Revista VEJA
Entrevista Juan Manuel Santos
Homem da guerra e da paz
O novo presidente da Colômbia diz que manterá o combate à guerrilha e ao narcotráfico. Com os países vizinhos, que viviam às turras com seu antecessor, ele quer boas relações
Mariana Pereira de Almeida
Ex-ministro da Defesa, Juan Manuel Santos assumiu a Presidência da Colômbia em 7 de agosto sob a sombra de Álvaro Uribe, seu padrinho político, que deixou o governo com 75% de aprovação popular. Há três semanas no cargo, Santos conta com a natural boa vontade do público com os recém-empossados e apresenta um índice de aprovação de 84%. Ele adotou um tom conciliador com seus vizinhos bolivarianos e logo depois da posse se encontrou com o venezuelano Hugo Chávez, restabelecendo as relações diplomáticas. Iniciou também conversações com Rafael Correa, presidente do Equador. Santos desembarca em Brasília nesta quarta-feira com a firme intenção de fortalecer suas relações com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ele falou a VEJA na Casa de Nariño, palácio de despachos e residência oficial do presidente colombiano em Bogotá.
"Nossa
intenção com a Venezuela é ter relações duradouras,
respeitando nossas diferenças.
O que tínhamos
era o pior dos mundos"(Luiz Maximiano)
Que tipo de vizinho o Brasil
é para a Colômbia?
Para nós interessa muito ter uma relação mais estreita com
o Brasil, um país com o qual eu, também pessoalmente, tenho uma relação especial
e muito próxima. Minha primeira atuação profissional foi na Organização Internacional
do Café. Então, nossos sócios naturais eram os brasileiros, o Itamaraty. Aprendi
com os diplomatas brasileiros muito do que sei hoje no que se refere a negociação
internacional. Escolhi o Brasil como o primeiro país que visitarei como presidente.
Os investimentos brasileiros na Colômbia estão crescendo muito. Temos afinidades
e interesses comuns. Além disso, houve o convite especial do presidente Lula,
pelo qual fiquei muito grato.
Que tipo de vizinho é a Colômbia para a
América Latina?
Nossa região passa por um momento muito especial porque nós temos
em abundância recursos que são crescentemente escassos no mundo. Refiro-me a energia,
água, capacidade de produzir mais alimentos e biodiversidade. Cada país da América
do Sul e da América Latina é por si só muito forte. Mas unidos seremos uma grande
potência. Tenho fundadas esperanças no sucesso do processo de integração. Fui
um dos “pais da integração” do grupo andino, que, infelizmente, não evoluiu tanto
quanto podia.
O partido do presidente Lula, o PT, tem relações documentadas
com as Farc. O senhor pretende obter de Lula o repúdio público à guerrilha, nos
moldes da declaração feita por seu colega venezuelano Hugo Chávez?
Quando fui
ministro da Defesa, minha experiência com o governo do presidente Lula foi muito
positiva. Obtive um rechaço categórico às Farc por parte do ministro da Defesa,
Nelson Jobim, durante uma viagem dele à Colômbia. Ele disse que não permitiria
que as Farc tivessem nenhum tipo de presença ou influência no Brasil.
O ministro
afirmou que os guerrilheiros seriam recebidos a tiros, o que nos causou uma impressão
muito boa. Não tenho, portanto, percebido afinidade ou complacência do governo
Lula com o terrorismo e estou certo de que, quando nos sentarmos para conversar,
essa será a posição do presidente brasileiro.
Documentos encontrados nos
computadores de Raúl Reyes (chefe guerrilheiro morto por comandos colombianos
em 2008 no lado equatoriano da fronteira) revelam contatos bem amigáveis entre
as Farc e alguns integrantes do PT...
Sim, é possível que tenha ocorrido algum
contato do PT com as Farc — assim como as Farc tiveram contato com diversos políticos
colombianos, inclusive comigo. Tive contato com as Farc durante os processos de
paz. O fato de alguns nomes de brasileiros terem aparecido nos computadores das
Farc não necessariamente significa que aquelas pessoas sejam cúmplices com grupos
fora da lei. Uma coisa é estabelecer contatos, outra é ser cúmplice.
É possível “virar a página” na crise com a Venezuela mesmo sabendo que ainda há
guerrilheiros das Farc naquele país?
Nossa intenção com a Venezuela é ter relações
boas e duradouras, nas quais nossas diferenças são respeitadas de lado a lado.
O presidente Chávez e eu fomos muito francos um com o outro. Eu sei que não vou
mudar sua maneira de pensar, e ele sabe que não vai mudar a minha. É um avanço.
O que tínhamos era o pior dos mundos. A única coisa ainda pior teria sido uma
guerra, o que para mim é impensável. Por isso, estamos fazendo esforços para melhorar
as relações sem interferências na soberania de cada país.
Mas isso não
altera a realidade de que os terroristas das Farc mantêm bases na Venezuela...
O presidente Chávez afirmou claramente que não vai permitir a presença de grupos
à margem da lei em território venezuelano. Espero que isso se cumpra, porque é
parte vital para a manutenção de nossas relações em bom nível.
Dá para confiar no presidente Chávez?
Nossa reunião em Santa Marta foi muito franca,
muito sincera. Eu já conhecia o presidente Chávez, que é muito... muito... amável
pessoalmente. Ele tem o sangue caribenho. Acho que começamos nossa convivência
com o pé direito. Era o dia do meu aniversário, e ele chegou brincando com os
repórteres: “Venho no dia do aniversário do presidente, que acredito completar
36, 37 anos”. Mais tarde, quando ele me cumprimentava na Quinta de San Pedro Alejandrino,
que abrigou a reunião, eu o saudei muito sério e disse: “Presidente, começamos
muito mal”. Ele ficou me olhando, surpreso, e disse: “O que aconteceu?”. Eu respondi:
“Você falou que parecia que eu estava completando 36, 37 anos, e isso pode me
trazer problemas porque minha esposa vai exigir muito mais de mim”. Rimos bastante.
Isso quebrou o gelo.
E então...
Então deixei claro a Chávez que não aceito
intervenção dele no processo de paz colombiano. Aliás, disse a mesma coisa ao
presidente Lula. Chávez respondeu-me que estava totalmente de acordo. Eu então
acrescentei que deveria parar de criticar o presidente Uribe (Álvaro Uribe,
antecessor de Santos). Sou leal a Uribe e terei de defendê-lo toda vez que
alguém o criticar na minha presença. Uribe fez um grande trabalho na Colômbia.
Também em relação a isso, obtive a concordância de Chávez.
O senhor concorda
com a apropriação que a esquerda sul-americana fez do legado de Simón Bolívar?
Não,
de maneira alguma. Bolívar pertence a todos os latino-americanos e a todos os
povos libertados, não importa a posição política ou a origem de classe. Não podemos
nos esquecer de que Bolívar era uma pessoa que se identificava muito com a aristocracia
latino-americana. Não creio que ninguém possa se apropriar de suas ideias, afinal
elas pertencem a todos. Não podemos nos esquecer também das limitações derivadas
da circunstância histórica em que ele viveu. Bolívar queria reinstalar a monarquia
na América. Acredito que o presidente Chávez não deve achar essa ideia válida
atualmente. O fato é que ninguém pode se dizer o único herdeiro do legado
de Bolívar.
Outro vizinho com quem a Colômbia esteve em pé de guerra foi
o Equador, do presidente Rafael Correa. Como vai a diplomacia nessa frente?
Tivemos
uma reunião muito boa também com o presidente Correa. Como ele havia solicitado,
eu lhe entreguei todo o material que encontramos nos computadores de Raúl Reyes.
Muito em breve vamos normalizar totalmente as relações entre nossos países.
A Corte Constitucional suspendeuo acordo que permite às tropas americanas usar
bases militares na Colômbia. Isso atrapalha as relações com os EUA?
Acatamos
a decisão de nossa Corte, a única atitude possível em uma democracia. Mas ela
não prejudica em nada as relações bilaterais entre a Colômbia e os Estados Unidos.
A única coisa afetada temporariamente foram os recursos destinados a ampliar uma
das setebases. Temos relações muito boas com os Estados Unidos, e elas continuarão
assim.
Os Estados Unidos investiram 6 bilhões de dólares no combate ao
narcotráfico nos termos do Plano Colômbia. Muda alguma coisa?
Os termos de
cooperação entre nosso país e os Estados Unidos permanecem os mesmos, com ou sem
a aprovação formal do acordo.
As Farc estão mesmo por trás do atentado
a bomba de 12 de agosto, em Bogotá?
O que se descobriu até agora indica a possibilidade
de que os autores do atentado sejam das Farc. Mas, a esta altura das investigações,
é prematuro responsabilizar alguém.
Sua política de combate às Farc será
a mesma empregada por Uribe?
Nossa política contra as Farc, contra o narcotráfico,
contra grupos criminosos a serviço do narcotráfico e contra todos os grupos fora
da lei continuará sendo de total contundência nos âmbitos militar, policial e
jurídico. Não vamos ter complacência, não vamos dar trégua. Temos de continuar
com a pressão militar em todas as frentes. O que quero dizer é que a porta do
diálogo com as Farc não está trancada e a chave não foi jogada ao mar. Mas precisamos
obter do grupo uma demonstração que nos convença definitivamente de que quer um
diálogo para chegar à paz. Os colombianos estão cansados de falsos sinais de esperança,
que servem apenas para fortalecer a guerrilha e fazê-la ganhar oxigênio. Não vamos
repetir a experiência de dar às Farc o benefício da dúvida. Vamos continuar combatendo
o narcotráfico, porque ele financia a guerrilha. Esse é um problema de segurança
nacional.
O governo de Álvaro Uribe foi muitobem avaliado justamente por
causa do combate à guerrilha. É difícil assumir o cargo com a responsabilidade
de manter uma política tão ou mais efetiva que a anterior?
Eu fui ministro
da Defesa do presidente Uribe e, modéstia à parte, durante o meu ministério é
que foram dados os golpes mais contundentes contra as Farc.
Nós continuaremos
com eles, não vamos baixar a guarda. Mas é claro que o presidente Uribe nos deixou
um grau muito alto de exigência, que vai nos obrigar a realizar ações muito efetivas
e a trabalhar duro.
O próximo presidente brasileiro vai passar por
uma experiência semelhante à sua, que é a de suceder a um político de enorme
popularidade. Qual é o maior desafio para alguém nessa situação?
Eu sou
o último pretendente a dar um conselho aos candidatos à Presidência
do Brasil. O vital nessas circunstâncias é ter um programa claro de governo, ter
noção exata da etapa em que o país está e fazer todo o possível para avançar
no rumo certo. Uribe obteve excelentes resultados em sua luta contra o crime,
e o país avançou muitíssimo. Isso nos dá a oportunidade de trabalhar
com outras prioridades, que são a luta contra a pobreza e a luta contra o desemprego.
Já que a questão da insegurança foi, de certa forma, superada, podemos nos dedicar
à parte social. No Brasil, a situação é diferente. Vocês não têm o mesmo
problema de segurança que nós tivemos. O presidente Lula teve muito êxito
em melhorar os índices de pobreza. Aí, então, o novo governo terá não somente
de continuar isso, como também passar às outras prioridades. Cada país tem suas
próprias características.
O senhor tem um favorito na eleição brasileira?
Não, não, não (risos). Eu conheço bem José Serra, estive com ele várias
vezes, e não conheço a Dilma. Espero conhecê-la quando eu for ao Brasil. Mas quem
tem de ter favoritos são vocês, brasileiros.

