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Fumaça ao ventoOposição faz uma caricatura
Eles chegaram de ônibus para protestar na capital do país. Os organizadores da manifestação dizem que eram 130.000, a Polícia Militar computou 60.000, talvez não tenham chegado a 50.000. O número não importa muito. Fizeram o maior protesto popular contra o governo Fernando Henrique Cardoso e conseguiram que seu ato político se realizasse sem badernas, o que não é fácil com uma multidão desse tamanho. Nas salas do poder, de cujas janelas os ocupantes olhavam a multidão na Esplanada dos Ministérios, a euforia não podia ser maior. Antes do protesto da última quinta-feira, os partidos de oposição que o organizaram não conseguiram acertar-se nem quanto aos slogans que carregariam a Brasília. Depois da manifestação, estava claro que, por sua falta de rumo, toda aquela movimentação se destinava a desaparecer no ar, como fumaça, nas horas seguintes. Diplomático como sempre, sem deixar transparecer sua satisfação, o presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou que a mensagem das oposições não seria esquecida por ele. "Está registrado e já anotamos. Agora é olhar para a frente e ver o que mais pode ser feito", mandou dizer FHC por intermédio do porta-voz, Georges Lamazière.
A manifestação foi organizada por cinco partidos, mas cada um tem suas bandeiras próprias. O PT quer o impeachment do presidente caso se comprovem irregularidades na venda da Telebrás. O PC do B acha que não precisa investigar nada e que já existe motivo para pedir e conseguir imediatamente o impeachment. O PDT sugere um caminho mais curto: a simples renúncia de FHC. A tese da renúncia, dentro do PDT, é sustentada pelo engenheiro Leonel Brizola, estrela do partido, que em 1983 defendeu a prorrogação do mandato do presidente João Figueiredo, em 1988 queria antecipação das eleições para derrubar José Sarney e, em 1992, ficou contra o impeachment de Fernando Collor. A oposição brasileira é hoje representada basicamente pela esquerda, e nenhum dos partidos que dela fazem parte é capaz de definir com clareza o que quer para o futuro, à exceção do minúsculo PCB, que tem 12.000 filiados no país e nenhum político eleito. Em seu programa, o PCB prega a construção de um Brasil socialista, nos moldes da antiga União Soviética, com algumas correções aqui e ali. Nos demais partidos, os programas não são mais do que um manual de intenções genéricas. Esses partidos têm uma representação pequena no Congresso Nacional, em torno de 20%, mas historicamente detêm grande capacidade de provocar fatos políticos, como a marcha sobre Brasília na semana passada. Há setores nas universidades, na mídia e na Justiça alinhados com o pensamento de esquerda, que continua sendo uma corrente bastante forte e numerosa no Brasil. Sua inconsistência está no projeto de país que procura apresentar. A fachada do prédio oposicionista é constituída por declarações contra o desemprego, a miséria e o capital internacional, como se o governo estivesse a favor da fome nacional. Prega-se o calote na dívida externa, apresentada como uma das razões para a miséria brasileira. Tirando generalidades como essas, a bandeira que resta à oposição hoje é ser contra. Aparentemente, alguns líderes das esquerdas imaginam que a melhor maneira de conquistar apoio é provocar um processo de rejeição ao governo tão grande que a população passe a apoiá-los. "As pessoas podem defender até a volta do Império Romano", diz o cientista político Bolívar Lamounier. "O problema é que não se governa um país dessa maneira." Os partidos de esquerda não são imprecisos por má-fé ou para enganar seu eleitorado, mas porque a roda da História atropelou suas convicções, quando derrubou o Muro de Berlim, destruiu o chamado "socialismo real" da ex-URSS ou apagou o "farol da humanidade" que se iluminava na Albânia segundo as antigas pregações do PC do B, que, órfão de uma referência internacional, hoje pinça elogios aqui e ali sobre Cuba e China. Diante disso, a oposição de esquerda, se não quiser simplesmente desaparecer, precisa reinventar-se – e ninguém tem certeza do caminho mais adequado para fazer isso. Daí por que entre as siglas de oposição existem tantas divergências, mesmo em relação à principal palavra de ordem de um mero protesto contra o governo, como ocorreu na semana passada na marcha de Brasília. "Antes, nas décadas de 60 e 70, ou se defendiam reformas sociais ou a revolução", diz o ex-prefeito petista de Porto Alegre Tarso Genro. "Hoje precisamos criar um novo projeto, e essa transição bate de forma desigual em cada partido", completa ele. A indefinição de rumos está refletida em toda parte. Os manifestantes que apareceram na Marcha dos 100.000 também eram uma expressão disso. Havia ali grupos com reivindicações setoriais, como servidores públicos pedindo aumento de salário depois de cinco anos sem tê-lo ou aposentados reclamando do valor de suas pensões. Havia manifestantes pedindo emprego ou terra. E também reivindicações de caráter puramente individual, como a senhora que queria ajuda para construir sua casa em São Bernardo do Campo. No fundo, o que é mesmo que eles desejariam ao pisar nos gramados da Esplanada dos Ministérios? Se é que se pode dizer que todos eles tinham alguma coisa em comum, essa coisa é a insatisfação. "Vim para ser mais uma pessoa a mostrar ao presidente que não estamos satisfeitos", resumia o vidraceiro Carlos Roberto Maia, 31 anos, de Curitiba. Na solidão do Palácio da Alvorada, o presidente Fernando Henrique Cardoso também não deve estar satisfeito com tudo o que consegue fazer pelo país. O descontentamento pode gerar um protesto, mas, pelo que se viu em Brasília na semana passada, não dotou as oposições de um rumo razoável. Na Europa Ocidental, a oposição se renovou depois da queda do Muro de Berlim e a falência do socialismo como alternativa econômica. Com o desmoronamento da União Soviética, surgiu uma nova ordem mundial baseada em conceitos como globalização e quebra de barreiras alfandegárias. É a era do capital especulativo e da revolução tecnológica. Os países entendem que precisam inserir-se nessa nova ordem, sob pena de ficar à margem da corrente da História. Os partidos social-democratas europeus encurtaram a distância entre suas idéias e as dos conservadores. Resultado: venceram as eleições depois de anos na oposição. Na Inglaterra, o governo trabalhista de Tony Blair, em vez de reverter o modelo econômico adotado pelos conservadores Margaret Thatcher e John Major, deu-lhe apenas uma mudança de enfoque. Os programas de privatização permaneceram, mas algumas questões sociais – previdência social e educação – foram priorizadas. "A diferença está na ênfase que cada partido dá a uma questão. E só. Ninguém discute privatização, por exemplo", diz o ex-ministro da Fazenda Mailson da Nóbrega. No Brasil, os partidos de esquerda ficaram eufóricos com as vitórias de Blair, na Inglaterra, e do socialista Lionel Jospin, na França. Logo em seguida se decepcionaram. Esperavam governos estatizantes, inimigos do capital internacional e contra reformas no aparelho burocrático. Quando viram que nada tinham entendido, rebelaram-se contra o novo socialismo europeu. Numa carta de intenções, o Partido dos Trabalhadores de Porto Alegre critica de maneira veemente os primeiros-ministros Tony Blair e Lionel Jospin pelas posições que adotaram. Nesse mesmo manifesto, há palavras de ordem como "Repudiamos a dívida externa", "Fora FMI" e "Queremos de volta os meios de produção". São os mesmos slogans que infestavam a Esplanada dos Ministérios na semana passada. O problema é que não se faz uma República com slogans. No Brasil, a esquerda insiste numa posição ultraconservadora, é contra as reformas estruturais e faz tudo para atrapalhá-las. Vem colhendo derrotas consecutivas nas eleições presidenciais. Hoje, o adversário mais forte do governo está dentro do próprio governo. Para votar a favor de uma coisa obviamente necessária como a reestruturação da Previdência ou do sistema tributário, o deputado governista quer receber favores em troca, o que torna as votações incertas nas horas mais delicadas. O partido não é dono do voto do parlamentar, como em países de representação política mais desenvolvida. Um levantamento feito pelo cientista político Jairo Nicolau, do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro, mostra que de 1986 para cá 30% dos deputados eleitos trocaram de partido pelo menos uma vez durante o mandato. Só nesta última legislatura, 62 parlamentares deixaram suas legendas. Existe um caso emblemático. O deputado federal João Mendes, do PPB do Rio de Janeiro, saiu e voltou para seu partido no mesmo dia. Em 2 de janeiro, ele assinou ficha de filiação no PMDB pela manhã e à tarde entrou de volta no PPB. Menos de vinte dias depois, assinou de novo no PMDB e dessa vez se transferiu mesmo. Apesar da disposição de embarcar em ônibus e cruzar longas distâncias em direção a Brasília, boa parte dos manifestantes da semana passada mostrava certa apatia, mesmo durante a viagem. Num dos ônibus que partiram do bairro Centro Cívico, de Curitiba, os viajantes falavam sobre novelas, filmes ou piadas, enquanto alguns jovens, despreocupadamente, acendiam cigarros de maconha. Outro ônibus, partindo da Praça Universitária de Goiânia, trazia um grupo de estudantes que nem mesmo cantava uma música, num silêncio que só foi rompido, já perto de Brasília, depois que uma coleta de 13 reais rendeu a compra de dois garrafões de vinho San Martín e alguma animação. Já no ônibus que saiu do Paço Municipal de São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, com um grupo heterogêneo formado por secundaristas, aposentados, desempregados e líderes sindicais, quase não se ouvia uma única voz – e poucos foram os que dormiram durante as catorze horas de viagem. Está claro que não eram "golpistas", como sugeriram os governistas. Mas também se percebe que se trata de uma oposição "insatisfeita" – e não uma oposição militante. Elemento vital em qualquer democracia, a oposição presta um enorme serviço ao país no momento em que se torna canal de expressão para quem quer terra, casa, salário ou educação. Com isso, contribui para a organização da sociedade. Só que a oposição brasileira continua tonta, incapaz de reagir de forma racional. Está agora dando seus primeiros sinais de vida real desde o primeiro mandato do presidente Fernando Henrique. E foi preciso que a popularidade do presidente batesse no fundo do poço para que o protesto aparecesse. Agora, cabe à oposição indagar-se por que a impopularidade do presidente não se traduz em popularidade de algum líder oposicionista. Ou, dito de outra forma, por que a insatisfação com o governo, que é avassaladora, muito maior do que a multidão reunida na quinta-feira em Brasília, não se transforma em apoio à oposição.
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Com reportagem de
Maurício Lima, Alexandre Secco
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