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Bananal planetárioDias atrás, o escritor peruano Mario Vargas Llosa publicou um artigo sobre Hugo Chávez, o presidente venezuelano. Em vez de ficar na habitual lengalenga, denunciando as manobras golpistas de Chávez, ele resolveu ir muito mais adiante, atacando a falta de cultura democrática dos eleitores locais. Vargas Llosa entende do assunto, claro. Ele disputou a Presidência do Peru, perdendo, no voto, para Fujimori, o qual, logo em seguida, fechou o Parlamento e instaurou uma ditadura com pleno apoio popular. Exatamente como Chávez, que acaba de conquistar o voto de nove entre dez venezuelanos, legitimando seus atos. Llosa teme que essa nova onda de "absolutismo democrático" possa espalhar-se por toda a América Latina. O Brasil sempre se considera imune a qualquer forma de contágio, como no caso da crise asiática do ano retrasado. Deu no que deu. É melhor tomar cuidado. A falta de cultura democrática, porém, é um fenômeno universal, que atinge todos os países, pobres ou ricos. O ex-primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi é um ótimo exemplo. Condenado por suborno e envolvido numa série de outros processos, ele sempre afirma que sua popularidade o inocenta, pois indica que, para os eleitores, ele continua perfeitamente ilibado. Como negar? Para cerca de metade dos italianos, seus problemas com a Justiça nada representam. Nos Estados Unidos, a democracia aplicada à ciência produz episódios igualmente aberrantes, como o da semana retrasada, quando o conselho escolar do Estado do Kansas, seguindo os ditames do eleitorado fundamentalista, decidiu eliminar Charles Darwin e sua teoria evolucionista dos textos didáticos, ensinando, em seu lugar, a gênese bíblica. Eu nunca acertei uma profecia na vida. Ainda bem. Porque eu profetizo que, nos próximos anos, o exercício da democracia tende a se degenerar cada vez mais, tomado por uma espécie de frenesi plebiscitário. Culpa desse instrumento nefasto que é a pesquisa de opinião. Ela exacerba o poder da maioria, esmagando todo o resto. Pede-se para que o público escolha a trama das novelas e a montagem dos filmes. Nos telejornais, entrevistam-se passantes desinformados sobre os mais variados assuntos. Em economia, entra-se em pânico com a nota baixa que os empresários conferem ao governo. Em política, invoca-se a renúncia de um presidente em crise de consenso. Qualquer pessoa se sente no direito de emitir sentenças. Às vezes, os palpiteiros chegam a pagar para poder dar um voto telefônico. Com a internet, o troço piorou. Todo dia aparece alguma pesquisa pedindo para que você, com um simples clicar de mouse, decida o que fazer com os aposentados ou a dívida dos agricultores. Voltando a Mario Vargas Llosa: em seu artigo, ele alertava que a América Latina corria o risco de seguir o caminho da Venezuela, sofrendo um retrocesso em seu processo democrático. Eu acho que é ainda mais grave do que isso. Acho que a Venezuela não representa o passado, mas o futuro do mundo todo. Ou seja, a república das bananas em escala planetária. |
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