Edição 1869 . 1° de setembro de 2004

Índice
Stephen Kanitz
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Autor-retrato
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
A vida sexual
no Estado Novo

Um mergulho (raso, é verdade) nas
alcovas
da hoje tão relembrada era Vargas

Dezessete de abril de 1937. O presidente registra em seu diário, lacônico e secreto: "Uma ocorrência sentimental de transbordante surpresa e alegria". Getúlio Vargas, quem diria, confessa-se fulminado por uma nova paixão. Doze dias depois, ele volta ao assunto, menos contido: "Terminado o expediente, saí à tardinha para um encontro longamente desejado. Um homem no declínio da vida sente-se, num acontecimento destes, como banhado por um raio de sol, despertando energias novas e uma confiança maior para enfrentar o que está por vir. Será que o destino, pela mão de Deus, não me reservará um castigo pela ventura deste dia?".

São poucas linhas em que o caso permanece obscuro, mas o homem revela-se. No declínio da vida? Dez dias antes, ele completara 54 anos – e já se sentia escorregar inexoravelmente para os desvãos da decrepitude. "Energias novas", "confiança maior" – as expressões traem o culto da força e da vontade do fascismo vitorioso. Ao mesmo tempo, já a sombra da culpa se projetava: virá o castigo? Pior ainda, o castigo viria "pela mão de Deus", segundo não teve pejo de escrever, ele que era tido por ateu, ou ao menos agnóstico.

Nas páginas seguintes do diário, a destinatária de seus desvelos seria chamada de "a bem-amada". "Fui ao encontro da bem-amada", registra, a 10 de outubro. Os acontecimentos se precipitavam. O terrível ano de 1937 desembocaria, no dia 10 de novembro, no golpe de Estado Novo. O dia 9 foi de preparativos para o anúncio que seria feito no dia seguinte, suspendendo a Constituição e inaugurando o regime ditatorial, mas teve mais coisas: "Recebi ainda o embaixador do Uruguai e fui ver a minha bem-amada".

A poeta Adalgisa Nery foi mulher primeiro do pintor Ismael Nery e depois de Lourival Fontes, o homem do DIP, o Departamento de Imprensa e Propaganda do Estado Novo, mas foi musa de muitos outros. Em Poços de Caldas, onde a elite brasileira – inclusive Getúlio – passava as férias, Adalgisa, segundo o jornalista Luís Nassif, no livro O Menino de São Benedito, "protagonizou alguns dos episódios mais quentes das temporadas daqueles anos, em festas noturnas na Fonte dos Amores, que até hoje despertam a imaginação dos velhos moradores locais".

O diz-que-diz do período insinuava que Getúlio tinha um caso com Adalgisa. Será? Segundo outro jornalista, Flávio Tavares, no livro O Dia em que Getúlio Matou Allende, um dia o irmão de Getúlio, Benjamim, o "Bejo", foi alertá-lo sobre o boato de seus amores com a poeta. Getúlio teria respondido: "Bobagem! Isso é gabolice do Lourival! Ele é que espalha para se gabar!".

E tinha também Virgínia Lane. Ah, as pernas de Virgínia Lane! Ah, as roupinhas justas, marcando as formas generosas, tão anti-Gisele Bündchen, de Virgínia Lane! Ela era a rainha do teatro de revistas, e Getúlio, como todo mundo, adorava o teatro de revistas. Vai daí que... Especificava-se até o lugar onde manteriam seus colóquios amorosos: a casa da Gávea Pequena de uso do prefeito do Rio. O que mais é lembrado dessa relação, no entanto, é uma frase que Getúlio teria dito a Virgínia: "Nós dois somos baixinhos, mas somos geniais".

Esta também está no livro de Flávio Tavares. Num dia de 1942, o filho de Getúlio, Lutero, flagrou a mulher, Ingeborg, uma alemã que conhecera quando estudara na Europa, nos braços de... não de um amante, mas – supremo escândalo – de uma amante. Que fazer, para salvar a honra da boa e tradicional família gaúcha? Estava-se em tempo de guerra. Podia-se dizer que... Por que não? Inventou-se que Ingeborg era uma espiã, e encontrou-se um jeito de deportá-la.

A história ficou muito melhor assim. "Ser espiã era uma nódoa pública explicável", escreve Tavares. "Ser lésbica, uma desonra familiar execrável e sem explicação."

Voltemos à "bem-amada" do diário de Getúlio. Quem seria ela? As especulações recaem sobre Aimée Sotto Mayor Sá, mulher do chefe de gabinete da Presidência, Luís Simões Lopes. Note-se que o nome dela quer dizer "amada", em francês. O romance durou até maio de 1938. Lê-se no diário, entrada do dia 23: "Fui ver a bem-amada. O regresso, só, causou desconfiança e uma crise doméstica". Pronto, dona Darcy tinha descoberto tudo, é o que se conclui. No dia 29, o desfecho: "...fui ver a bem-amada. Era uma despedida. Almoçamos juntos e passamos uma tarde deliciosa, toda de encanto, afastando a tristeza de separações. Regressei quase à noite".

Fica-se a imaginar o que se passava na cabeça do presidente, ao voltar ao palácio. Tinha sido bom enquanto durou. Ele não veria mais a bem-amada, mas, por outro lado, era de novo um homem reto, sem amantes.

 
 
 
 
topovoltar