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Ponto
de vista: Claudio de Moura Castro
Planejamento
ou
caos urbano?
"O
interesse coletivo manda disciplinar
o uso do solo e delimitar a ação do
mercado.
Nos países mais democráticos,
os controles
são duríssimos"
Na
década de 70 havia grande esperança de que fosse possível
domesticar o crescimento das cidades e planejar harmonicamente seu
futuro. De fato, houve forte avanço nas preocupações
com o planejamento urbano e a conseqüente criação
de cursos de mestrado e institutos de pesquisa. Muitos cursos de
arquitetura mergulharam na área, a ponto de comprometer sua
missão original que foi menosprezada e sofreu.
Ilustração Ale Setti
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Trinta anos depois, é forçoso constatar a atrofia
do planejamento urbano, seja no Brasil, seja no exterior. O vazio
deixado leva à acumulação de problemas urbanos.
Pior, há mesmo uma visão antiplanejamento. Curitiba,
nosso melhor modelo de planejamento urbano, é vista por alguns
como a ditadura de Jaime Lerner. Mas vejamos os exemplos:
Os Estados Unidos não conseguem montar um sistema
de transportes coletivos. Na região metropolitana de Washington,
os estacionamentos nas estações de metrô da
periferia são poucos e caros, frustrando o enorme investimento
em sua construção. Isso gerou a hipertrofia do acesso
rodoviário e dos estacionamentos no centro.
Praticamente não existem novos metrôs ou outras
tecnologias em trilho (apesar de haver uma bela solução
brasileira). No máximo, há ampliações
tímidas. Mas quanto vale o tempo perdido pelos milhões
de paulistanos travados no trânsito? Quantos metrôs
se fariam com esse dinheiro?
Quantas cidades fazem como Genebra, que decide reduzir os
estacionamentos no centro para substituir os automóveis pelos
ônibus?
Que cidade do Brasil decide que não quer mais crescer?
Só o Plano Piloto de Brasília fez isso, mas pouco
adiantou, pelo crescimento desenfreado das cidades-satélites.
As duas maiores metrópoles brasileiras (Rio de Janeiro
e São Paulo), apesar de terem empréstimos externos
para isso, possuem déficits sérios de rede e tratamento
de esgoto, o que leva aos níveis vergonhosos de poluição
da Baía de Guanabara e do Rio Tietê.
Uma cidade à beira-rio que tratar seu esgoto estará
apenas beneficiando as cidades rio abaixo. O caso de Joinville ilustra
o dilema, pois é uma jóia de cidade, cortada por um
rio com níveis astronômicos de poluição.
Diante da paralisia do urbanismo, a solução está
vindo das comissões de bacias hidrográficas.
Quem mais protegeu a orla marítima do Rio de Janeiro
da fúria imobiliária foi o Exército, cuja função
não era essa.
Quantas cidades históricas brasileiras fizeram como
a Europa, que congelou o velho e deslocou o centro? Pernambuco destruiu
uma igreja barroca para construir uma avenida. Mas, semanas depois,
desistiu da avenida. Ouro Preto está virando uma cidade de
"farofeiros", com um turismo desconectado do potencial cultural
da cidade.
A Pampulha, o cartão de visita de Belo Horizonte,
foi sufocada pelo congestionamento de sua única via de acesso,
cuja duplicação se arrasta por décadas.
Perdemos a noção de que há um espaço
próprio para o mercado, para o laissez-faire e para a ação
do Estado. Urbanismo racional não é deixar acontecer,
satisfazer os interesses econômicos mais fortes ou deixar
o mercado decidir. O mercado selvagem é autofágico,
destruindo o próprio resultado econômico da construção
abusiva e das demais. O bairro maior que suas vias de acesso
é péssimo investimento imobiliário. O interesse
coletivo manda disciplinar o uso do solo e delimitar a ação
do mercado de fato, nos países mais democráticos,
os controles são duríssimos. O mercado e o lucro são
mais bem servidos quando há um marco regulatório dizendo:
"aqui não pode, ali pode". Da mesma forma que o governo não
sabe operar armazém de secos e molhados, o mercado não
faz ruas nem esgotos. Tampouco se autocoordena. A lógica
da ação governamental é assegurar um futuro
em que se harmonizam os sonhos da população com os
meios da economia. É a função imprescindível
e antipática de conciliar o interesse privado com o interesse
coletivo.
É
preciso relançar o planejamento urbano como idéia,
com ou sem o nome original. Se a cabeça não mudar,
o resto também não muda.
Claudio de Moura Castro é economista
(claudiodmc@attglobal.net)
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