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Edição 2080

1º de outubro de 2008
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Arte
O espetáculo noturno

Numa mostra fabulosa sobre a obsessão de Van Gogh pela
luz da noite, sua arte, pela primeira vez, fica acima do mito


André Petry, de Nova York

O GÊNIO ESTUDIOSO
A Noite Estrelada sobre o Reno e sua obra-prima
A Noite Estrelada (abaixo)
são fruto, quem
diria, da disciplina de Van Gogh

O holandês Vincent van Gogh (1853-1890) é um dos pintores mais conhecidos, admirados e caros do mundo. De seu pincel saíram imagens que se transformaram em ícones da cultura moderna, como a tela A Noite Estrelada (reproduzida na foto acima), cujo céu noturno é tão fascinante quanto misterioso – serão espirais de nuvens, caracóis de ventos, a própria Via Láctea? Suas pinturas estampam camisetas, reaparecem em inúmeras paródias, inspiram canções. O artista morto no fim do século XIX sobrevive como símbolo da modernidade no começo do século XXI. Por tudo isso, por sua popularidade e genialidade, imaginava-se que não faltava mais nada para dizer sobre Van Gogh. Mas eis que surgiu uma novidade. Ela está na fabulosa mostra Van Gogh e as Cores da Noite, aberta no domingo 21 no Museu de Arte Moderna de Nova York, o MoMA.

Com 23 telas, nove desenhos e algumas cartas que o pintor escreveu para amigos e parentes, sobretudo para seu irmão mais jovem, Theo, a mostra retrata o que já se sabia – o fascínio do pintor pela noite, pelo entardecer, pelo crepúsculo – e narra o que não se sabia: como Van Gogh buscou de modo minucioso, organizado e sistemático cumprir a tarefa paradoxal de representar a escuridão pela luz. Sua obsessão pela noite aparece num de seus primeiros desenhos, de 1878, quando ainda nem havia decidido ser pintor. O desenho retrata a fachada de um café durante a noite. Sua primeira obra considerada de real valor artístico, Os Comedores de Batata, de 1885, mostra uma família de camponeses jantando, iluminada por luz artificial. Sua obra-prima, A Noite Estrelada, de 1889, é sua visão mais pessoal do céu noturno.

Imagno/Getty Images
O ARTISTA DEDICADO
Os Comedores de Batata, tela de 1885, considerada sua primeira obra de real valor: seis meses de estudo

A novidade é que, na exposição do MoMA, a obra de Van Gogh fica maior que o mito de Van Gogh. Depois de pesquisas que duraram quatro anos, um dos autores da mostra, Joachim Pissarro, bisneto do impressionista Camille Pissarro (francês, 1830-1903), encontrou cartas e outros manuscritos inéditos do pintor que revelam que ele estudava cuidadosamente a composição de cada quadro. A tela Os Comedores de Batata, por exemplo, foi antecedida por seis meses de estudos meticulosos, durante os quais ele fez seguidas visitas à casa da família que pretendia retratar e explorou exaustivamente as possibilidades do chiaroscuro, o termo em italiano usado para designar o contraste de claro e escuro, de luz e sombra. O mito sugere que Van Gogh, o amalucado que cortou a própria orelha, passava noites em bares bebendo absinto, teve amizades tumultuadas e acabou se suicidando, era um artista que criava intuitivamente, com as pinceladas de um gênio indomado.

De fato, Van Gogh teve problemas mentais, sobretudo entre 1888 e 1890, cortou o lóbulo da orelha, teve uma amizade terrivelmente conturbada com Paul Gauguin (francês, 1848-1903) e matou-se com um tiro no peito, mas era um pintor disciplinado e estudioso. Sua arte genial não caiu do céu – o que mostra, para o consolo dos mortais comuns, que até os gênios precisam estudar para chegar lá. Chegar lá pode ser, por exemplo, pintar A Noite Estrelada sobre o Reno, quadro de 1888, cujos tons de azul são estonteantes – e só se materializam diante dos olhos se vistos ao vivo. Não há técnica gráfica ou fotográfica capaz de reproduzir as cores com fidelidade total. O que o leitor viu na foto maior da página anterior desta reportagem é algo que apenas se aproxima da beleza hipnótica da tela real.

Album/AKG-Images/Latin Stock
O ARTISTA PERTURBADO
Van Gogh, em auto-retrato com curativo na
orelha que ele mesmo decepou: mito do gênio amalucado

O baú de Van Gogh revela que ele era um leitor onívoro que, além de sua língua materna, o holandês, devorava livros em inglês, francês e alemão. "Ele lia tanto que podia ser crítico literário", disse a VEJA Joachim Pissarro, cujo bisavô foi amigo de Van Gogh. Lia e anotava. Pissarro descobriu que, além das cartas, o pintor mantinha álbuns em que transcrevia trechos de romances e poemas, muitos dos quais se referiam à noite, que ele tanto trabalhou para retratar. Um de seus poemas favoritos, copiado em carta para um amigo, era A Hora do Entardecer, de Jan van Beers (flamengo, 1821-1888). Ao seu irmão Theo, em 8 de setembro de 1888, escreveu assim: "Com freqüência, me parece que a noite é mais viva e mais colorida do que o dia". Foi assim, com seu poder de observação e seu talento, aliados à sua surpreendente disciplina, que Van Gogh se imortalizou.



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