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| André
Petry
Baixem a bola
"A
conquista de uma medalha olímpica,
ao contrário do que os locutores fazem
parecer, não é um misto de grito e sorte.
É mais que isso"
É
quase da natureza dos locutores e comentaristas encarar disputas
esportivas como se fossem duelos em que estão em jogo a vida
e a morte. As televisões, talvez pela facilidade com que
seu som e imagem podem mexer com os sentimentos, têm um irrefreável
pendor para explorar a emoção onde quer que ela aconteça
na tragédia, na vitória, na derrota, na glória.
Nas transmissões das Olimpíadas de Atenas, porém,
apareceram alguns sinais de que talvez as emissoras brasileiras
estejam começando a perceber seus exageros de vibração,
que oscilam entre o entusiasmo pueril e o ufanismo às tontas.
O sinal mais conhecido veio da gaúcha Daiane dos Santos,
logo depois de ficar em quinto lugar na ginástica de solo.
Com sua maturidade esportiva, Daiane disse que errou e errar
acontece. Não culpou a ordem de apresentação,
os juízes, as cirurgias, o patrocínio. Culpou a si
própria com a naturalidade de uma menina falível.
Para a TV, a simplicidade das palavras de Daiane são como
o estrondo de um raio. Ela tratava a ginasta como a personificação
de "uma medalha de ouro inédita". Daiane não era.
No esporte, como em qualquer aspecto da vida, erra-se.
Uma cena
mais constrangedora aconteceu durante entrevista com o atleta Torben
Grael, quando se preparava para uma regata na qual poderia obter
a medalha de ouro por antecipação. A emissora já
festejava a medalha de ouro que acabaria mesmo no peito de
Torben Grael , mas o próprio atleta lembrou com humildade
que ainda havia uma prova pela frente. Na entrevista, pediu que
não o pressionassem tanto e fez questão de mencionar
especificamente "a pressão da mídia". É chato
quando um entrevistado tem de dizer ao entrevistador como deve se
comportar. E o que dizer das semifinais do vôlei feminino?
Com 2 sets a 1, as meninas do Brasil disputavam o quarto set na
partida com a Rússia, estavam com uma bela vantagem no placar,
24 a 19, e faltava 1 ponto para ganhar a partida e ir à final.
Um narrador de televisão esqueceu-se desse detalhe. Começou
a vibrar, a comemorar a prata que se garantia com aquela vitória
e já celebrava a possibilidade do ouro na final fosse
com quem fosse, pois, afinal, somos imbatíveis. Esqueceu-se
o locutor de que a equipe brasileira tinha ainda de marcar 1 ponto.
E não marcou. E deu Rússia.
Por que
Daiane dos Santos e Torben Grael têm de mostrar às
emissoras de televisão do país que suas transmissões
esportivas podem ser empolgantes, mas não precisam alçar-se
ao exagero de ignorar a realidade? Por que um locutor dá
por encerrada uma partida, e conquistada uma vitória, quando
o jogo ainda não acabou? A conquista de uma medalha olímpica,
ao contrário do que as televisões fazem parecer, não
é apenas um misto de grito e sorte. É mais que isso.
Não é por acaso que o locutor Galvão Bueno
é a estrela esportiva da Globo. Alvo de críticas e
elogios apaixonados, Galvão Bueno é um profissional
completo: tem voz e dicção, imprime altíssima
rotatividade emotiva em suas narrações, conhece o
riscado e tem boa cultura geral para pronunciar com desenvoltura
nomes de atletas estrangeiros e, melhor que tudo, nunca terminou
um jogo antes do fim. Nem quando o vôlei masculino conquistou
diante dos Estados Unidos o direito de disputar a medalha de ouro
contra a Itália.
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