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Ponto de vista: Stephen
Kanitz
Ensinando
a pescar
"Nas
ONGs que 'ensinam a pescar'
85% das doações terminam no bolso
dos professores, não no bolso dos
alunos carentes"
Ilustração Ale Setti
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Uma das frases mais divulgadas por empresas socialmente responsáveis
é "Nós não damos o peixe, nós ensinamos
a pescar". Um dos conceitos mais valorizados por intelectuais, e
especialmente por professores, é que ensinar a pescar é
importante, dar o peixe não é. São pessoas
que se colocam contra o assistencialismo, a caridade e a filantropia.
Acham que o assistencialismo é nocivo, que cria dependência
e reduz a auto-estima.
Existe
atualmente enorme preconceito contra entidades que dão assistência,
como aquelas que cuidam de moças solteiras grávidas
e as inúmeras entidades que servem sopão aos famintos.
De uns anos para cá, doadores estão deixando de ajudar
entidades assistencialistas hoje as empresas não querem
patrocinar entidades que oferecem teto a moradores de rua, olham
feio para o Fome Zero. A maioria das empresas socialmente responsáveis
está sendo induzida a patrocinar prioritariamente projetos
que "ensinam a pescar". E aceita sem pestanejar porque são
projetos que proporcionam elevado retorno sobre o investimento.
Eu vou
defender as entidades que prestam assistencialismo à moda
antiga e tentar ajudá-las a reverter a onda que estão
sofrendo, e à qual muitas não estão resistindo.
O ser humano
tropeça muitas vezes na vida. Já vi o desespero de
mulheres abusadas, já vi pessoas humildes entrar em pânico
porque os filhos contraíram câncer. Essas pessoas não
precisam aprender a pescar. Elas precisam de assistência,
carinho e compaixão. Alcoólatras precisam de ajuda,
um ouvido amigo, e não de cursos sobre os efeitos do álcool.
Dependentes químicos não precisam de cursos de "geração
de renda", eles precisam de compaixão, colo e um ombro carinhoso
para poder readquirir forças para se reerguer SOZINHOS. Órfãos,
paraplégicos, portadores de hanseníase ou síndrome
de Down, além de um curso de três semanas, precisam
de atenção dedicada anos a fio.
Todo ano
analiso mais de 400 ONGs e descobri algo muito constrangedor. Nas
organizações que fazem "mero assistencialismo", 80%
dos recursos doados são revertidos em uma cadeira de rodas,
em óculos para um deficiente visual ou em um prato de comida.
Ou seja, o dinheiro vai para quem precisa, enquanto nas ONGs que
"ensinam a pescar" 85% das doações terminam no bolso
dos professores, não no bolso dos alunos carentes. Por que
professores não podem ser voluntários sem receber
nada, como os outros? Alguns, felizmente poucos, cobram fortunas
dessas entidades para dar aulas de gestão do terceiro setor
e nem ficam vermelhos quando em sala de aula enaltecem o trabalho
voluntário.
Hoje as
empresas socialmente responsáveis estão usando critérios
capitalistas para escolher projetos sociais, querem "investir",
querem "retorno", querem "alavancar". Por isso, adoram projetos
que ensinam a pescar, porque o "retorno sobre o investimento" é
elevado. Com esses critérios tipicamente neoliberais, nenhuma
empresa investe mais no velho, no tetraplégico, no cego,
porque "não compensa". Empresário só "investe"
em crianças, danem-se os doentes terminais. É o neoliberalismo
social sobrepujando o humanismo cristão.
Não
sou contra ensinar a pescar, quero deixar isso bem claro. Fui professor
por trinta anos, precisamos de ambas as posturas sem dúvida
alguma. Só que a maioria das entidades que fazem "mero assistencialismo"
também ensina a pescar como parte da recuperação,
mas isso os intelectuais nunca divulgam. O que me preocupa é
a enorme ênfase atual na primeira atitude em detrimento da
segunda.
Precisamos
reverter esse preconceito, precisamos dar valor àquelas entidades
que prestam assistência a órfãos, paraplégicos,
portadores de hanseníase, síndrome de Down, cegos,
doentes mentais, velhos, vítimas de estupro e abuso sexual.
Lamento dizer que boa parte de nossos problemas sociais não
é resolvida em sala de aula, por isso temos de manter o equilíbrio.
Se sua
empresa é uma dessas que fazem questão de não
dar o peixe e somente ensinam a pescar, repense sua posição.
Muita gente necessitada vai preferir o apoio e a mão amiga
de sua equipe a umas brilhantes aulas.
Stephen Kanitz é administrador
por Harvard
(www.kanitz.com.br)
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