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Diogo
Mainardi
Palestrando
e motivando
"A
técnica preferida dos palestrantes
motivacionais é estabelecer paralelos
entre dois campos que não têm nada
em comum. Depois tem gente que se
espanta quando Lula compara a reforma
previdenciária a uma jabuticabeira"
Uma grande empresa do setor informático quer que eu faça
uma palestra motivacional. Pagando bem, faço qualquer coisa.
A única motivação que eu conheço é
o dinheiro. Aliás, se o propósito da grande empresa
do setor informático é motivar seus funcionários,
sugiro dar-lhes um aumento salarial. Pode ser que os funcionários
não trabalhem mais, mas certamente serão motivados
a fingir que estão trabalhando mais.
Para preparar minha palestra motivacional, fui ver o que oferecem
meus concorrentes. Um deles promete melhorar o amor-próprio
de secretárias "maltratadas pelo chefe e abandonadas pelo
marido". Outro ensina a controlar o peso. Outro estimula corretores
de seguros a vender mais apólices a seus clientes. Até
a prefeitura de Sinop, em Mato Grosso, contratou um palestrante
motivacional para seus "motoristas, merendeiras e trabalhadores
braçais". Antigamente essa gente era motivada na base do
chicote. Agora é obrigada a assistir a palestras motivacionais
com trechos do filme Fernão Capelo Gaivota.
Além de projetarem filmes como Fernão Capelo Gaivota,
os palestrantes motivacionais dispõem de muitos outros recursos
para animar a platéia. Fábio Puentes apresenta um
"show de hipnose". Adroaldo Lamaison toca violão. Eduardo
Botelho fala sobre seu tumor de medula. O professor Gretz distribui
brindes. O professor Marins relata a parábola da caverna
de Platão. Roberto Shinyashiki manda pisar em brasas. Marilu
Martinelli, antiga jurada do Show de Calouros de Silvio Santos,
louva o guru indiano Sathya Sai Baba. Lair Ribeiro consegue tornar
todo mundo mais inteligente.
A técnica preferida dos palestrantes motivacionais é
estabelecer paralelos entre dois campos que, aparentemente, não
têm nada em comum. Helena Artmann mostra que participar de
um campeonato de balonismo é igual a administrar uma empresa.
Sergio Arno assegura que não há diferença entre
preparar uma macarronada e tocar uma grande indústria. Klever
Kolberg argumenta que obter sucesso num empreendimento comercial
é a mesma coisa que chegar em oitavo lugar no rali ParisDacar.
Thomaz Brandolin cria uma analogia entre a atividade profissional
e um encontro com ursos selvagens no Pólo Norte. Depois tem
gente que se espanta quando Lula compara a reforma previdenciária
a uma jabuticabeira.
Alguns dos mais requisitados palestrantes motivacionais atuam em
família. Os membros da família Schürmann deram
a volta ao mundo num veleiro. Contam anedotas de suas viagens para
ilustrar temas como planejamento estratégico, liderança,
administração de risco, relacionamento interpessoal.
Já os membros da família Goldschmidt percorreram a
América do Sul num motor home. O patriarca da família
afirma que sua maior aventura foi largar tudo em 1987 e ir morar
em Londres, ganhando a vida como garçom. Eu também
trabalhei como garçom em Londres. A principal lição
que tirei da aventura é que nunca mais quero ser garçom.
O Espantalho, inimigo do Batman, aproveitou uma palestra motivacional
para espalhar seu gás do medo. Eu admiro o Espantalho.
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