Entrevista Joyce
Pascowitch
"Aconteceu comigo, e pronto"
Vivendo
no mundo dos famosos e do glamour, a colunista
conta como foram os seis meses
em que teve câncer,
fez tratamento e escondeu tudo de quase todos

Juliana
Linhares
| Roberto Setton
 | "O
médico disse que eu precisava escolher um oncologista. Pensei: que palavra
é essa? Nunca tinha passado pela minha cabeça fazer isso" |
Caçadora de notas exclusivas há
mais de vinte anos, a paulistana Joyce Pascowitch, 54, passa a vida dando notícias
sobre famosos, colunáveis, políticos e quem mais mereça aparecer.
Dona e constante agitadora do site Glamurama, ela edita duas revistas, participa
de programa de rádio e esporadicamente faz comerciais dirigidos a um público
de alto poder aquisitivo. Há seis meses, soube que estava com câncer
de mama e decidiu fazer exatamente o contrário: não contou a ninguém
fora do círculo familiar mais íntimo. Agora, passado o pior, achou
que podia ajudar outras mulheres que enfrentam a doença relatando a VEJA
sua experiência. De forma honesta, às vezes irreverente, ela fala
sobre os medos, as vitórias e a ajuda que um bom médico e
um cabeleireiro também pode dar nessas horas.
Quando
você soube que estava com câncer?
Eu soube que tinha um nódulo
no seio em março e ele foi retirado. Eu não tenho essa doença.
Eu não estou doente.
Por que
você não fala a palavra câncer?
Ninguém fala
isso. Essa palavra não foi mencionada por nenhum médico durante
meu tratamento. Só falam a palavra nódulo. Então, eu também
só falo nódulo. É mais suave.
Como
você descobriu?
Foi em um exame de rotina. O médico disse
que tinha um carocinho no meu seio e que eu precisava fazer uma punção
para ver do que se tratava. Fiz a tal punção. Dias depois, estava
na minha casa, fazendo uma massagem, quando o médico ligou e falou que
eu ia precisar ser operada para retirar um nódulo. Na hora, minha boca
amargou. Acho que de medo. Tive de ir ao banheiro fazer um bochecho. Dispensei
a massagista e liguei para o meu marido já chorando.
O
que você fez depois desse telefonema?
Foi o pior momento. Eu queria
operar no dia seguinte. Queria resolver aquele problema imediatamente. Meu médico
explicou que eu tinha, primeiro, de decidir qual a equipe que ia me operar e o
hospital onde faria a cirurgia. Entre outras coisas, falou que eu tinha de escolher
um oncologista. Pensei: que palavra é essa, oncologista? Nunca tinha passado
pela minha cabeça escolher um oncologista!
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| "Os
médicos disseram que a quimioterapia era aconselhável, mas não obrigatória, devido
ao tamanho reduzido do nódulo. Mas eu decidi fazer. Imagina, eu ando em carro
blindado, não vou blindar o meu corpo?" |
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E como você escolheu?
Eu
tive sorte, porque um dos melhores do país é amigo da família
há muito tempo. Foi muito importante poder ter um médico com quem
eu tinha afinidade. Médico é um ser humano como qualquer outro.
Às vezes, eles falam as coisas sem tato. E, nessa fase, a gente precisa
ser tratada com muito cuidado. Você não sabe de nada, fica fazendo
exames a toda hora, e ainda tem de tomar um monte de decisões estranhas.
Foi um tempo de muita correria, muito hospital, muitas idas a consultórios
médicos. Nessa hora, eu não senti medo. Acho que não deu
tempo de sentir medo.
Como foi a
operação para retirar o nódulo?
Eu descobri em março
e fui operada em abril. Depois de duas semanas, foi feita outra cirurgia para
retirar os gânglios linfáticos debaixo da axila, o que os médicos
chamam de "esvaziar". Essa é uma operação mais
de prevenção, para ter certeza de que não haverá a
propagação da doença para outras partes do corpo. Em tese,
eu não precisava ter me submetido a essa segunda cirurgia, já que,
segundo os médicos, o risco de os gânglios estarem comprometidos
era só de 1,5%. Mas eu não quis arriscar, quis tirar logo tudo.
Depois, os médicos também me disseram que a quimioterapia era aconselhável,
mas não obrigatória, entre outros fatores pelo tamanho reduzido
do meu nódulo, 1 centímetro. Mas eu decidi fazer. Imagina, eu ando
em carro blindado, não vou blindar o meu corpo?
Você
sofreu muito com a quimioterapia?
Eu não senti uma náusea
durante o tratamento. Só depois. Eu acho que é porque eu não
via a quimioterapia como algo penoso. Para mim, aquele remédio era o que
ia me curar. Eu via gente chegando à clínica e falando: "Hoje
é dia de veneno". Eu encarava de outro jeito. Pedia para as enfermeiras
me avisarem quando ele começasse a subir na minha veia e, nessa hora, dava
a mão para o meu marido. Tinha uma televisão na frente da cadeira
onde eu tomava a químio, mas nunca liguei. Eram duas horas em que eu ficava
quietinha, só pensando naquele líquido circulando pelo meu corpo
e me tratando. Depois das quatro sessões de quimioterapia, uma a cada três
semanas, aí, sim, eu me senti muito mal. Não conseguia comer, tinha
enjôos, sentia um mal-estar generalizado. Tive de tomar soro quatro dias
seguidos. Nesses dias, eu chorei muito. Chorei tudo que não tinha chorado
durante a quimioterapia. Foi o momento em que desabafei.
Permitir-se
ser fraca, ainda que ocasionalmente, também não é importante?
Muito
importante. No meu caso, eu só desabei quando acabaram as sessões
de quimioterapia porque, durante o processo, estava tão aflita para resolver
tudo que não me sentia fraca. Quando acabou, chorei feito uma bezerra.
Mas foi mais um choro de alívio do que de medo.
Seu
cabelo caiu?
Pouco. Em vez de cair, ele ficou todo enrolado em tufos, tipo
dreadlocks. Meu cabeleireiro foi fantástico. Ele soube que eu estava com
esse problema e foi, ele mesmo, comprar duas perucas para mim. As mulheres que
passam por essa situação costumam comprar suas perucas em lojas
que os hospitais indicam. É um erro. São os cabeleireiros que sabem
onde estão os melhores produtos. O meu não só comprou como
cortou e pintou minhas perucas. Elas ficaram muito parecidas com meu cabelo normal.
Uma vez por semana, mando uma delas para lavar.
Raspar
a cabeça foi o pior momento?
Eu sofri, mas nem de longe foi o momento
mais difícil. Quando eu raspei, levei meu marido e os dois filhos dele,
que eu considero meus também, para o salão. A idéia não
era cortar o cabelo naquele dia, era só lavar os dreadlocks. Mas meu cabeleireiro
me convenceu a raspar. Segurei a mão do meu marido, dei uma choradinha,
ele também, e passamos a máquina três. Até que me segurei
bem.
Como foi sair de peruca nos
dias seguintes?
Era desajeitado. Dois dias depois, resolvi sair sem ela,
só com uma touquinha de lã na cabeça. Entrei no meu carro,
falei para o motorista, que trabalha comigo há catorze anos: "Olha,
seu Alberto, eu estou carequinha!", e tirei a touca. Ele ficou tão
assustado que desabou no choro. Daí, nós nos abraçamos.
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| "A
idéia não era cortar o cabelo naquele dia, só lavar. Mas meu cabeleireiro me convenceu
a raspar. Segurei a mão do meu marido, dei uma choradinha, ele também, e passamos
a máquina três. Até que me segurei bem " |
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Seu seio ficou feio?
Eu tirei
uma parte do seio afetado, o que diminuiu o seu tamanho. Já na primeira
cirurgia, os médicos fizeram uma plástica nos dois seios para que
ficassem iguais. Geralmente, mulheres que têm mamas pequenas têm de
fazer um enxerto de pele. No meu caso, como tinha seios grandes, fiz uma plástica
redutora na mama não afetada. Acredite, fazer essa cirurgia foi ótimo.
É muito louco, porque a plástica termina ocupando um lugar importante
em meio ao sofrimento todo. Você trata aquele processo como se fosse só
uma plástica. Dá uma levantada, sabe?É um jeito de unir uma
coisa dura a algo que, esteticamente, te dá algum prazer.
Você
contou para seus amigos e familiares que estava doente?
Para pouquíssimas
pessoas. Só para meu marido, meus filhos, minhas irmãs, meus empregados,
que são muito próximos de mim, e, no escritório, para duas
assistentes que estão comigo há muitos anos. Para a minha mãe,
só contei depois da segunda sessão de quimioterapia, para poupá-la
do sofrimento. Foi uma das melhores coisas que eu fiz. Se você fala para
os seus amigos, eles ficam arrasados e, nessa hora, você não tem
força para dar apoio a ninguém. Só tem energia para cuidar
de você mesma. Dias depois que acabou a químio, contei para alguns
amigos. Convidei-os um a um para um chá na minha casa e falei tudo.
As
pessoas souberam como ajudá-la?
É importante nessa hora você
dizer para os seus amigos e para os seus parentes o que espera deles. Ao meu marido,
eu disse que queria que ele pegasse mais na minha mão. Também tive
de conversar a sério com um amigo. Ele ligava todo dia na minha casa para
saber de mim. No outro dia, me encontrava e perguntava: "Você recebeu
o meu recado?". Bom, se ele quisesse mesmo saber de mim, era só perguntar
a quem atendesse o telefone. Ele estava, na verdade, preocupado consigo mesmo,
em marcar presença, não comigo.
Você
ficou se perguntando por que a doença tinha acontecido com você?
Não.
Primeiro, porque os médicos me explicaram que eu estava dentro do que eles
chamam de grupo de risco: tenho mais de 50 anos, não tive filhos e não
amamentei. Além disso, faço análise há 31 anos. De
alguma maneira, isso me ajuda a ficar lúcida e não me vitimizar
diante de episódios ruins. Também sou muito religiosa. Acredito
que existe uma roda da vida. Ela vai girando e as coisas boas e ruins acontecem
para todo mundo. Aconteceu comigo, e pronto.
O
que mudou na sua rotina durante o tratamento?
Eu parei de ir ao cinema
e aos restaurantes que costumava freqüentar. Escolhia um bem distante da
minha casa, um japonês, por exemplo, e gostava de ficar lá, ouvindo
o sushiman falar sobre o preço do peixe. Parecia que eu estava em outra
dimensão. Era mais fácil entrar em outro mundo do que encarar o
meu.
Você tinha medo da reação
de conhecidos?
Na verdade, eu me sentia sem energia para explicar o que
estava acontecendo. Eu sabia que iam aparecer perguntas, as pessoas iam ficar
abaladas e, sinceramente, naquela altura eu só podia dar conta do meu sofrimento.
O
que aconteceu com o seu corpo?
Primeiro, minha boca se encheu de aftas
e de sapinho. Para cuidar desses problemas, existem dentistas especializados em
oncologia. Comecei a freqüentar um que passava um laser na minha boca e curou
bem as feridas. Meus dedos estão enrugadinhos, parece que eu passei horas
no banho. O médico disse que isso é normal, e que depois passa.
Também surgiram umas feridinhas no meu rosto, que eu já tirei no
dermatologista. Eu emagreci, mas meu rosto inchou. Nesse tempo todo, eu nunca
deixei de passar batom, lápis no olho e de pôr pulseira e colar.
Fiz as unhas toda semana. Só não tirava a cutícula. O médico
disse que eu tinha de manter essa proteção.
É
possível fazer amor nesse período?
Eu prefiro só te
dizer: e por que não? Meu marido tem sido maravilhoso. Ele me fala: "Vem
aqui que eu vou te agarrar, sua carequinha".
E
ginástica, você faz?
Muita. Mas um pouco mais devagar. É
importante para mim saber que ainda consigo fazer exercícios. Claro, hoje
caminho numa velocidade menor, porque o batimento cardíaco sobe muito rápido.
Continuo também praticando ioga. É engraçado, porque a ioga
tem muitos movimentos de expansão do tronco e dos braços, que expõem
justamente a área afetada. E cada vez que faço esses movimentos
eu me emociono e choro muito.
Como
você lidou com a questão do trabalho?
Durante o tratamento,
eu não parei de trabalhar. Claro, quando estava mais derrubada, não
ia ao escritório. Mas a rotina não foi afetada. Agora é que
mudou. Trabalho menos. Chego mais tarde e vou embora mais cedo. E só faço
coisas que não me tragam desconfortos. Não vou dizer que só
faço coisas que me dêem prazer porque esta, obviamente, não
é uma fase de prazeres.
Em
que fase você está do tratamento?
Estou começando a
fazer a radioterapia. Serão 33 sessões. Não dói nada.
É como tirar um raio X. Um médico me disse que a rádio é
o cafezinho da refeição. Um tempo em que você se prepara para
voltar para a sua vida de antes. Eu discordo. Não sou a mesma pessoa de
antes.