Edição 1822 . 1° de outubro de 2003

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
Sobre casamentos
e imposturas

A festa da prefeita de São Paulo
traduziu os paradoxos do PT. E mais:
um impostor brasileiro na ONU!

Uma primeira leitura da festança de casamento da prefeita Marta Suplicy poderia sugerir que a esquerda, depois de duas décadas de laboriosos cuidados petistas no chão das fábricas, na dureza das periferias e na poeira dos campos, voltou a seu habitat por excelência, que são as esferas daquilo que antigamente se chamava de "alta sociedade". Não se ignora que os salões do patriciado constituíram-se num histórico reduto das esquerdas nativas. O francês Claude Lévi-Strauss, no clássico Tristes Trópicos, em que recorda sua experiência brasileira nos anos 30, achou graça no fato de que o "comunista" típico da São Paulo da época fosse "o rico herdeiro da feudalidade local" – alusão talvez ao historiador Caio Prado Jr., talvez ao escritor modernista Oswald de Andrade. Anos mais tarde, o gosto da esquerda por priorizar sua ação, senão exatamente nos domínios da alta burguesia, pelo menos nos bares da moda, nas festas e nas praias, deu lugar à expressão "esquerda festiva". O casamento da prefeita, com o brilho e o alarde que o caracterizaram, representaria um retorno a essa tradição. Basta das imposições rudes do modelo torneiro mecânico. Seria chegada a hora de voltar às deliciosas folganças burguesas.

Não. Esta é apenas uma primeira leitura, tão injusta quanto cínica. É injusto afirmar que os salões sejam o habitat preferencial da esquerda, como um todo. Ela também teve por destino, historicamente, o desterro e o cárcere. Naqueles mesmos anos 30 em que Lévi-Strauss viveu em São Paulo, comunistas ou supostos comunistas eram presos e torturados. O próprio Caio Prado Jr., se é que a referência era a ele, conheceu o cárcere, um par de vezes. Também não é certo dizer que, no casamento da prefeita, todos os presentes pertenciam às altas esferas, por um lado, ou que todos fossem de esquerda, por outro. A ministra Benedita da Silva, para citar um nome, entre os convidados, notoriamente não pertence aos estratos da alta sociedade. E alguns dos empresários e dos(as) chamados(as) socialites presentes, notoriamente, não são de esquerda. Ainda assim...

Ainda assim, sobram dois fatos incontestes. Primeiro, que foi uma festa de fazer tremer nas bases os meios elegantes da cidade. A coluna social de Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, noticiava na véspera: "Entre as mulheres que foram ao aniversário de Henrique Meirelles, anteontem, na casa de Beth Arbaitman, o assunto era um só: o casamento, claro. Quem vai, com quem vai e como vai". A excitação era a dos grandes acontecimentos. Os noivos, no diapasão dos enlaces que, como os dos príncipes e princesas, apaixonam o público, concordaram até em comparecer a um estúdio onde, dias antes, mas já vestindo os trajes preparados para a festa, foram fotografados pela revista Caras.

O segundo fato é que a presença do presidente da República, além de ministros e parlamentares, sem falar na filiação partidária dos próprios noivos, indicava com clareza que era uma festa do PT. Do PT podia-se esperar muita coisa. Até mesmo, para quem acompanhou a campanha eleitoral, uma política econômica austera e boas relações com o FMI. Só não se esperava que produzisse o casamento do ano.

•••

Que fazia o cidadão Luiz Inácio Lula da Silva nas Nações Unidas? Deveria ter sido impedido de falar. Aliás, deveria ter sido barrado na porta. Apresentado como presidente do Brasil, na verdade não era presidente de nada. Era um impostor.

É o que se depreende dos acontecimentos da semana passada. Ao vice José Alencar, no exercício interino da Presidência, coube assinar a medida provisória que permitiria, por mais um ano, o cultivo da soja transgênica no país. Alencar declarou-se em dúvida quanto à justeza da medida, refugou, apesar de ser esta uma decisão de governo, alardeou suas angústias com a questão – e assim incorreu em mais uma das excentricidades que vêm caracterizando seus folclóricos interinatos. Mas não é isso que nos importa. Importa é o fato em si de Alencar, naquele dia, estar plenamente investido dos poderes presidenciais, tanto assim que podia assinar ou não assinar a medida provisória, e até nomear uma comissão para reestudar o assunto, como ameaçou fazer. Ele era, de pleno direito, o presidente. Ora, o Brasil, como de resto a grande maioria dos países, só pode ter um presidente. E, se o presidente era Alencar, segue-se que Lula tinha deixado de sê-lo. Com que direito, então, Lula apresentava-se na ONU – e de lá seguiu a Cuba, em visita oficial?

Os interinatos previstos pela legislação brasileira por ocasião das viagens do titular da Presidência não são apenas um contra-senso, num tempo de comunicações instantâneas e possibilidade de volta em poucas horas, em caso de emergência. Tampouco se limitam a uma ficção política, uma vez que o interino não tem legitimidade para governar de verdade. Também são, do ponto de vista jurídico e institucional, uma extravagância sem pé nem cabeça.

 
 
 
 
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