|
O dono do ensinoCriador do império Objetivo, Thaís Oyama e Bruno Paes Manso
A Universidade Paulista cresceu nada menos do que sete vezes e meia em dez anos. Para planejá-la, Di Genio analisou características das universidades públicas, notadamente as da Universidade de São Paulo. Mapeou virtudes, procurou defeitos e resolveu montar uma alternativa que fosse exatamente o oposto de tudo o que encontrou. Com exceção dos cursos de direito e medicina, a USP concentra suas faculdades em um único campus, num bairro da Zona Oeste da cidade de São Paulo. Como para muitos alunos a facilidade de locomoção é fator determinante para viabilizar o estudo, decidiu fazer diferente. Plantou um complexo em cinco pontos de São Paulo e espalhou outros dez pelo interior do Estado. A estrutura dos cursos também foi montada para ser uma imagem invertida do espectro de disciplinas oferecido pela USP. A sexagenária universidade do governo paulista dispõe de apenas 263 vagas para odontologia e recebe anualmente 5 000 candidatos, criando uma concorrência pesada no vestibular. A Unip nasceu oferecendo 630 lugares para o mesmo curso. É muito mais fácil para entrar. Outro filão detectado por Di Genio foram os cursos noturnos. As universidades públicas federais concentram 85% de seus cursos apenas durante o dia. Para quem trabalha, querer entrar numa delas está fora de cogitação. A Unip decidiu oferecer 70% das vagas à noite.
Com sucessivas tacadas certeiras como essa, Di Genio ficou rico com educação. Seu patrimônio pessoal é avaliado em cerca de 200 milhões de reais. "Preciso de dinheiro mais, não", gosta de dizer, forçando o sotaque de Lavínia, cidade do interior de São Paulo onde foi criado. Embora passe mais da metade do mês viajando pelo Brasil, em visita aos colégios e campi da Unip, nunca pensou em comprar um jatinho. Na verdade, detesta avião e tem medo de voar. Durante as decolagens, pode ser visto afundado na poltrona rezando e apertando entre os dedos as dez medalhas de santos que leva ao pescoço. Hobby, diz que não tem. "Só a mania de fazer escolas", ri.
O "professor", como gosta de ser chamado, se diz ofendido quando alguém sugere que seu impressionante desempenho empresarial não é fruto exclusivo de seu trabalho, mas teria sido construído com a ajuda de um amplo círculo de amigos poderosos. Di Genio afirma que suas relações em Brasília jamais lhe renderam uma só oportunidade de negócios. "Eu me relaciono com alguns políticos porque gosto deles, da mesma forma que me dou com médicos, professores, engenheiros", diz. Seu melhor amigo no Distrito Federal é o presidente do Senado, Antônio Carlos Magalhães. A amizade entre os dois é tão intensa que, quando está em Brasília, Di Genio se hospeda na casa de ACM. "Di Genio é um grande empresário, um grande educador e um excelente amigo", afirma o senador. Das relações que construiu no poder, o professor já disse a amigos que prefere esquecer o período em que, na qualidade de fiel colaborador de campanha, esteve próximo do ex-presidente Fernando Collor de Mello. No Congresso Nacional, muitos deputados, senadores, assessores de primeiro escalão do governo e ministros se recordam com saudade dos tempos em que Di Genio mantinha em Brasília a Mansão das Palmeiras, também chamada de "Circo do Di Genio". Erguida num terreno de 40.000 metros quadrados, a casa tinha no jardim uma área coberta com lona com capacidade para receber 1.500 pessoas. Era lá que Di Genio costumava promover animadas recepções às quais boa parte dos convidados comparecia sem a companhia de suas mulheres. O circo foi desativado depois que o professor, um solteirão até os 50 anos, finalmente se casou. O tempo das festas sem hora para acabar, garante ele, passou. Hoje, quando quer descansar, Di Genio isola-se em sua casa em Arraial d'Ajuda, na Bahia. Vai sempre acompanhado da mulher, a jornalista Sandra Miessa. Eventualmente, leva também a mãe, com quem mora até hoje e a quem confia a responsabilidade de preparar sua comida e passar suas camisas. "Ela faz questão. Não deixa ninguém cuidar de mim." Classes lotadas – Como Di Genio é uma estrela do ensino particular e vem ganhando força em função da crise do ensino do setor público, sua popularidade não é das maiores na chamada comunidade acadêmica, basicamente concentrada nas universidades do governo. "Faculdades mantidas por empresários têm fatalmente uma linha empresarial. Se o faturamento diminui, a primeira coisa que eles farão será cortar custos, o que obviamente não é bom para o aluno", avalia o professor da Faculdade de Educação da USP Afrânio Catani. "Dificilmente um crescimento tão espetacular vem acompanhado de um bom padrão de ensino", afirma Éfrem Maranhão, presidente do Conselho Nacional de Educação.
São críticas procedentes. A Unip tem alunos de mais e professores de menos. As aulas acontecem em classes muitas vezes lotadas. Algumas chegam a reunir mais de 100 estudantes, o que obriga os professores a falar ao microfone. Embora mantenha pelo menos uma faculdade respeitada, como a de odontologia, outras são consideradas sofríveis, como as de engenharia e direito (veja quadro ao lado). Dos 631 estudantes da disciplina que prestaram o exame de admissão da Ordem dos Advogados do Brasil no ano passado, nem metade conseguiu ser aprovada. No ranking das 168 faculdades que submeteram alunos à prova, a universidade de Di Genio ficou com um modesto 49º lugar. "Temos defeitos, mas estamos nos esforçando para saná-los. A Unip veio para ficar", assegura o professor. Para uma ala dos educadores, Di Genio pode até se transformar em reitor da maior universidade do mundo, mas será sempre Di Genio, o empresário. Não há nada que o irrite mais do que isso. O imperador da educação não admite que se diga que seu lado empresarial macula o educador. "Eu não tiro um centavo da Unip. Não faço universidade para ganhar dinheiro. Para isso tenho o cursinho e o colégio", defende-se. No ano passado, a lei passou a permitir que as escolas de ensino superior tivessem finalidade lucrativa. A Unip preferiu não se beneficiar da legislação porque mantém convênios com alguns organismos internacionais que só fazem parcerias com entidades não lucrativas. E a Unip orgulha-se do seu ainda incipiente mas crescente investimento na área da pesquisa. "Espírito elitista" – O Conselho Nacional de Educação exige que as universidades ofereçam ao menos três linhas de pesquisa para continuar funcionando. A Unip tem doze. Em oito anos, multiplicou seis vezes o gasto no setor, que hoje inclui um barco-laboratório para realizar pesquisas que conduzam a um tratamento mais eficaz de algumas doenças a partir de plantas da região amazônica. A universidade de Di Genio também tem procurado melhorar progressivamente a qualidade de seu quadro de docentes: 350 deles vieram de universidades públicas, sendo 230 egressos da USP. E, ao contrário do que ocorre nas universidades públicas, a Unip paga bem seus professores. Os salários estão acima da média do mercado. "Não sou tão megalomaníaco a ponto de querer desbancar a USP em qualidade. Mas, em dez anos, vou colocar todas as particulares no bolso", afirma.
Hoje, mais brasileiros têm acesso ao curso superior. O aumento da clientela produziu uma modificação profunda no perfil do estudante. O interessado em cursar uma faculdade é cada vez menos o jovem de classe média alta que pode se dedicar aos estudos sem precisar trabalhar. Em 1990, 51% dos inscritos na Fuvest responderam a um questionário dizendo que seriam sustentados pelos pais durante o período universitário. Apenas 36% dos candidatos afirmaram que pretendiam trabalhar para se manter. As respostas deste ano indicam uma virada na situação: 53% dos vestibulandos informam que se sustentariam trabalhando e somente 30% afirmaram que os pais continuariam a pagar suas contas. Seria razoável que, diante dessa transformação, as universidades públicas se adaptassem à nova realidade e tratassem de oferecer mais cursos noturnos. Mas elas pouco se mexeram. O motivo, segundo o ministro da Educação, Paulo Renato Souza, é muito simples: "Espírito elitista", alfineta. Criadas na década de 30, elas sempre consideraram ser sua missão forjar a elite intelectual do país. Enquanto a rede de universidades do governo continua agindo como nobres sem tostão e com empáfia, as particulares fazem a festa. Recebem de braços abertos a clientela que a concorrência desdenha. Na briga entre o brasão e o logotipo, o segundo tem correspondido com muito mais agilidade aos desejos da freguesia.
"Salário vai dobrar" – O governo vive dizendo que o caixa do ensino superior está praticamente a zero e que sua prioridade é o ensino fundamental e médio. Talvez por essa razão o número de vagas na universidade pública aumenta a passos de tartaruga, enquanto as matrículas no ensino superior privado crescem em ritmo acelerado: 9% ao ano. Os especialistas acreditam que as universidades privadas, que hoje abrigam 60% das vagas de ensino superior, vão crescer ainda mais. "As federais sempre entenderam erroneamente que deveriam ser um berço de príncipes e que sua abertura para um público de menor poder aquisitivo colocaria em risco a qualidade do ensino", analisa o secretário de Educação Superior do Ministério da Educação, Abílio Baeta Neves.
Esse público de menor poder aquisitivo muitas vezes corre atrás do diploma não necessariamente para exercer a profissão, mas para aumentar suas chances de ascender no emprego. É o caso do técnico em alimentos Alcides dos Santos Júnior, 32 anos. Até há pouco tempo, sua formação estava estancada no curso profissionalizante e o salário, na faixa dos 1.500 reais. Quando a empresa em que trabalha passou a oferecer promoções a quem tivesse curso universitário, ele se animou. Mas, longe dos bancos escolares e trabalhando oito horas por dia, achou que não valeria a pena tentar uma vaga em universidade pública. Prestou exame para farmácia na Unip, passou com facilidade e está muito satisfeito. "Com o diploma, meu salário vai, no mínimo, dobrar", afirma. Casos como o de Santos mostram que, no vácuo deixado pelo Estado, as universidades particulares cumprem um papel social. Atendem um público que, sem essa alternativa, não teria condições de passar pelo estreito funil que desemboca na universidade gratuita. Di Genio preocupa-se em conhecer a necessidade de seus alunos e oferecer o que interessa a eles. Para fazer isso, realiza pesquisas regulares sem recorrer a nenhum instituto de pesquisa. "Não preciso. Tenho a melhor amostra que alguém pode querer: 380.000 jovens que são formadores de opinião". Engana-se, no entanto, quem pensa que o Objetivo massacra seus estudantes com questionários enfadonhos. Sua técnica é mais sutil, como ele explica com ares de estrategista: "Uma curiosidade minha sempre pode virar tema de redação", sugere. Redações sobre as quais se debruçará mais tarde um batalhão de funcionários encarregados de tabulá-las. Ney Matogrosso – Ele descobriu o poder dessa pesquisa interna há muito tempo. Na formatura da primeira turma do colégio Objetivo, na década de 70, quis fazer uma surpresa para os estudantes contratando Roberto Carlos e Elis Regina para um show comemorativo. Os cantores já haviam recebido parte do pagamento quando Di Genio resolveu perguntar aos estudantes qual era o seu artista favorito. Em primeiro lugar apareceu um então desconhecido conjunto liderado por um ser andrógino que usava uma máscara pintada e gostava de se contorcer no palco. Di Genio, ele próprio um aficionado da música popular brasileira, nunca havia ouvido falar do sujeito, como a maioria da população do país. Mesmo assim, alterou seus planos. O show foi um sucesso e, dois anos depois, Ney Matogrosso e seu Secos e Molhados estouravam nas rádios do país. "Os jovens têm as antenas mais ligadas do planeta", afirma. E a do professor não é menos potente. Ao abrir a primeira faculdade, em 1972, Di Genio tinha certeza de que o ensino superior privado cresceria espantosamente. Acertou de novo. Nos últimos quatro anos, graças à expansão do ensino médio, o número de matrículas na graduação aumentou 28% – um crescimento maior do que o registrado em todo o período entre 1980 e 1994. Sempre que se pergunta a um empresário em que momento exatamente ele tomou a decisão de montar o seu negócio, as respostas costumam girar em torno de algum fato miúdo que funcionou como estopim. No caso de Di Genio, o estopim foi algo muito curioso: uma discussão com o pai, engenheiro, sobre a cor do carro prometido como prêmio por sua entrada na faculdade. Di Genio queria ser médico. Passou em primeiro lugar em todos os vestibulares, entrou na USP e ficou aguardando a recompensa. Três anos se passaram e só então o carro chegou. Mas o estudante havia pedido um DKW branco – e o pai lhe deu um modelo verde. Segundo Di Genio, o pai não quis fazer a troca e ele decidiu então ganhar o próprio dinheiro. Como já dava aulas particulares de física, recebeu e aceitou convite para trabalhar como professor de um cursinho. O talento didático e a oratória entusiasmada renderam-lhe classes lotadas. Quando estava no último ano da faculdade, decidiu abrir um cursinho que funcionava numa saleta em sociedade com três colegas de turma. Num instante, o lugar entupiu de alunos, a maioria vinda do cursinho em que ele lecionava antes. O sucesso foi tão grande que os sócios decidiram que alguém teria de largar a medicina para se dedicar ao negócio. Di Genio aceitou o desafio. "Foi a decisão mais difícil de minha vida", afirma. Os números sugerem que pode ter sido também a mais acertada.
|
|||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
|
|