|
Só falta legalizarDoping se dissemina e vira a regra Sérgio Ruiz Luz Os atletas do Terceiro Mundo descobriram o caminho do doping, o uso de substâncias químicas para melhorar o desempenho. Até recentemente as drogas mais eficientes eram exclusivas dos atletas de países desenvolvidos, já que sua produção e uso envolvem o domínio de tecnologias refinadas – além, é claro, de muito dinheiro. Três casos recentes mostram que essa fronteira desabou. Na semana passada o velocista nigeriano Davidson Ezinwa e o maratonista somali Mohamed Ibrahim Aden foram afastados do Campeonato Mundial de Atletismo, disputado na Espanha, por uso de drogas. A brasileira Elisângela Adriano, 27 anos, medalha de ouro no lançamento de disco durante os Jogos Pan-Americanos de Winnipeg, em julho, e recordista sul-americana do arremesso de peso há quase dez anos, está sendo acusada de doping. Nos exames realizados nas amostras de urina da atleta foi detectada a presença de nandrolona, um esteróide anabolizante, substância banida pelas autoridades do esporte. A droga tem o poder de suprir os atletas de doses extras de energia e acelerar a recuperação depois de contusões. Elisângela pode ser suspensa por dois anos. "Nunca usei nada proibido e vou fazer de tudo para limpar meu nome", afirma a atleta, repetindo o discurso padrão de quem é pego na malha fina. Outra brasileira, a lançadora de dardos Sueli Pereira dos Santos, flagrada por uso de anabolizantes em 1995, chegou a alegar que o hormônio estava presente num frango que havia comido. Levou um gancho de quatro anos. Elisângela ficou surpresa. Nos dois últimos meses, ela passou por três exames. Dois deles, incluindo o realizado nos Jogos de Winnipeg, nada acusaram. A prova positiva foi colhida durante uma competição realizada na Espanha, a Universíade. Foi o quinto caso ocorrido em agosto envolvendo o consumo de nandrolona (veja quadro abaixo). Os atletas costumam pôr a culpa nos testes. A campeã mundial dos 100 metros rasos, a americana Marion Jones, chegou a sugerir que fossem revistos os métodos empregados nos exames. Vale lembrar que os testes só são contestados pelos atletas quando atingem seu objetivo, que é detectar as drogas proibidas.
"Nandrolona só existe na forma injetável", explica Eduardo de Rose, presidente da Federação Internacional de Medicina Esportiva. Ou seja: ninguém pode tomar por engano. A tentativa de achar uma brecha na lei faz parte do jogo de cena do mundo esportivo. Mesmo diante de nadadoras com braços que mais parecem tentáculos ou de corredores com as pernas disformes, poucos admitem em público que a química está derrotando a física nos campos esportivos. "Todas as grandes marcas atuais são produzidas com a ajuda de drogas", afirma Osmar de Oliveira, especialista em medicina esportiva. Uma das raras tentativas de moralizar a situação partiu dos organizadores do circuito de meetings internacionais de atletismo, as competições em que os atletas mais ganham dinheiro. Eles acabam de lançar a proposta de não convidar mais para suas disputas esportistas envolvidos com drogas proibidas, mesmo que suas punições oficiais já tenham sido cumpridas. A medida é paradoxal. Se for eficaz, pode não sobrar ninguém na pista. |
|
|