Edição 1822 . 1° de outubro de 2003

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DISCOS

 
Antonio Milena
Silvio Caldas: um arraso em Maria  

Ary Barroso: Ontem e Hoje, vários intérpretes (BMG) – Exceção feita ao nonsense do verso "Ah/ Esse coqueiro que dá coco...", de Aquarela do Brasil, Ary Barroso (1903-1964) foi um dos maiores letristas da MPB. Ele retratou brilhantemente os tipos brasileiros em suas músicas – da mulata à baiana, da vida no campo à malandragem da noite carioca –, além de ter criado belas canções de amor. O mérito desse CD duplo está em mostrar quanto Barroso permanece atual. O primeiro disco traz gravações realizadas entre as décadas de 30 e 60 e interpretações de Carmen Miranda, Aracy de Almeida e Silvio Caldas (que arrasa em Maria). O segundo CD reúne mais uma leva de sucessos do compositor, na voz de Paulinho da Viola, Chico Buarque e Gal Costa, entre outros.

 
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Os Neptunes: de rap a Britney  

The Neptunes Present... Clones, Neptunes (BMG) – Na música pop atual, não há produtores mais requisitados do que os Neptunes. Formada por Pharrell Williams e Chad Hugo, a dupla arquiteta batidas para rappers de maus bofes, como Snoop Doggy Dogg e Nelly, e também para astros teen em busca de uma "envenenada" – como Justin Timberlake e Britney Spears, que recorreram aos Neptunes em seus CDs mais recentes. Eles têm fãs também entre o jet set internacional. Pharrell teve um breve romance com Jade Jagger, filha de Mick, e a dispensou sob a alegação de que ela era "muito chata". Na parte musical, ele não é menos exigente. Clones reúne os melhores artistas produzidos pelos Neptunes, entre os quais Nelly (na sacolejante If) e a cantora Kelis (em Popular Thug).

 

LIVROS

O Último Samurai, de Helen DeWitt (tradução de Vera Ribeiro; Rocco; 540 páginas; 59,50 reais) – No clássico Os Sete Samurais, de Akira Kurosawa, um guerreiro desafia outro para uma luta com espadas de bambu. O derrotado acha que houve empate, mas o vitorioso retruca: "Se estivéssemos lutando com espadas de verdade, eu o teria matado". Criado à base de sessões semanais do filme, pelo qual sua mãe é obcecada, o pequeno e genial Ludo – capaz de ler a Ilíada em grego já aos 4 anos – adota esse mesmo método quando sai em busca de uma figura paterna. Usa a mentira que conta para cada um dos eleitos – "Eu sou seu filho" – como uma espada de bambu, com a qual testa as reações e a aptidão deles para o papel. O talento da prosa da estreante Helen DeWitt (que merecia tradução mais precisa), somado à sua idéia absolutamente original, resulta num romance a um só tempo erudito e acessível, que começa a deixar saudade antes que se chegue ao seu final.

A Luz no Subsolo, de Lúcio Cardoso (Civilização Brasileira; 368 páginas; 45 reais) – Embora não esteja entre os nomes mais conhecidos da literatura brasileira do século XX, o mineiro Lúcio Cardoso (1912-1968) desbravou um filão importante: o dos romances introspectivos e carregados de tormento existencial. Numa época em que o regionalismo reinava absoluto no gosto do público e da crítica, ele costumava dizer que os melhores livros eram aqueles feitos com "o desespero e a alma doente do seu autor". Publicado em 1936 (e fora de catálogo havia quase três décadas), A Luz no Subsolo é seu terceiro romance. A trama gira em torno de um casal cuja rotina entra numa espiral de loucura com a chegada de uma empregada. Trata-se de um belo exemplo da obra um tanto sombria do autor. Leia trecho do livro.

DVDs

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A Sangue Frio: ainda perturbador


A Sangue Frio
(In Cold Blood, Estados Unidos, 1967. Columbia) – Em 1959, dois rapazes entraram na casa da família Clutter, na região rural do Estado do Kansas, acreditando haver ali um cofre. Saíram algumas horas mais tarde, com 43 dólares e tendo cometido quatro assassinatos. Nos seis anos decorridos entre o crime e a execução dos responsáveis, Truman Capote pesquisou e escreveu o livro A Sangue Frio, um dos monumentos do "novo jornalismo". Dois anos depois, o diretor Richard Brooks adaptou esse "romance não-ficcional" com obsessão quase mórbida pela fidelidade – os assassinatos foram filmados na casa em que ocorreram de fato. O filme continua perturbador. Mas enfraquece no final, quando o personagem do jornalista profere repetidos discursos contra a pena capital – quase sempre com argumentos ingênuos e pouco elaborados. Quem acerta o ponto nevrálgico da discussão é, ironicamente, um dos assassinos, ao explicar por que é favorável à pena de morte: "Sou um sujeito vingativo. E a forca não passa de uma forma de vingança", diz ele.


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English: Mr. Bean se torna espião


Johnny English
(Inglaterra, 2003. Universal) – Funcionário subalterno do serviço secreto britânico, o atrapalhado Johnny English só ganha uma promoção para agente porque é o único sobrevivente de uma manobra desastrada (de sua própria autoria) que matou todo o pessoal do seu departamento. No exercício do cargo de espião, ele continuará demonstrando a sua peculiar combinação de inépcia e ilusões de grandeza – atividade na qual o ator Rowan Atkinson atingiu um patamar próximo da perfeição, em seus longos anos como o intérprete de Mr. Bean. Escrito pela mesma dupla de roteiristas dos dois últimos filmes do agente 007, Johnny English é uma paródia que fica melhor na tela pequena. Os extras incluem um teste de atenção: quem passar ganha o direito de assistir às cenas deletadas.


Sarita: olhar flamejante

La Violetera (Espanha/Itália, 1958. New Line) – Seu talento como atriz era quase tão delgado quanto sua cintura. Apesar disso, Sarita Montiel virou um ícone nos países de língua espanhola (e também no Brasil, onde fez apresentações) com esse melodrama – em que, faça-se justiça, ela exibe ainda seu olhar flamejante e sua bela voz. Sarita é uma vendedora de flores que atrai a atenção de um aristocrata (Raf Vallone) e embarca no que parece ser o romance perfeito. Até que ele a deixa em nome da circunspecção exigida por sua carreira diplomática. A vingança dela é tornar-se cantora de sucesso e atirar violetas em seu ex-amor, que está na platéia. É camp "no úrtimo", mas não é que ainda tem seu charme? A distribuidora avisa, já na capinha do DVD, que a cópia tem alguns defeitos originários da matriz, hoje uma raridade.

 

 

Fontes: São Paulo: Cultura, Laselva, Saraiva, Livraria da Vila, Fnac, Nobel, Siciliano; Rio: Saraiva, Nobel, Laselva, Sodiler, Siciliano, Argumento, Travessa; Porto Alegre: Saraiva, Nobel, Livraria Ed. Porto Alegre, Siciliano; Brasília: Sodiler, Nobel, Siciliano, Saraiva, Leitura; Recife: Sodiler, Nobel, Saraiva, Siciliano; Natal: Nobel, Sodiler; Florianópolis: Siciliano; Goiânia: Siciliano, Nobel; Fortaleza: Siciliano, Laselva, Nobel; Salvador: Siciliano; Curitiba: Siciliano, Saraiva; Belo Horizonte: Siciliano, Nobel, Leitura; Maceió: Sodiler, Nobel.
 
 
 
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