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Tales
Alvarenga
O melhor dos piores
"O Brasil não
precisa dar cambalhotas
geopolíticas ou ideológicas para se
impor fora de suas fronteiras"
Uma idéia
insensata ronda a mente dos assessores de Lula para a política
externa brasileira. Eles parecem interessados em projetar o Brasil
sem transformá-lo num país essencialmente mais forte.
Já que poder é uma questão relativa, a força
de uma nação torna-se menor se comparada com a dos
países mais desenvolvidos. E torna-se maior quando esse país
procura a companhia dos mais atrasados. É o que faz o Brasil.
Assistido
por seus conselheiros, o presidente Lula visitou o ditador do Gabão,
há 37 anos no poder, esteve numa tenda árabe com o
ditador da Líbia, Muamar Kadafi, e deu uma esticada até
a Síria, onde confraternizou com uma ditadura hereditária.
Lula esteve também em incontáveis países democráticos,
mas a pergunta aqui é: por que tantas ditaduras?
Pela biografia,
Lula não gosta de ditaduras, até porque foi lutando
contra uma delas, no Brasil, que ele virou o político que
é. A razão está numa inclinação
do Itamaraty por uma política internacional alternativa,
que dê visibilidade ao Brasil no cotejo com países
de terceira categoria. Esses países podem retribuir na forma
de reconhecimento internacional do Brasil e uma ou outra ajudazinha
em votações nos fóruns internacionais. É
uma opção mais comum do que se imagina. A ditadura
militar brasileira também fez isso.
Na África,
o Brasil andou perdoando a dívida dos mais esfarrapados do
que nós. No Mercosul, tolera pressões crescentes da
Argentina, que impõe barreiras comerciais no âmbito
de um tratado de livre-comércio que parece mais empacado
do que nunca. Os argentinos levantaram cotas e outras barreiras
para a entrada em seu país de calçados brasileiros,
fogões, geladeiras, máquinas de lavar roupa e televisores
da Zona Franca de Manaus. Tudo isso para proteger sua indústria
local. Como as mulheres fáceis, o Brasil só sabe dizer
sim.
E agora
vem a história de Fidel Castro, outro ditador. Os petistas
amam Fidel por causa do passado comum de esquerda entre eles e o
líder cubano. Até aí se trata de uma questão
de pele. Fidel persegue os religiosos, deporta os gays, prende os
escritores e fuzila os dissidentes mais antipáticos ao regime,
mas o PT tem o direito de gostar dele. Agora, no entanto, o governo
Lula quer convencer todos os países vizinhos a compartilhar
de sua simpatia pelo barbudo cubano. É a última grande
decisão da engenhosa diplomacia brasileira.
Depois
da posse de Lula, Brasília resolveu inventar o Grupo dos
Amigos da Venezuela, para prestigiar o coronel Hugo Chávez,
o histrião fardado de Caracas. Era a estréia da política
externa do Itamaraty no governo petista, uma tentativa canhestra
de parecer líder de alguma coisa entre países mais
fracos, gastando apenas retórica oca. Na última reunião
do Grupo do Rio, formado por dezenove países latino-americanos
e do Caribe, o governo brasileiro enfim deu a cartada pró-Fidel.
Propôs a criação do Grupo de Amigos de Cuba.
Silêncio geral. Os países da América Latina
e do Caribe não deram sinais de querer amizade com o mais
antigo ditador do mundo.
O Brasil
é um líder natural entre os vizinhos. Tem a maior
economia da região, depois do México. É, de
longe, o país com a maior possibilidade de se tornar uma
potência respeitável dentro de algumas décadas.
Países dinâmicos como o Chile cabem quase na economia
do Estado do Rio. A Argentina inteira é muito menor que o
Estado de São Paulo. O Brasil não precisa dar cambalhotas
geopolíticas ou ideológicas para se impor fora de
suas fronteiras.
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