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Ensaio:
Roberto
Pompeu de Toledo
Sobre
casamentos
e imposturas
A
festa da prefeita
de São
Paulo
traduziu
os paradoxos
do PT. E mais:
um
impostor brasileiro
na
ONU!
Uma primeira leitura da festança de casamento da prefeita
Marta Suplicy poderia sugerir que a esquerda, depois de duas décadas
de laboriosos cuidados petistas no chão das fábricas,
na dureza das periferias e na poeira dos campos, voltou a seu habitat
por excelência, que são as esferas daquilo que antigamente
se chamava de "alta sociedade". Não se ignora que os salões
do patriciado constituíram-se num histórico reduto
das esquerdas nativas. O francês Claude Lévi-Strauss,
no clássico Tristes Trópicos, em que recorda
sua experiência brasileira nos anos 30, achou graça
no fato de que o "comunista" típico da São Paulo da
época fosse "o rico herdeiro da feudalidade local"
alusão talvez ao historiador Caio Prado Jr., talvez ao escritor
modernista Oswald de Andrade. Anos mais tarde, o gosto da esquerda
por priorizar sua ação, senão exatamente nos
domínios da alta burguesia, pelo menos nos bares da moda,
nas festas e nas praias, deu lugar à expressão "esquerda
festiva". O casamento da prefeita, com o brilho e o alarde que o
caracterizaram, representaria um retorno a essa tradição.
Basta das imposições rudes do modelo torneiro mecânico.
Seria chegada a hora de voltar às deliciosas folganças
burguesas.
Não. Esta é apenas uma primeira leitura, tão
injusta quanto cínica. É injusto afirmar que os salões
sejam o habitat preferencial da esquerda, como um todo. Ela também
teve por destino, historicamente, o desterro e o cárcere.
Naqueles mesmos anos 30 em que Lévi-Strauss viveu em São
Paulo, comunistas ou supostos comunistas eram presos e torturados.
O próprio Caio Prado Jr., se é que a referência
era a ele, conheceu o cárcere, um par de vezes. Também
não é certo dizer que, no casamento da prefeita, todos
os presentes pertenciam às altas esferas, por um lado, ou
que todos fossem de esquerda, por outro. A ministra Benedita da
Silva, para citar um nome, entre os convidados, notoriamente não
pertence aos estratos da alta sociedade. E alguns dos empresários
e dos(as) chamados(as) socialites presentes, notoriamente, não
são de esquerda. Ainda assim...
Ainda assim, sobram dois fatos incontestes. Primeiro, que foi uma
festa de fazer tremer nas bases os meios elegantes da cidade. A
coluna social de Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo,
noticiava na véspera: "Entre as mulheres que foram ao aniversário
de Henrique Meirelles, anteontem, na casa de Beth Arbaitman, o assunto
era um só: o casamento, claro. Quem vai, com quem vai e como
vai". A excitação era a dos grandes acontecimentos.
Os noivos, no diapasão dos enlaces que, como os dos príncipes
e princesas, apaixonam o público, concordaram até
em comparecer a um estúdio onde, dias antes, mas já
vestindo os trajes preparados para a festa, foram fotografados pela
revista Caras.
O segundo fato é que a presença do presidente da República,
além de ministros e parlamentares, sem falar na filiação
partidária dos próprios noivos, indicava com clareza
que era uma festa do PT. Do PT podia-se esperar muita coisa. Até
mesmo, para quem acompanhou a campanha eleitoral, uma política
econômica austera e boas relações com o FMI.
Só não se esperava que produzisse o casamento do ano.
Que fazia o cidadão Luiz Inácio Lula da Silva nas
Nações Unidas? Deveria ter sido impedido de falar.
Aliás, deveria ter sido barrado na porta. Apresentado como
presidente do Brasil, na verdade não era presidente de nada.
Era um impostor.
É
o que se depreende dos acontecimentos da semana passada. Ao vice
José Alencar, no exercício interino da Presidência,
coube assinar a medida provisória que permitiria, por mais
um ano, o cultivo da soja transgênica no país. Alencar
declarou-se em dúvida quanto à justeza da medida,
refugou, apesar de ser esta uma decisão de governo, alardeou
suas angústias com a questão e assim incorreu
em mais uma das excentricidades que vêm caracterizando seus
folclóricos interinatos. Mas não é isso que
nos importa. Importa é o fato em si de Alencar, naquele dia,
estar plenamente investido dos poderes presidenciais, tanto assim
que podia assinar ou não assinar a medida provisória,
e até nomear uma comissão para reestudar o assunto,
como ameaçou fazer. Ele era, de pleno direito, o presidente.
Ora, o Brasil, como de resto a grande maioria dos países,
só pode ter um presidente. E, se o presidente era Alencar,
segue-se que Lula tinha deixado de sê-lo. Com que direito,
então, Lula apresentava-se na ONU e de lá seguiu
a Cuba, em visita oficial?
Os interinatos previstos pela legislação brasileira
por ocasião das viagens do titular da Presidência não
são apenas um contra-senso, num tempo de comunicações
instantâneas e possibilidade de volta em poucas horas, em
caso de emergência. Tampouco se limitam a uma ficção
política, uma vez que o interino não tem legitimidade
para governar de verdade. Também são, do ponto de
vista jurídico e institucional, uma extravagância sem
pé nem cabeça.
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