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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
A vida sexual
no Estado Novo
Um mergulho (raso,
é verdade) nas
alcovas da hoje tão
relembrada era Vargas
Dezessete de abril de 1937. O presidente registra
em seu diário, lacônico e secreto: "Uma ocorrência
sentimental de transbordante surpresa e alegria". Getúlio
Vargas, quem diria, confessa-se fulminado por uma nova paixão.
Doze dias depois, ele volta ao assunto, menos contido: "Terminado
o expediente, saí à tardinha para um encontro longamente
desejado. Um homem no declínio da vida sente-se, num acontecimento
destes, como banhado por um raio de sol, despertando energias novas
e uma confiança maior para enfrentar o que está por
vir. Será que o destino, pela mão de Deus, não
me reservará um castigo pela ventura deste dia?".
São poucas linhas em que o caso permanece
obscuro, mas o homem revela-se. No declínio da vida? Dez
dias antes, ele completara 54 anos e já se sentia
escorregar inexoravelmente para os desvãos da decrepitude.
"Energias novas", "confiança maior" as expressões
traem o culto da força e da vontade do fascismo vitorioso.
Ao mesmo tempo, já a sombra da culpa se projetava: virá
o castigo? Pior ainda, o castigo viria "pela mão de Deus",
segundo não teve pejo de escrever, ele que era tido por ateu,
ou ao menos agnóstico.
Nas páginas seguintes do diário,
a destinatária de seus desvelos seria chamada de "a bem-amada".
"Fui ao encontro da bem-amada", registra, a 10 de outubro. Os acontecimentos
se precipitavam. O terrível ano de 1937 desembocaria, no
dia 10 de novembro, no golpe de Estado Novo. O dia 9 foi de preparativos
para o anúncio que seria feito no dia seguinte, suspendendo
a Constituição e inaugurando o regime ditatorial,
mas teve mais coisas: "Recebi ainda o embaixador do Uruguai e fui
ver a minha bem-amada".
A poeta Adalgisa Nery foi mulher primeiro
do pintor Ismael Nery e depois de Lourival Fontes, o homem do DIP,
o Departamento de Imprensa e Propaganda do Estado Novo, mas foi
musa de muitos outros. Em Poços de Caldas, onde a elite brasileira
inclusive Getúlio passava as férias,
Adalgisa, segundo o jornalista Luís Nassif, no livro O
Menino de São Benedito, "protagonizou alguns dos episódios
mais quentes das temporadas daqueles anos, em festas noturnas na
Fonte dos Amores, que até hoje despertam a imaginação
dos velhos moradores locais".
O diz-que-diz do período insinuava
que Getúlio tinha um caso com Adalgisa. Será? Segundo
outro jornalista, Flávio Tavares, no livro O Dia em que
Getúlio Matou Allende, um dia o irmão de Getúlio,
Benjamim, o "Bejo", foi alertá-lo sobre o boato de seus amores
com a poeta. Getúlio teria respondido: "Bobagem! Isso é
gabolice do Lourival! Ele é que espalha para se gabar!".
E tinha também Virgínia Lane.
Ah, as pernas de Virgínia Lane! Ah, as roupinhas justas,
marcando as formas generosas, tão anti-Gisele Bündchen,
de Virgínia Lane! Ela era a rainha do teatro de revistas,
e Getúlio, como todo mundo, adorava o teatro de revistas.
Vai daí que... Especificava-se até o lugar onde manteriam
seus colóquios amorosos: a casa da Gávea Pequena de
uso do prefeito do Rio. O que mais é lembrado dessa relação,
no entanto, é uma frase que Getúlio teria dito a Virgínia:
"Nós dois somos baixinhos, mas somos geniais".
Esta também está no livro de
Flávio Tavares. Num dia de 1942, o filho de Getúlio,
Lutero, flagrou a mulher, Ingeborg, uma alemã que conhecera
quando estudara na Europa, nos braços de... não de
um amante, mas supremo escândalo de uma
amante. Que fazer, para salvar a honra da boa e tradicional família
gaúcha? Estava-se em tempo de guerra. Podia-se dizer que...
Por que não? Inventou-se que Ingeborg era uma espiã,
e encontrou-se um jeito de deportá-la.
A história ficou muito melhor assim.
"Ser espiã era uma nódoa pública explicável",
escreve Tavares. "Ser lésbica, uma desonra familiar execrável
e sem explicação."
Voltemos à "bem-amada" do diário
de Getúlio. Quem seria ela? As especulações
recaem sobre Aimée Sotto Mayor Sá, mulher do chefe
de gabinete da Presidência, Luís Simões Lopes.
Note-se que o nome dela quer dizer "amada", em francês. O
romance durou até maio de 1938. Lê-se no diário,
entrada do dia 23: "Fui ver a bem-amada. O regresso, só,
causou desconfiança e uma crise doméstica". Pronto,
dona Darcy tinha descoberto tudo, é o que se conclui. No
dia 29, o desfecho: "...fui ver a bem-amada. Era uma despedida.
Almoçamos juntos e passamos uma tarde deliciosa, toda de
encanto, afastando a tristeza de separações. Regressei
quase à noite".
Fica-se a imaginar o que se passava na cabeça
do presidente, ao voltar ao palácio. Tinha sido bom enquanto
durou. Ele não veria mais a bem-amada, mas, por outro lado,
era de novo um homem reto, sem amantes.
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