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Música
Pernas pra que te quero
Com seu corpo
exuberante,
seu vozeirão e
um carisma a toda prova,
Ivete Sangalo é
um fenômeno de popularidade

Sérgio Martins
Roberto Setton
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CANTORA DAS MULTIDÕES
Ivete no alto de um trio elétrico: ela comprou
um avião para cumprir a rotina estafante de catorze shows
por mês, sempre com platéia cheia |
Nas últimas duas semanas, o vozeirão
de Ivete Sangalo ecoou diversas vezes nas Olimpíadas de Atenas.
Um de seus hits, Sorte Grande, tornou-se uma espécie
de hino da torcida brasileira, e a própria organização
dos Jogos se encarregou de tocá-lo nos intervalos de certas
disputas. Não é a primeira vez que algo desse tipo
acontece com a artista. Festa foi adotada pelos jogadores
da seleção brasileira em 2002, durante a conquista
da Copa do Mundo de futebol. No dia em que eles desembarcaram em
Brasília com a taça, lá estava a baiana para
recebê-los com a música, no alto de um trio elétrico
e à frente de uma multidão. De fato, tem sido assim
há algum tempo: aos 32 anos, Ivete Sangalo é, de longe,
a cantora mais popular entre os brasileiros quando eles querem comemorar
algum feito ou simplesmente cair na folia. Num mercado assolado
pela pirataria, as vendas de disco de Ivete são respeitáveis:
1,6 milhão de CDs em cinco anos de carreira-solo. Mas é
no palco que ela demonstra sua força. Seu cachê é
de 100.000 reais por apresentação,
e sua agenda se mantém lotada, com catorze shows por mês
em todo tipo de ambiente: das mansões de políticos
no Planalto ao Parque do Ibirapuera, em São Paulo, onde ela
reuniu uma platéia recorde de 200.000
pessoas no último dia 21. O sucesso de Ivete é um
autêntico fenômeno de massa, ancorado no carisma, na
voz potente, num alto-astral inabalável e numa presença
física exuberante. Embora tenha estreado no axé, e
ainda seja um grande nome nos carnavais de Salvador, ela conseguiu
ampliar o escopo de seu trabalho. "Seus shows são muito divertidos
e transmitem uma energia que eu acho que não se via desde
o início do rock brasileiro, na década de 80", diz
um de seus admiradores, o veterano cantor Lulu Santos. "Se tivesse
de rotulá-la, diria que ela é hoje nossa rainha pop."
Fotos Roberto Setton
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Setton
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TRABALHO E LAZER
A cantora no camarim (à esq.), distraindo-se
com o baralho durante um vôo e cedendo aos prazeres da
carne |
Ao contrário de uma artista como Marisa
Monte, que segura com mãos de ferro as rédeas da própria
carreira, Ivete Sangalo, do alto de seu sucesso, ainda delega boa
parte das decisões estratégicas importantes à
sua gravadora, a Universal. Mas isso não significa que não
tenha tino para cuidar de negócios. Assessorada pelo irmão
Jesus, ela amealhou em apenas cinco anos um patrimônio estimado
em 20 milhões de reais. Uma parcela do dinheiro está
investida em imóveis: uma fazenda no interior da Bahia, uma
grande casa em Salvador e um apartamento em Ipanema, no Rio de Janeiro.
Ela é dona de uma produtora, a Caco de Telha, que agencia
shows dela e de outros artistas, e de dois blocos carnavalescos,
o Cerveja & Cia. e o Coruja, que estão entre os mais
badalados do Carnaval baiano. Também é sócia
numa casa noturna orçada em 4 milhões de reais, que
deve ficar pronta no começo de 2005 em Salvador. Sua última
aquisição é um jatinho Citation I de segunda
mão, que custa em torno de 850.000
dólares. A aeronave está passando por algumas adaptações.
As cadeiras vão ser alargadas para acomodar melhor os irmãos
de Ivete, que estão sempre acima do peso, e uma cama será
instalada para que a cantora possa dormir durante as viagens. Nas
palavras de Ivete, o jatinho é um "facilitador" numa rotina
de fins de semana que costuma ser estafante. VEJA acompanhou a artista
num périplo no começo de agosto. Ele começou
numa sexta-feira em Taubaté, no interior de São Paulo.
De lá ela viajou, num avião alugado, para Cuiabá,
em Mato Grosso, onde se apresentou com um trio elétrico.
Em seguida houve uma participação no Domingão
do Faustão, da Rede Globo, e um show em Santos, no litoral
paulista. Todas as aparições de Ivete são cercadas
de alguma balbúrdia entre os fãs. Em Cuiabá,
foi preciso retardar a decolagem do avião por quase uma hora
porque houve invasão do hangar. Uma estóica Ivete
Sangalo manteve o bom humor. "Se assédio me incomodasse,
eu cantaria no banheiro", diz ela.
Fotos Roberto Setton
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FAMÍLIA
Ivete e o marido, o guitarrista Davi Moraes: eles planejam ter
um filho |
Ivete irradia simpatia mas também
tem língua afiada e uma boa dose de espírito competitivo.
As farpas aparecem de repente numa conversa com ela. "Wanessa Camargo
me disse outro dia que me vê pouco na balada. Mas nos dias
em que ela sai eu normalmente estou fazendo shows", diz a cantora,
sugerindo que a carreira da colega não anda assim tão
agitada. Ao falar dos cuidados com a voz, ela revela um segredo
da amiga Daniela Mercury: "Eu freqüento uma fonoaudióloga.
Recomendei a moça para todas as cantoras da Bahia, inclusive
para a Daniela, que é fumante". Se o assunto é o namoro
que o guitarrista Davi Moraes, seu marido, teve com Marisa Monte,
Ivete deixa transparecer uma pontinha de ciúme e dispara:
"Ele nem se lembra mais das músicas que tocou com ela".
Alta, despachada e de voz forte, Ivete já
foi alvo de fofocas dizendo que seria lésbica. "Quando eu
a encontrei pela primeira vez e ouvi aquela voz, pensei: 'Xiii,
essa moça é do babado'", diz Raimundo da Rocha Espinheira
Júnior, o Dito, que hoje é secretário pessoal
da cantora. Ivete não se irrita com o assunto, mas é
categórica: "Meu negócio é homem". Ela já
viveu com o percussionista Alexandre Lins, hoje diretor musical
de seus shows, e teve um namoro com o apresentador Luciano Huck.
O romance com Davi Moraes engatou há três anos, quando
eles descobriram que, além de atração física,
tinham alguns gostos e desgostos em comum. Os livros, por exemplo,
foram tema de um dos primeiros passeios do casal. "A gente tinha
dado uns beijos, mas ainda não estava nada certo. Então
eu perguntei para Davi: 'Você lê?'. Como ele titubeou,
fui logo dizendo: 'Eu não leio. Não vem com papo furado
de Clarice Lispector que não cola!' Aí ele confessou
que também não curtia ler", conta a cantora. A música,
obviamente, é uma paixão comum, mas Ivete acha que
o amado descuida da carreira. "Às vezes eu interrompo uns
amassos para chacoalhar o Davi e dizer que ele precisa divulgar
o trabalho dele."
Ivete nasceu em Juazeiro, a mesma cidade natal
do cantor João Gilberto. Começou a treinar o ouvido
na infância, com o pai seresteiro. Ainda menina, teve sua
primeira experiência como intérprete num programa infantil
da apresentadora Mara Maravilha. "Ganhei uma boneca e um ano de
picolé grátis numa sorveteria de Salvador. Fiquei
com o beiço duro de tanto chupar sorvete", diz ela, na mais
pura descontração ivetiana. A família começou
a ter problemas econômicos na época em que Ivete entrou
na adolescência. Seu pai morreu quando ela tinha 15 anos.
Um ano mais tarde, um de seus cinco irmãos morreu atropelado
e a mãe começou a sofrer de psicose maníaco-depressiva.
Para ajudar nas contas da casa, Ivete primeiro vendeu marmitas,
depois foi cantar em bares e, finalmente, entrou no circuito do
Carnaval em Salvador. Em 1992, foi contratada pela Banda Eva, uma
expoente da axé music. Lançado em 1997, o disco ao
vivo desse grupo está entre os mais vendidos da história
do mercado fonográfico no Brasil. No entanto, Ivete lucrou
muito pouco com o sucesso da Banda Eva. Não ganhava mais
do que 3.000 reais por show e vivia à
beira da estafa. Em 1999, finalmente partiu para a carreira-solo,
que hoje atinge o seu auge. A maior preocupação de
Ivete no momento é manter a forma física. Sua família
é de obesos e ela herdou problemas como refluxo gástrico,
além de viver em luta com a balança atualmente,
está um pouco acima do peso ideal. Para manter a forma e
tornear as pernas (que são sua marca registrada), ela faz
três horas diárias de ginástica na academia
que montou em casa. Evita doces e guloseimas, embora raramente resista
a um churrasco. Há indícios, porém, de que
pode sacrificar em breve a silhueta e as noites no palco por um
projeto diferente. Atualmente, Ivete Sangalo não pode ver
uma criança que se derrete toda. "Pensamos em aumentar a
família", afirma Davi Moraes.
Foto Roberto Setton
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