Edição 1869 . 1° de setembro de 2004

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Baixem a bola

"A conquista de uma medalha olímpica,
ao contrário do que os locutores fazem
parecer, não é um misto de grito e sorte.
É mais que isso"

É quase da natureza dos locutores e comentaristas encarar disputas esportivas como se fossem duelos em que estão em jogo a vida e a morte. As televisões, talvez pela facilidade com que seu som e imagem podem mexer com os sentimentos, têm um irrefreável pendor para explorar a emoção onde quer que ela aconteça – na tragédia, na vitória, na derrota, na glória. Nas transmissões das Olimpíadas de Atenas, porém, apareceram alguns sinais de que talvez as emissoras brasileiras estejam começando a perceber seus exageros de vibração, que oscilam entre o entusiasmo pueril e o ufanismo às tontas. O sinal mais conhecido veio da gaúcha Daiane dos Santos, logo depois de ficar em quinto lugar na ginástica de solo. Com sua maturidade esportiva, Daiane disse que errou – e errar acontece. Não culpou a ordem de apresentação, os juízes, as cirurgias, o patrocínio. Culpou a si própria com a naturalidade de uma menina falível. Para a TV, a simplicidade das palavras de Daiane são como o estrondo de um raio. Ela tratava a ginasta como a personificação de "uma medalha de ouro inédita". Daiane não era. No esporte, como em qualquer aspecto da vida, erra-se.

Uma cena mais constrangedora aconteceu durante entrevista com o atleta Torben Grael, quando se preparava para uma regata na qual poderia obter a medalha de ouro por antecipação. A emissora já festejava a medalha de ouro – que acabaria mesmo no peito de Torben Grael –, mas o próprio atleta lembrou com humildade que ainda havia uma prova pela frente. Na entrevista, pediu que não o pressionassem tanto e fez questão de mencionar especificamente "a pressão da mídia". É chato quando um entrevistado tem de dizer ao entrevistador como deve se comportar. E o que dizer das semifinais do vôlei feminino? Com 2 sets a 1, as meninas do Brasil disputavam o quarto set na partida com a Rússia, estavam com uma bela vantagem no placar, 24 a 19, e faltava 1 ponto para ganhar a partida e ir à final. Um narrador de televisão esqueceu-se desse detalhe. Começou a vibrar, a comemorar a prata que se garantia com aquela vitória e já celebrava a possibilidade do ouro na final – fosse com quem fosse, pois, afinal, somos imbatíveis. Esqueceu-se o locutor de que a equipe brasileira tinha ainda de marcar 1 ponto. E não marcou. E deu Rússia.

Por que Daiane dos Santos e Torben Grael têm de mostrar às emissoras de televisão do país que suas transmissões esportivas podem ser empolgantes, mas não precisam alçar-se ao exagero de ignorar a realidade? Por que um locutor dá por encerrada uma partida, e conquistada uma vitória, quando o jogo ainda não acabou? A conquista de uma medalha olímpica, ao contrário do que as televisões fazem parecer, não é apenas um misto de grito e sorte. É mais que isso. Não é por acaso que o locutor Galvão Bueno é a estrela esportiva da Globo. Alvo de críticas e elogios apaixonados, Galvão Bueno é um profissional completo: tem voz e dicção, imprime altíssima rotatividade emotiva em suas narrações, conhece o riscado e tem boa cultura geral para pronunciar com desenvoltura nomes de atletas estrangeiros – e, melhor que tudo, nunca terminou um jogo antes do fim. Nem quando o vôlei masculino conquistou diante dos Estados Unidos o direito de disputar a medalha de ouro contra a Itália.

 
 
 
 
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