Edição 1822 . 1° de outubro de 2003

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Diogo Mainardi
Palestrando e motivando

"A técnica preferida dos palestrantes
motivacionais é estabelecer paralelos
entre dois campos que não têm nada
em comum. Depois tem gente que se
espanta quando Lula compara a reforma
previdenciária a uma jabuticabeira"

Uma grande empresa do setor informático quer que eu faça uma palestra motivacional. Pagando bem, faço qualquer coisa. A única motivação que eu conheço é o dinheiro. Aliás, se o propósito da grande empresa do setor informático é motivar seus funcionários, sugiro dar-lhes um aumento salarial. Pode ser que os funcionários não trabalhem mais, mas certamente serão motivados a fingir que estão trabalhando mais.

Para preparar minha palestra motivacional, fui ver o que oferecem meus concorrentes. Um deles promete melhorar o amor-próprio de secretárias "maltratadas pelo chefe e abandonadas pelo marido". Outro ensina a controlar o peso. Outro estimula corretores de seguros a vender mais apólices a seus clientes. Até a prefeitura de Sinop, em Mato Grosso, contratou um palestrante motivacional para seus "motoristas, merendeiras e trabalhadores braçais". Antigamente essa gente era motivada na base do chicote. Agora é obrigada a assistir a palestras motivacionais com trechos do filme Fernão Capelo Gaivota.

Além de projetarem filmes como Fernão Capelo Gaivota, os palestrantes motivacionais dispõem de muitos outros recursos para animar a platéia. Fábio Puentes apresenta um "show de hipnose". Adroaldo Lamaison toca violão. Eduardo Botelho fala sobre seu tumor de medula. O professor Gretz distribui brindes. O professor Marins relata a parábola da caverna de Platão. Roberto Shinyashiki manda pisar em brasas. Marilu Martinelli, antiga jurada do Show de Calouros de Silvio Santos, louva o guru indiano Sathya Sai Baba. Lair Ribeiro consegue tornar todo mundo mais inteligente.

A técnica preferida dos palestrantes motivacionais é estabelecer paralelos entre dois campos que, aparentemente, não têm nada em comum. Helena Artmann mostra que participar de um campeonato de balonismo é igual a administrar uma empresa. Sergio Arno assegura que não há diferença entre preparar uma macarronada e tocar uma grande indústria. Klever Kolberg argumenta que obter sucesso num empreendimento comercial é a mesma coisa que chegar em oitavo lugar no rali Paris–Dacar. Thomaz Brandolin cria uma analogia entre a atividade profissional e um encontro com ursos selvagens no Pólo Norte. Depois tem gente que se espanta quando Lula compara a reforma previdenciária a uma jabuticabeira.

Alguns dos mais requisitados palestrantes motivacionais atuam em família. Os membros da família Schürmann deram a volta ao mundo num veleiro. Contam anedotas de suas viagens para ilustrar temas como planejamento estratégico, liderança, administração de risco, relacionamento interpessoal. Já os membros da família Goldschmidt percorreram a América do Sul num motor home. O patriarca da família afirma que sua maior aventura foi largar tudo em 1987 e ir morar em Londres, ganhando a vida como garçom. Eu também trabalhei como garçom em Londres. A principal lição que tirei da aventura é que nunca mais quero ser garçom.

O Espantalho, inimigo do Batman, aproveitou uma palestra motivacional para espalhar seu gás do medo. Eu admiro o Espantalho.

 
 
 
 
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