O segredo é o pezão

O australiano Ian Thorpe assombra
a natação com seu físico,
seu talento e seus recordes

O maior fenômeno da natação mundial cruzou como um torpedo a piscina olímpica de Sidney, na Austrália, na semana passada. Com 16 anos de idade e um corpanzil de 1,98 metro de puro músculo, o australiano Ian Thorpe calça sapatos número 50, ou seja, 33 centímetros do calcanhar até a ponta do dedão. Gustavo Borges, nosso herói da natação e adversário quase certo de Thorpe nos 200 metros nado livre na próxima final olímpica, tem 6 centímetros a mais de estatura e 2 a menos de pé. Talvez a força extra de impulsão de Thorpe, o Thorpedo, como é conhecido, esteja aí. Em quatro oportunidades em que entrou na água na semana passada, durante a disputa do Campeonato Pan Pacífico, Thorpe saiu com um novo recorde mundial. De quebra, ganhou três medalhas de ouro. No domingo, melhorou a marca dos 400 metros livre. Na segunda-feira, na série de classificação, bateu o recorde dos 200 metros pela primeira vez. Na terça voltou a superar o melhor tempo dos 200 e na quarta integrou a equipe australiana que superou o recorde mundial do revezamento 4 por 200. Os especialistas tentam entender como Thorpe é capaz de nadar com um apuro técnico e um vigor físico que nenhum outro nadador consegue imitar. A única diferença, o pé descomunal, explica apenas parte de seus êxitos (veja quadro). "Um pé grande ajuda, tanto que qualquer nadador fica muito mais rápido quando usa nadadeiras", diz Alberto Pinto da Silva, técnico do Pinheiros, de São Paulo. "A flexibilidade, a coordenação e a posição do pé são ainda mais relevantes do que o tamanho, simplesmente."

"Thorpe vence porque tem um talento excepcional e porque treina muito", reconhece Fernando Scherer, o Xuxa, o outro grande brasileiro das piscinas. Xuxa, que já enfrentou Thorpe algumas vezes, ficou impressionado com sua desenvoltura. "O que mais me chama a atenção é a facilidade com que ele nada. Thorpe começa forte, mantém o ritmo o tempo todo e nem parece que está fazendo força. É um absurdo." Ao bater o recorde dos 400 metros, ele conseguiu a proeza rara de ser mais rápido na segunda metade da prova do que na primeira. Gustavo Borges, que também já o enfrentou em quatro ocasiões e não ganhou em nenhuma, prevê que suas chances de ganhar uma medalha de ouro nas Olimpíadas ficaram muito menores agora: "Com os resultados que está obtendo, não há dúvida de que Thorpe é o grande favorito da natação em Sidney". Nadando o melhor que pode, Thorpe chegaria mais de 5 metros à frente de Borges numa disputa lado a lado.

A ambição olímpica do australiano é ganhar sete medalhas de ouro e igualar o recorde de seu ídolo, o americano Mark Spitz, que há 27 anos em Munique estabeleceu essa marca. Um desafio difícil, mas não impossível para ele. Thorpe nada os 400 metros livre, uma prova de resistência, e os 200, que exige mais velocidade, mas se defende também nos 100 metros e só não se arrisca nos 1.500 porque não quer. "Gosto muito dos 400 e fico surpreso com meus resultados nos 200, porém não vejo nenhuma chance de nadar os 1.500", explicou no ano passado. Ele se aventura ainda no nado borboleta e nos quatro estilos combinados. Seu desempenho espetacular já levantou a dúvida que perpassa por todas as grandes conquistas do esporte hoje em dia: seu sucesso é movido a física ou a química? (veja reportagem). "Certamente muita gente vai dizer que é impossível subir tão depressa sem droga, no entanto nenhum atleta de elite passou por tantos testes de doping quanto ele", defende Don Talbot, técnico da seleção australiana.

Filho de uma professora e um jardineiro e irmão de uma nadadora, Thorpe caiu numa piscina quase por acaso. O pai queria que ele fosse jogador de críquete, mas aos 8 anos o garoto ficou encantado quando assistiu a um treino da irmã mais velha, Christina. A Austrália perdia nesse momento um jogador de críquete e ganhava um fenômeno. Seu currículo é espetacular: com 14 anos já estava na seleção australiana e com 15 era recordista e campeão mundial. "Se com 16 anos já faz tudo isso, imagine o que fará quando estiver mais maduro", diz Gustavo Borges, que, dez anos mais velho, é ainda um competidor de primeira linha na natação mundial. Um nadador atinge o ápice da carreira entre 20 e 22 anos, quando os músculos do corpo estão inteiramente definidos e o organismo maduro. "Ele é muito grande, tem um corpo que parece um armário, mas é um adolescente, todo desengonçado ainda", diz Alberto Pinto da Silva, o técnico do Pinheiros.

Fora das piscinas, comporta-se como um adolescente, sem deixar de ser um campeão. Adora ir ao McDonald's comer hash brown, prato à base de batata, se entusiasma com a barulheira da banda punk americana Green Day e divide seu tempo livre entre a televisão, a internet e o videogame. Sua outra vida, de homem de negócios, inclui contrato com um canal de televisão australiano e compromissos publicitários com meia dúzia de patrocinadores que devem despejar em seus bolsos 2 milhões de dólares neste ano. Num dos anúncios mais populares na Austrália, aparece ao lado da mãe, com a cara toda lambuzada de leite. Mesmo acordando todos os dias às 4 da manhã para treinar, achou melhor interromper os estudos no equivalente ao 2º ano colegial para se dedicar integralmente à natação. Só volta à escola, onde era aluno exemplar, depois das Olimpíadas. Thorpe ainda encontra tempo para atuar como voluntário no Linha da Vida, um serviço de aconselhamento por telefone do tipo Centro de Valorização da Vida, CVV. Quanto ao sucesso, tem a cabeça feita: "O importante neste caso é pensar em outra coisa".

 

 
 

 




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