No Pan-Americano,
mais uma vez
Cuba deu um show em deserções
Ronaldo França
Al Bello/Getty Images
Rigondeaux: fuga
antes da medalha e um futuro milionário na Alemanha,
onde a academia já o anuncia como grande sensação
O desempenho da equipe
cubana presente aos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro
ficou acima do esperado na modalidade "deserção".
Nos Jogos de Winnipeg, em 1999, treze atletas escaparam, mas
nenhum deles tinha a importância do boxeador Guillermo
Rigondeaux Ortiz, bicampeão olímpico e mundial.
Estrela internacional, ele era, até cair fora, motivo
de orgulho do regime ditatorial de Fidel Castro. Rigo, como
é chamado em seu país, foi um dos quatro cubanos
que fugiram no Rio, logo nos primeiros dias dos Jogos. Os
outros três foram o também boxeador Erislandy
Lara, campeão mundial dos meios-médios, o jogador
de handebol Rafael Capote e o técnico de ginástica
artística Lázaro Lamelas. Aos 26 anos, invicto
há 104 lutas, Rigondeaux era o que se pode considerar
uma celebridade em Havana. Como todos os atletas de alto nível,
desfrutava "regalias" em meio à penúria em que
todos os cubanos são forçados a viver. Tinha
direito a um carro e uma cota de gasolina acima dos 25 litros
mensais (quantidade insuficiente, note-se, para viajar entre
Rio e São Paulo até no mais econômico
dos automóveis). Além disso, dispunha de telefone,
um emprego na burocracia estatal e uma cesta de alimentos
que incluía leite, carnes e frutas. Para os padrões
cubanos, Rigondeaux levava um vidão.
Ao pular fora da
equipe, ao fim da primeira semana dos Jogos, ele sumiu de
vista. A primeira notícia de seu paradeiro surgiu na
quinta-feira, quando a academia Arena Box Promotion, de Hamburgo,
na Alemanha, estampou sua foto no site, para anunciar que
ele e seu colega de fuga são seus mais novos atletas.
"Teremos muito orgulho em recebê-los. Rigondeaux vai
disputar pelo menos doze lutas por nossa academia e ganhará,
em cada uma delas, muitos milhões de dólares",
afirma o dono da academia Arena, o ex-boxeador alemão
Ahmet Öner, em férias em Palma de Maiorca, na
Espanha. Öner admitiu a VEJA que financiou toda a operação
de fuga dos atletas cubanos, o que incluiu a contratação
de advogados – entre eles, claro, um cubano residente em Miami,
chamado Tony Gonzalez. Öner afirma que pagou 800 000
dólares a Rigondeaux e aos encarregados da operação,
valor que não inclui as despesas com aluguel de avião
e todo o aparato necessário para ludibriar as autoridades
cubanas e brasileiras.
Juventud Rebelde/AP
Reprodução
TV
Capote: hasta la vista, Fidel
Já abalados por um desempenho abaixo do esperado no quadro de medalhas, os dirigentes ficaram ainda mais estressados com as deserções. Fidel Castro espumou de raiva. O ditador emitiu uma nota oficial em que chamou os fujões de "traidores". Öner já havia levado outras três estrelas do boxe cubano, no fim do ano passado, durante um torneio na Venezuela. Entre eles, o peso pesado Odlanier Solís, considerado o sucessor dos lendários boxeadores Teófilo Stevenson e Félix Savón. Desde o fim da União Soviética, em 1991, quando o governo cubano perdeu a principal fonte de financiamento, as deserções de atletas se intensificaram. Pelo menos oitenta deles escaparam, a maioria durante competições internacionais. A fim de evitar as fugas, os agentes de segurança cubanos mantêm uma vigilância cerrada sobre os atletas. Na Vila Olímpica montada no Rio de Janeiro, a liberdade dos atletas cubanos era apenas aparente. Para conseguir escapar, o jogador de handebol Rafael Capote teve de margear os limites da vila até encontrar uma brecha de meio metro entre dois muros. Ele fugiu correndo por mais de uma hora, para depois tomar um táxi para São Paulo.
Entre uma fuga e outra, a delegação cubana no Pan-Americano liberou o seu espírito capitalista. É comum entre atletas que participam de eventos internacionais a troca de uniformes e a venda de um e outro produto, para reforçar o orçamento apertado de estudante. Mas os cubanos se destacaram pela avidez com que se entregaram a esse comércio. Sua principal mercadoria eram os charutos. Eles preferiam receber o pagamento em dinheiro, mas aceitavam alegremente o escambo quando se tratava de equipamentos eletrônicos. No Rio, o que esteve em alta foram os aparelhos de DVD portáteis. Outro objeto do desejo cubano eram os perfumes, de qualquer marca. E aí valia frasco aberto, mesmo que usado e quase no final. O produto é raro e caro na ilha, onde não se encontra nada que não seja o básico. Os cubanos também aproveitaram para tirar a barriga da miséria. "Em vez de tranqüilidade, os dirigentes cubanos priorizaram a proximidade do restaurante na hora de escolher os apartamentos em que iriam ficar na vila. Os atletas entravam e saíam o tempo todo do restaurante", disse a VEJA um veterano de competições olímpicas envolvido na organização.
A penúria cubana é velha conhecida, mas há episódios que chegam às raias do absurdo. Graças a suas vitórias olímpicas, o corredor Alberto Juantorena ganhou um carro de presente de Fidel Castro. Oito anos depois, contudo, ele não conseguia trocar os pneus do automóvel. Eram artigos inexistentes na ilha. Durante uma turnê internacional, Juantorena aproveitou para comprar o jogo de que precisava no Japão. Ele contrabandeou os pneus para casa nas próprias malas e na bagagem de amigos. Com histórias assim, de fugas e aviltamento dos direitos individuais, a ditadura cubana segue derrapando, cada vez mais desgastada e careca.