Edição 1869 . 1° de setembro de 2004

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Tales Alvarenga
O melhor dos piores

"O Brasil não precisa dar cambalhotas
geopolíticas ou ideológicas para se
impor fora de suas fronteiras"

Uma idéia insensata ronda a mente dos assessores de Lula para a política externa brasileira. Eles parecem interessados em projetar o Brasil sem transformá-lo num país essencialmente mais forte. Já que poder é uma questão relativa, a força de uma nação torna-se menor se comparada com a dos países mais desenvolvidos. E torna-se maior quando esse país procura a companhia dos mais atrasados. É o que faz o Brasil.

Assistido por seus conselheiros, o presidente Lula visitou o ditador do Gabão, há 37 anos no poder, esteve numa tenda árabe com o ditador da Líbia, Muamar Kadafi, e deu uma esticada até a Síria, onde confraternizou com uma ditadura hereditária. Lula esteve também em incontáveis países democráticos, mas a pergunta aqui é: por que tantas ditaduras?

Pela biografia, Lula não gosta de ditaduras, até porque foi lutando contra uma delas, no Brasil, que ele virou o político que é. A razão está numa inclinação do Itamaraty por uma política internacional alternativa, que dê visibilidade ao Brasil no cotejo com países de terceira categoria. Esses países podem retribuir na forma de reconhecimento internacional do Brasil e uma ou outra ajudazinha em votações nos fóruns internacionais. É uma opção mais comum do que se imagina. A ditadura militar brasileira também fez isso.

Na África, o Brasil andou perdoando a dívida dos mais esfarrapados do que nós. No Mercosul, tolera pressões crescentes da Argentina, que impõe barreiras comerciais no âmbito de um tratado de livre-comércio que parece mais empacado do que nunca. Os argentinos levantaram cotas e outras barreiras para a entrada em seu país de calçados brasileiros, fogões, geladeiras, máquinas de lavar roupa e televisores da Zona Franca de Manaus. Tudo isso para proteger sua indústria local. Como as mulheres fáceis, o Brasil só sabe dizer sim.

E agora vem a história de Fidel Castro, outro ditador. Os petistas amam Fidel por causa do passado comum de esquerda entre eles e o líder cubano. Até aí se trata de uma questão de pele. Fidel persegue os religiosos, deporta os gays, prende os escritores e fuzila os dissidentes mais antipáticos ao regime, mas o PT tem o direito de gostar dele. Agora, no entanto, o governo Lula quer convencer todos os países vizinhos a compartilhar de sua simpatia pelo barbudo cubano. É a última grande decisão da engenhosa diplomacia brasileira.

Depois da posse de Lula, Brasília resolveu inventar o Grupo dos Amigos da Venezuela, para prestigiar o coronel Hugo Chávez, o histrião fardado de Caracas. Era a estréia da política externa do Itamaraty no governo petista, uma tentativa canhestra de parecer líder de alguma coisa entre países mais fracos, gastando apenas retórica oca. Na última reunião do Grupo do Rio, formado por dezenove países latino-americanos e do Caribe, o governo brasileiro enfim deu a cartada pró-Fidel. Propôs a criação do Grupo de Amigos de Cuba. Silêncio geral. Os países da América Latina e do Caribe não deram sinais de querer amizade com o mais antigo ditador do mundo.

O Brasil é um líder natural entre os vizinhos. Tem a maior economia da região, depois do México. É, de longe, o país com a maior possibilidade de se tornar uma potência respeitável dentro de algumas décadas. Países dinâmicos como o Chile cabem quase na economia do Estado do Rio. A Argentina inteira é muito menor que o Estado de São Paulo. O Brasil não precisa dar cambalhotas geopolíticas ou ideológicas para se impor fora de suas fronteiras.

 
 
 
 
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