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Passamos em julho por mais uma temporada de pânico, com previsões
de escalada do dólar e caos na economia. Economistas que em janeiro
previam um dólar de 1,90 para o fim do ano agora prevêem
uma cotação de 2,40, 2,50 e 2,60, sem mostrar o menor rubor
no rosto ao ser entrevistados.
Muita gente pergunta qual é minha estimativa do dólar para o fim do ano, esquecendo que sou administrador e não economista. Minha resposta é que teremos um dólar entre 2,10 e 2,90, uma previsão que me dizem não servir para nada.
Os administradores possuem uma visão de mundo diferente da dos economistas: nós não acreditamos que o mundo atual seja previsível, pois ele está cada vez mais complexo, sofrendo mudanças cada vez mais rápidas e com pessoas cada vez mais livres para tomar decisões cada vez mais imprevisíveis.
Embora nossas previsões possam parecer inúteis, elas exigem posturas e comportamentos diferentes daqueles a que estamos acostumados. Por exemplo, por essa visão de mundo, a especulação é duramente combatida, bem como previsões confiantes, que no fundo induzem empresas e banqueiros à especulação pela falsa ilusão que fornecem de ganho rápido e certeiro.
Escolher um bom economista é o primeiro passo para todo especulador; já escolher um bom administrador não faz a menor diferença, porque nossas previsões são sempre inúteis. Como especular com uma previsão de dólar "entre 2,10 e 2,90"?
Na medida do possível, sempre recomendamos às empresas uma auto-sustentação cambial. Se você exporta, contrate uma dívida externa no valor de suas exportações. Se você é uma multinacional, com dividendos a enviar regularmente para a matriz, exporte produtos no mesmo valor dos dividendos.
Aí, sua empresa não dependerá de previsões nem mesmo da cotação do dólar, porque as taxas de câmbio das exportações e as despesas financeiras se anulam. Numa queda do dólar, o que você perder nas exportações ganhará na remessa dos juros. Numa alta do dólar, o que você perder na remessa de dividendos recuperará nas exportações.
Num mundo cada vez mais imprevisível, é temerário achar que os bancos centrais conseguirão controlar taxas de câmbio dentro de "limites razoáveis", e mais absurdo ainda é estabilizar o câmbio elevando os juros, como se fez agora, a ponto de desestabilizar a própria economia. Tampouco faz sentido confiar nas "blindagens financeiras" do FMI, hoje pequenas demais para defender esse mundo globalizado. Mais seguro é implantar uma blindagem operacional na própria companhia.
As empresas que fizeram isso estão tranqüilas, qualquer que venha a ser a taxa de câmbio, qualquer que venha a ser o futuro presidente da República. Elas não estão desesperadas comprando dólares.
Num mundo moderno já não é mais factível e aceitável que governos supram com dólares fartos e baratos as multinacionais e os banqueiros internacionais. As empresas que providenciem suas próprias rotas de saída gerando as exportações necessárias para as remessas de divisas.
Setores como os de energia e telefonia, que não exportam, jamais deveriam ter sido vendidos a multinacionais, pelo menos não neste estágio ainda frágil da nossa economia. Sugam divisas para dividendos sem gerar as devidas exportações.
Especuladores e investidores, dentro do espírito neoliberal, que tratem de providenciar suas próprias rotas de saída, em vez de apostar em intervenções econômicas pontuais do Estado para corrigir as "distorções" de mercado.
Não é a Argentina nem a candidatura de Lula ou a de Ciro Gomes que estão desestabilizando a taxa de câmbio, como afirmam alguns especialistas. São as empresas que apostam em previsões equivocadas e agora correm em pânico em busca de proteção.
Stephen
Kanitz é administrador (www.kanitz.com.br)
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