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Entrevista: Erin
Brockovich
Eu nunca desisto
A americana cuja vida virou filme estrelado
por Julia Roberts diz que a atitude de cada
um faz diferença contra as injustiças

Rosana Zakabi
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Divulgação

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"Se uma pessoa ousa
dizer 'isso está errado', outras se sentem estimuladas
a seguir seu exemplo" |
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Nos anos 90, a americana Erin Brockovich trabalhava
num escritório de advocacia, como arquivista, quando se interessou
pelo caso de uma empresa de eletricidade cujos dejetos estavam contaminando
com substâncias tóxicas a água de uma pequena
cidade da Califórnia. Durante cinco anos, ela visitou diariamente
as famílias que viviam na cidadezinha, acompanhando os casos
de envenenamento e reunindo provas para abrir uma ação
judicial contra a companhia. Não desanimou até ganhar
a causa, no valor de 333 milhões de dólares
dos quais recebeu uma comissão de 2,5 milhões. Sua
extraordinária história de coragem e persistência
foi contada em 2000 no filme que leva seu nome e deu um Oscar a
Julia Roberts pelo papel-título. Até hoje Erin trabalha
na mesma firma, como diretora de pesquisas. Dá palestras
e presta consultoria sobre processos envolvendo resíduos
tóxicos. Ela formou-se em moda e design, já foi corretora
de seguros, vendedora numa loja de roupas masculinas e miss Costa
do Pacífico. Aos 43 anos, vive com o terceiro marido e três
filhos. Na semana passada, Erin concedeu a seguinte entrevista a
VEJA.
Veja A senhora acreditou
numa causa, lutou por ela até o fim e venceu. O que é
preciso para seguir seu exemplo?
Erin Brockovich A atitude de cada um de nós
faz toda a diferença e pode mover montanhas. Se uma pessoa
ousa dizer: "Isso está errado, e eu posso mudar essa situação",
outras se sentem estimuladas a seguir o mesmo caminho. Quando você
se dá conta, já criou um movimento poderoso. Muitas
vezes não temos consciência do tamanho de nossa capacidade.
Ela geralmente é muito maior do que imaginamos. Mas primeiro
precisamos aprender a gostar mais de nós mesmos e acreditar
que somos capazes de realizar qualquer coisa que tenhamos vontade.
Isso nos dá mais coragem e confiança para ousar e
fazer o que parece impossível. Se pensamos assim, mesmo em
caso de fracasso vamos tentar novamente até atingir nosso
objetivo.
Veja A senhora age com essa
determinação o tempo todo?
Erin Sim, o tempo todo. Hoje de manhã, por
exemplo, meu marido estava me deixando louca, o cachorro sujou o
chão, minha filha começou a me desafiar porque não
queria tomar café-da-manhã antes de ir para a escola,
o telefone não parava de tocar, eu tinha de conciliar minhas
reuniões com a consulta ao médico que estou adiando
há tempos. Então, antes de enlouquecer, fechei os
olhos, respirei fundo e pensei: "Vou começar tudo de novo
e vai dar tudo certo, porque sou capaz de realizar cada tarefa de
forma satisfatória". Isso me deixou mais tranqüila e
confiante. Tenho frustrações como qualquer pessoa
e também preciso me policiar para que elas não estraguem
meu dia.
Veja A senhora especializou-se
em ações contra empresas que contaminam o meio ambiente.
Em sua opinião, as grandes corporações são
inconseqüentes quanto à questão ambiental?
Erin A sociedade em geral tornou-se nos últimos
anos mais consciente em relação ao meio ambiente.
As pessoas começaram a perceber que, se não cuidarmos
dos recursos naturais, as conseqüências vão recair
sobre a saúde dos nossos filhos, dos nossos netos. A maioria
das grandes corporações está consciente disso.
Mas algumas, infelizmente, não estão preocupadas com
o dano que provocam ao meio ambiente. Poluem a água, o solo,
o ar e, dessa forma, contaminam as pessoas que vivem nas proximidades,
o que é muito grave. Muitos morrem devido aos problemas de
saúde causados pela contaminação, e essas empresas
não estão nem um pouco preocupadas com isso. Cinqüenta
moradores morreram vítimas da contaminação
depois que ganhamos a ação contra a PG&E, aquele
caso famoso que virou filme. Se nada tivesse sido feito, o número
de mortos teria sido bem maior.
Veja A senhora não
teve medo de enfrentar uma grande corporação?
Erin Não, porque havia uma força muito
maior que me movia naquele momento: a vontade de ajudar as pessoas
atingidas pela contaminação e o senso de justiça.
Quando descobri que a vida daqueles moradores estava em perigo e
que a culpa era de uma empresa de eletricidade, passei a desejar
que a justiça fosse feita. No início, todo mundo,
inclusive meu chefe no escritório de advocacia, achou que
eu estivesse louca pela simples idéia de querer mover a ação.
Aos poucos, devido à minha persistência, começaram
a acreditar que poderíamos vencer aquela batalha.
Veja O que a atraiu em especial
no caso da contaminação causada pela empresa de eletricidade?
Erin Os relatos das vítimas despertaram
minha atenção. Li sobre o caso e fiquei curiosa para
conhecê-las. Aos poucos, aquelas pessoas começaram
a se tornar parte de minha vida. Todos os dias eu ia até
a cidadezinha atingida pela contaminação e elas faziam
hambúrguer e cachorro-quente para mim. Ficaram minhas amigas,
tão próximas que algumas se tornaram parte de minha
família. Gostava delas. Comecei a encarar minha luta não
como um trabalho, e sim como algo que eu fazia pelas pessoas que
amava e queria bem. Eu me preocupo com o bem-estar das pessoas,
das famílias, das crianças. E todos nós estamos
no mesmo barco, respiramos o mesmo ar, compartilhamos os mesmos
recursos naturais. Meu grande desafio é fazer com que as
pessoas acreditem que vale a pena lutar pela saúde de sua
família.
Veja A senhora costuma dizer
que nunca estudaria direito. Mas, se fosse advogada, seu trabalho
não seria mais fácil?
Erin Eu costumava dizer que odiava advogados, mas
isso era uma brincadeira. Ocorre que meu trabalho é um pouco
diferente do deles. Gosto de estar na rua o tempo todo com as pessoas.
Gosto de abraçá-las, confortá-las, ouvir seus
desabafos, dar conselhos, fazer parte da vida delas. Quando você
se torna advogado, perde essa disponibilidade. Então, acho
que faço um trabalho melhor sendo apenas o que sou.
Veja Em algum momento a senhora
se sentiu discriminada pelo fato de ser mulher?
Erin Em geral, sou bem-aceita em meu trabalho,
independentemente de ser mulher ou não. Mas devo admitir
que algumas vezes sinto que minha capacidade é colocada em
jogo justamente pelo fato de eu ser mulher, o que é um absurdo.
Ainda há muito preconceito contra as mulheres, até
porque existem mais homens ocupando cargos altos nas empresas. Muita
gente pode até duvidar de minha capacidade pelo fato de eu
ser mulher, mas nunca me preocupei com isso e nunca deixei de correr
atrás dos meus sonhos e atingir meus objetivos.
Veja A senhora é uma
mulher bonita. Isso ajuda ou atrapalha no trabalho?
Erin Não me acho tão bonita assim,
mas sei que chamo atenção pelo fato de ser loira,
alta, determinada. Por causa disso, as pessoas que acabo de conhecer
geralmente ficam com uma boa impressão, e isso é muito
positivo.
Veja É verdade que,
depois que a senhora ganhou o caso contra a PG&E, seu primeiro
marido, Shawn Brown, e seu ex-namorado, George, tentaram extorqui-la?
Erin Sim. Um belo dia, os dois me procuraram com
um advogado contratado por eles dizendo que, se eu não lhes
pagasse 310 000 dólares, inventariam à imprensa que
eu era uma péssima mãe e que tinha um caso com meu
chefe. Eu e ele denunciamos a tentativa de extorsão à
polícia e George e Shawn foram presos em flagrante. Eles
saíram da prisão após pagar 50 000 dólares
de fiança. Fiquei arrasada com aquela situação
e tive vontade de nunca tê-los conhecido na vida. Mas passou.
Com o tempo, tudo passa.
Veja A senhora conseguiu
perdoá-los?
Erin Hoje meu primeiro marido e eu somos amigos,
até porque temos dois filhos e precisamos conversar sobre
eles com freqüência. Todo mundo comete erros, e a gente
pode escolher entre ficar morrendo de raiva e nunca mais falar com
quem cometeu o erro ou aprender a lidar com a situação
e relevar mágoas passadas. Em relação a meu
ex-marido, preferi a segunda opção.
Veja O filme sobre sua vida
a retratou de forma correta?
Erin Eu realmente sou daquele jeito. O fato é
que nós nunca temos nada a perder na vida quando decidimos
ajudar os outros e fazê-los sentir-se bem. No caso mostrado
no filme, assim como em todos os outros a que me dediquei posteriormente,
sempre pensei da seguinte forma: não tenho nada a perder,
e tudo a ganhar. O filme mostrou isso de forma correta.
Veja O que a senhora achou
da atuação de Julia Roberts no papel de Erin Brockovich?
Erin Devo admitir que foi uma interpretação
excelente. No início, não aceitava muito bem, achava
a situação estranha. A primeira vez que assisti ao
filme estava com meu marido, meu chefe Ed Masry e a mulher dele.
Eu e Ed ficamos contando quantas vezes o filme fazia referência
à empresa de eletricidade, a PG&E. Prestei atenção
no personagem do Ed (interpretado pelo ator Albert Finney). Ed prestou
atenção na atuação de Julia Roberts.
Depois, outros advogados assistiram ao filme, meus pais, meus amigos.
E todos eles vieram me dizer que Julia Roberts havia feito um trabalho
perfeito. Eles caíram na gargalhada no cinema, dizendo: "Oh,
meu Deus, a Erin faria isso, mesmo" ou "A Erin faz isso o tempo
todo". Então, assisti ao filme novamente, dessa vez prestando
atenção especial na interpretação de
Julia Roberts. E consegui me enxergar no filme, eu me emocionei.
Veja A senhora conhece Julia
Roberts pessoalmente?
Erin Encontramo-nos várias vezes durante as
filmagens e nas cerimônias de entrega de prêmios que
o filme ganhou. Mas mal nos conhecemos, não somos amigas.
Mesmo assim, temos respeito e admiração uma pela outra.
Veja O filme teve alguma
influência em seu trabalho?
Erin Muitas pessoas começaram a me respeitar
mais porque elas entenderam o que eu fazia. Meus funcionários
passaram a me ver com outros olhos depois do filme. Eles compreenderam
que naquela época eu realmente estava trabalhando duro para
obter bons resultados.
Veja A senhora é reconhecida
nas ruas?
Erin Algumas pessoas me reconhecem, mas a maioria
não. Já chegaram a estranhar, no caixa do supermercado,
quando fui pagar a conta com o cartão de crédito,
que eu tivesse o mesmo nome do filme da Julia Roberts.
Veja Como a senhora concilia
carreira e filhos?
Erin Não é nada fácil. Hoje,
meus filhos já são crescidos. Matthew tem 21 anos,
Katie, quase 20, e Elizabeth, que era um bebê na época
do processo contra a firma de eletricidade, já está
com 13. Se você me tivesse feito essa pergunta há dez
anos, eu provavelmente diria: é um martírio conciliar
carreira e crianças. Quando são muito novos, os filhos
querem exclusividade 24 horas e não entendem que você
não pode estar o tempo todo com eles. Então, quando
você chega à noite em casa, eles estão tristes,
e você acaba ficando triste por eles. Era mais difícil
ainda porque me separei cedo de meu primeiro marido, e as crianças
não entendiam e não aceitavam. Mas, conforme meus
filhos começaram a crescer e se tornar mais maduros, eles
passaram a entender que a mãe deles trabalha fora porque
precisa, e não porque não se importa com eles.
Veja Em sua autobiografia,
Podem Acreditar em Mim, a senhora conta que seus filhos mais
velhos se envolveram com drogas e que gastou 250 000 dólares
em clínicas de reabilitação. Como superou esse
drama?
Erin Isso ainda está presente em nossa
vida, o processo de recuperação é muito difícil
e não é fácil evitar as recaídas, mas
a diferença é que hoje meus filhos são capazes
de conversar sobre o assunto comigo, o que não ocorria no
passado. Quando descobri que eles estavam envolvidos com drogas,
achei que não iria agüentar. Na época, procurei
vários psiquiatras e psicólogos em busca de uma solução
e achei que o melhor a fazer seria interná-los e afastá-los
do grupo de amigos que consumiam entorpecentes. Meu filho Matthew
recuperou-se de forma extraordinária, mas minha filha Katie
ainda me preocupa porque, aos 19 anos, como a maioria dos adolescentes,
ela pensa que nunca vai morrer, o que é uma ilusão.
Veja De onde a senhora tira
tanta valentia?
Erin De certa forma, foi o fato de sofrer de dislexia
que me tornou persistente para conseguir as coisas. Na escola, eu
tinha de me esforçar duas vezes mais que os colegas para
obter os mesmos resultados. Com o tempo, comecei a pensar da seguinte
forma: se uma porta se fecha, uma janela se abre. Ou seja, se não
consigo obter aquilo de que preciso agindo da forma como todo mundo
age, por ser disléxica, tenho de descobrir outras formas
de conseguir os mesmos resultados, ou até resultados melhores.
Veja A senhora é feliz?
Erin Sim, e certamente sou mais feliz hoje que
há dez anos. Porque todos os dias procuro aprender com meus
erros e acertos, adquirir mais experiência de vida. E, quanto
mais sabedoria eu tenho, mais confiança eu ganho. E, quanto
mais confiante, mais feliz me sinto.
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