização do Concílio Vaticano II. Seu objetivo com essa grande assembléia religiosa era dar impulso à dimensão pastoral da instituição, atenuando o papel inquisitório por ela desempenhado nos séculos precedentes. "Abri as janelas para que os ventos da História soprassem a poeira do Trono de Pedro", definiu modestamente João XXIII, dono de uma marca reveladora de sua bonomia. Em 68 anos de magistério, a palavra "misericórdia" aparece 590 vezes em seus escritos, enquanto o termo "condenação" ocorre em apenas seis ocasiões. Em cinco anos de pontificado, ele nunca usou a palavra "inferno". Sua boa vontade também se irradiou para fora dos muros eclesiásticos. Foi sob João XXIII que os ritos papais da Semana Santa perderam expressões depreciativas em relação aos judeus, como oremus pro perfidis judaeis ("rezemos pelos pérfidos judeus").

Durante os três anos que durou o concílio, a Igreja experimentou um debate interno sem precedentes, tendo como norte o diálogo com o homem moderno e as outras religiões. Suas resoluções finais, tiradas já no reinado de Paulo VI, desfraldaram a bandeira do ecumenismo, inovaram as práticas litúrgicas, com o fim da obrigatoriedade do latinório nas missas, e prepararam o terreno para que os episcopados nacionais ganhassem maior poder de decisão em questões doutrinárias. O Vaticano II se transformaria num ponto de inflexão da história católica, mas ainda é como um grito engasgado na garganta.

Há mais de trinta anos, o espírito do concílio é um troféu disputado por progressistas e conservadores. Cada ala se apresenta como a verdadeira portadora das idéias propostas por João XXIII. O atual papa acredita piamente que está em sintonia com as diretivas do Vaticano II, tanto que todos os seus documentos importantes lhe fazem menção. "Podemos salientar o grande esforço de João Paulo II na autêntica aplicação do Concílio Vaticano II", diz dom Eugênio Sales, o maior aliado brasileiro da Cúria Romana. Os críticos de Wojtyla, porém, acham que seu esforço vem sendo na direção contrária. "Na parte doutrinária e hierárquica, seu pontificado representou um retrocesso", afirma frei Betto. "Ele esvaziou, por exemplo, as conferências episcopais."

A disputa se dá porque os documentos do Vaticano II podem ser interpretados de diversas maneiras. "Devido ao temperamento apaziguador de Paulo VI, foram adotadas fórmulas de compromisso um tanto ambíguas", explica o padre Antoniazzi. A tentativa de manter eqüidistância das duas alas fez com que o pontificado de Paulo VI caísse no limbo. O grupo de direita se afastou do papa e houve o chamado "cisma branco" com a esquerda. Também dessa perspectiva é possível compreender a centralização promovida com mão de ferro por João Paulo II foi sua maneira de unir uma Igreja em via de esgarçamento.

Refortalecida como instituição, porém enfraquecida na sua tarefa de semear a palavra de Deus, a Igreja deverá buscar no papa do terceiro milênio alguém que seja capaz de empreender um processo de evangelização que não exclua diferentes culturas e códigos morais. A própria história do catolicismo ensina que ele só se expandiu por meio da abertura, e não da rigidez. No seu exórdio, uma das discussões era se os pagãos convertidos deveriam adotar ou não os hábitos judaicos dos fundadores da Igreja, como a circuncisão e as proibições alimentares de cunho ritualístico. A ala conservadora, por assim dizer, achava que a tradição deveria ser mantida. Já a progressista, comandada pelo apóstolo Paulo (tão duro em questões morais), acreditava que esse seria um fator limitador do crescimento da religião. Paulo venceu e lançou as bases de uma instituição que vem sobrevivendo há dois milênios.




Copyright © 1997, Abril S.A.

Abril Online