Edição 1869 . 1° de setembro de 2004

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Diogo Mainardi
Na sala com Gangan

"O traficante Gangan dá dinheiro aos pobres.
É a versão do Terceiro Comando para o Bolsa-Família, o Bolsa-Escola, a Farmácia Popular,
o Bilhete Único.
O assistencialismo rende votos
aos políticos e imunidade aos criminosos"



NA INTERNET
Arquivo de áudio, colunas anteriores e outras informações em www.veja.com.br/diogomainardi

Gangan e eu. Gangan é traficante. Um dos mais violentos do Rio de Janeiro, segundo o Disque-Denúncia. Controla os morros São Carlos e Querosene. Estou sempre ali, em seu território. É onde gravo, todas as semanas, o Manhattan Connection. Os meus colegas de programa ficam num estúdio em Nova York. Eu, heroicamente, na Rua Itapiru, em meio aos tiroteios.

Os tiroteios ocorrem porque Gangan está tentando tomar de Novinho a favela da Mineira, situada do outro lado da Rua Itapiru. Gangan é um dos chefes do Terceiro Comando. Novinho é afiliado ao Comando Vermelho. As duas facções estão em guerra permanente. Quando estourou a rebelião na cadeia de Benfica, alguns meses atrás, os bandidos do Comando Vermelho chegaram a jogar futebol com a cabeça decepada de um dos chefes do Terceiro Comando.

A favela da Mineira não é a única frente de batalha de Gangan. Ele está envolvido também na disputa pelo controle da Rocinha, em aliança com o traficante Bem-te-vi. Na Semana Santa, Gangan ajudou Bem-te-vi a resistir à tentativa de Dudu, do Comando Vermelho, de invadir a favela. Desde então, Dudu está desaparecido. A polícia desconfia que ele pode ter sido morto por Gangan. Um cadáver foi encontrado, na semana passada, na Rua Itapiru. Aplicaram-lhe a técnica do microondas. Ou seja, foi incinerado dentro de pneus, com as mãos amarradas. Um teste de DNA deverá revelar se o cadáver é ou não de Dudu.

Eu não encontro Gangan apenas na Rua Itapiru. Ele me acompanha em todos os lugares. É onipresente. Da janela de minha casa, vejo o Morro do Vidigal. Gangan tentou tomá-lo do Comando Vermelho na segunda semana de agosto. Agora, de acordo com a polícia, pretende atacar o Morro do Cantagalo, que fica aqui no meu bairro, a seis quadras de onde moro. Estou nas mãos de Gangan. Ele pode dispor da minha vida do jeito que quiser. Enfiou-me no microondas. Tem os pneus e os fósforos acesos.

Em março, 25 policiais subiram o Morro São Carlos para prender Gangan. Foram recebidos a bala. Outros 100 policiais repetiram a operação em junho. Em julho, foram sessenta. Em agosto, quarenta. Gangan conseguiu fugir em todas as ocasiões. Um delegado admitiu que ele tem informantes dentro da polícia. Gangan conta também com a cumplicidade dos moradores da favela. Dá dinheiro aos pobres, distribui remédios, obriga as companhias de ônibus a transportar de graça os passageiros até os bailes funk. É a versão do Terceiro Comando para o Bolsa-Família, a Farmácia Popular, o Bilhete Único. O assistencialismo rende votos aos políticos e imunidade aos criminosos.

Lula gasta milhões em propaganda para restaurar a auto-estima dos brasileiros. Como alguém pode ter auto-estima se está prestes a ser incinerado numa pilha de pneus? A auto-estima só será restaurada de uma maneira: diminuindo o medo de ser morto. O Brasil é o país dos 50.000 assassinatos por ano. Qualquer outra consideração é uma afronta.

 
 
 
 
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