Edição 1869 . 1° de setembro de 2004

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Cinema
Alerta laranja

Os moradores de A Vila estão sob perigo.
E a carreira de M. Night Shyamalan também


Isabela Boscov

 
Divulgação
Bryce, como a cega Ivy: única grande revelação de um filme em que tudo soa artificial


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É a Pensilvânia tranqüila e rural de fins do século XIX, e a aldeia não tem mais do que algumas dezenas de moradores. Ainda assim, eles vivem em perpétuo estado de alerta laranja: a floresta que delimita os contornos de seu vale próspero e ordeiro é dominada por criaturas tão terríveis que os habitantes de Covington nem mesmo conseguem dar um nome a elas. Em seu linguajar arcaico e formal, referem-se a elas apenas como "aqueles de quem não falamos". Covington vive uma trégua delicada com essa ameaça sobrenatural. O preço para evitar uma invasão é proibir terminantemente as incursões pela floresta – e, por extensão, o contato com o restante da civilização. O jovem Lucius (Joaquin Phoenix) é um dos que suportam esse isolamento com menor grau de estoicismo, e parece provável que suas escapadas para a zona proibida sejam a razão pela qual a trégua é quebrada, com desdobramentos que se pretendem misteriosos e surpreendentes. Pretendem-se, apenas, já que A Vila (The Village, Estados Unidos, 2004), que estréia nesta sexta-feira no país, é uma construção tão artificial, e fundada numa idéia tão despropositada, que sua única revelação de fato relevante – além do talento e da vivacidade da novata Bryce Dallas Howard, que faz a cega Ivy – é quanto a obsessão do diretor M. Night Shyamalan por virar uma marca e um mito está pondo a perder uma carreira que começou da forma mais auspiciosa possível, com O Sexto Sentido.

Toda a maciça publicidade de A Vila gira em torno do nome de Shyamalan, como se seu elenco – composto ainda de William Hurt, Sigourney Weaver e Adrien Brody, entre vários outros excelentes atores – não tivesse a menor importância. E, pela forma como o diretor o trata, não tem mesmo. Tudo o que esse pessoal tem a fazer é se comportar como uma versão de teatro amador dos amish de A Testemunha, falando com muitas pausas e um vocabulário antiquado. Shyamalan empresta ainda de A Bruxa de Blair, de Chapeuzinho Vermelho (até no figurino cômico, de capa e capuz ocre, que os personagens usam para se aproximar da floresta) e de fontes menos notórias, mas muito eficazes, como o romance The Chrysalids, do inglês John Wyndham. É uma colagem em que o nexo principal, o da idéia, está ausente. Por mais que surja a tentação de interpretar A Vila como uma alegoria do modo de vida americano e da reação do país ao terrorismo, o filme emite todos os sinais de que ela é só mais uma peça da colagem, algo de que o diretor se aproveitou a posteriori. Tudo, enfim, soma para o clima postiço e estéril de A Vila. Não há nada de errado em fazer um filme só para pregar alguns sustos na platéia e desafiá-la a resolver uma charada. O que mata, aqui, é a desfaçatez com que o diretor o traveste, e se traveste, de algo que ele não é. Quanto mais o sucesso de Shyamalan sobe à sua cabeça, mais seus filmes despencam ladeira abaixo.

 
 
 
 
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