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Cinema
Alerta laranja
Os
moradores de A Vila estão sob perigo.
E a
carreira de M. Night Shyamalan também

Isabela Boscov
Divulgação
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| Bryce, como a cega Ivy:
única grande revelação de um filme em que
tudo soa artificial |
É
a Pensilvânia tranqüila e rural de fins do século
XIX, e a aldeia não tem mais do que algumas dezenas de moradores.
Ainda assim, eles vivem em perpétuo estado de alerta laranja:
a floresta que delimita os contornos de seu vale próspero
e ordeiro é dominada por criaturas tão terríveis
que os habitantes de Covington nem mesmo conseguem dar um nome a
elas. Em seu linguajar arcaico e formal, referem-se a elas apenas
como "aqueles de quem não falamos". Covington vive uma trégua
delicada com essa ameaça sobrenatural. O preço para
evitar uma invasão é proibir terminantemente as incursões
pela floresta e, por extensão, o contato com o restante
da civilização. O jovem Lucius (Joaquin Phoenix) é
um dos que suportam esse isolamento com menor grau de estoicismo,
e parece provável que suas escapadas para a zona proibida
sejam a razão pela qual a trégua é quebrada,
com desdobramentos que se pretendem misteriosos e surpreendentes.
Pretendem-se, apenas, já que A Vila (The Village,
Estados Unidos, 2004), que estréia nesta sexta-feira no país,
é uma construção tão artificial, e fundada
numa idéia tão despropositada, que sua única
revelação de fato relevante além do
talento e da vivacidade da novata Bryce Dallas Howard, que faz a
cega Ivy é quanto a obsessão do diretor M.
Night Shyamalan por virar uma marca e um mito está pondo
a perder uma carreira que começou da forma mais auspiciosa
possível, com O Sexto Sentido.
Toda a
maciça publicidade de A Vila gira em torno do nome
de Shyamalan, como se seu elenco composto ainda de William
Hurt, Sigourney Weaver e Adrien Brody, entre vários outros
excelentes atores não tivesse a menor importância.
E, pela forma como o diretor o trata, não tem mesmo. Tudo
o que esse pessoal tem a fazer é se comportar como uma versão
de teatro amador dos amish de A Testemunha, falando com muitas
pausas e um vocabulário antiquado. Shyamalan empresta ainda
de A Bruxa de Blair, de Chapeuzinho Vermelho (até
no figurino cômico, de capa e capuz ocre, que os personagens
usam para se aproximar da floresta) e de fontes menos notórias,
mas muito eficazes, como o romance The Chrysalids, do inglês
John Wyndham. É uma colagem em que o nexo principal, o da
idéia, está ausente. Por mais que surja a tentação
de interpretar A Vila como uma alegoria do modo de vida americano
e da reação do país ao terrorismo, o filme
emite todos os sinais de que ela é só mais uma peça
da colagem, algo de que o diretor se aproveitou a posteriori. Tudo,
enfim, soma para o clima postiço e estéril de A
Vila. Não há nada de errado em fazer um filme
só para pregar alguns sustos na platéia e desafiá-la
a resolver uma charada. O que mata, aqui, é a desfaçatez
com que o diretor o traveste, e se traveste, de algo que ele não
é. Quanto mais o sucesso de Shyamalan sobe à sua cabeça,
mais seus filmes despencam ladeira abaixo.
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