"Com politicalhões
assim, corremos o risco de ficar numa situação
parecida com a condição a que o nazismo relegou
suas vítimas: não eram consideradas seres humanos,
apenas futuros cadáveres"
Tudo já
indicava que estamos cada vez mais distantes da política
e mais próximos da politicalha, mas a tragédia
de Congonhas jogou uma luz intensa sobre essa deformação
nacional. A politiquice pós-tragédia dividiu
Brasília em dois bandos. Os politiqueiros do governo
torcem para que a principal explicação do desastre
seja um defeito no avião ou erro do piloto, aliviando
a barra governista. Os politiquetes da oposição
fazem figa para que a pista de Congonhas seja a grande culpada,
o que compromete o governo. Como as investigações
iniciais sugerem que o problema principal ocorreu na cabine
do avião, e não na pista do aeroporto, politiquinhos
governistas talvez se sintam autorizados a voltar a brincar
de top, top, top.
Essa versão
amesquinhada da política não é exclusividade
brasileira, mas nas democracias mais maduras os politicastros
ao menos se empenham em esconder seus impulsos. Aqui, as coisas
estão mais debochadas. É impressionante a incapacidade
dos nossos politicantes de fazer a política grande,
nobre, a política que, apesar de todas as divergências,
leva em conta que, afinal, vivemos todos juntos. Mas nossos
politicóides são indiferentes a esse projeto
de bem comum. Vulgarizaram-se tanto que se apartaram do sentimento
do brasileiro médio, que se espantou de verdade, se
chocou de verdade com o avião explodindo, se solidarizou
de verdade com o drama das famílias. O senhor Marco
Aurélio "Top, Top, Top" Garcia é exemplo dessa
alienação. Filmado, como ele diz, de "forma
clandestina", Garcia mostrou preocupar-se menos com a comoção
nacional e mais com o impacto eleitoral da tragédia.
Coisa de politiquilho.
Com o mesmo alheamento,
o presidente Lula sumiu por três dias depois do maior
acidente aéreo do país, tal como fazem os oposicionistas
na hora em que são postos à prova. José
Serra desapareceu quando o PCC colocou São Paulo de
joelhos. Agora, como Congonhas não é obra sua,
Serra aparece em Congonhas. E Lula, como Congonhas é
obra sua, some de Congonhas, some de Porto Alegre e cancela
visitas a toda a Região Sul do país, exatamente
para onde deveria viajar se vencesse a covardia da politicagem,
se deixasse de fazer politicócoras.
Com politicalhões
assim, corremos o risco de ficar numa situação
algo parecida com a condição a que o nazismo
relegou suas vítimas, conforme a formulação
de Hannah Arendt: não eram consideradas seres humanos,
apenas futuros cadáveres.
Basta de politicoveiros.
Precisamos de políticos.
O EXEMPLO DE
OSCAR
Na transmissão
do jogo de basquete entre Brasil e Canadá, Oscar Schmidt,
o maior cestinha brasileiro, pediu publicamente desculpas
pelas vaias que organizou nas provas de ginástica do
Pan. Como na coluna da edição passada este autor
criticou o comportamento do ex-atleta, vão aqui, agora,
os cumprimentos a Oscar por sua humildade e sua capacidade
de admitir um erro e corrigi-lo. Com seu pedido de desculpas,
Oscar dá bom exemplo à sua legião de
fãs.