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Roberto
Pompeu de Toledo
A
eutanásia em discussão
Na
Europa, claro.
Pois, no
Brasil,
a
conclusão melancólica
é
que o
tema não deve sequer
ser suscitado
O
médico Bernard Kouchner, ministro da Saúde da França,
é das pessoas mais respeitadas do país. Com certeza é
a mais respeitada do governo, dona de autoridade moral construída
ao longo de uma vida de dedicação aos doentes, feridos e
carentes. Kouchner foi um dos fundadores, em 1971, da organização
Médicos sem Fronteiras, contemplada, em 1999, com o Prêmio
Nobel da Paz. Como médico sem fronteira, esteve nos lugares onde
menos valia a pena estar, e nos momentos em que menos valia a pena se
deslocar até eles Vietnã, Camboja, Biafra, Líbano,
El Salvador, Honduras. Quer dizer: menos valia a pena para uma pessoa
comum. Para ele, como pessoa incomum, só valiam a pena esses lugares,
e só em ocasiões em que estivessem assolados por guerras,
fomes ou pestes.
Na semana passada, Kouchner reavivou uma polêmica ao revelar, numa
entrevista publicada pela revista holandesa Vrij Nederland, que
"muitas vezes" praticou a eutanásia, nos anos 70, à época
em que assistia vítimas de guerra no Vietnã e no Líbano.
"Quando as pessoas sofriam muito e eu sabia que iam morrer, eu as ajudava",
disse. Kouchner dava-lhes injeção de morfina, "muita morfina".
"São pessoas das quais me lembro muito bem", acrescentou. "Todos
os médicos do mundo conhecem esse tipo de pessoa." Eutanásia
é essa a palavra? Kouchner não admite que se chame
de eutanásia aquilo que praticou. "Tratava-se de cuidados paliativos
em período de guerra e de forma alguma de práticas programadas,
do tipo reivindicado por associações em favor 'do direito
de morrer com dignidade'", diz ele. Os pacientes de que fala não
eram doentes de câncer ou Aids que pedissem para morrer. Sobre esses
casos, o médico francês se diz aberto à discussão.
Ele convida a um debate e um debate "sem arrogância, sem
certezas nem posições ideológicas".
A diferença entre os "cuidados paliativos" de que fala Kouchner
e a eutanásia é sutil. Deve-se possivelmente à sua
própria experiência de médico de guerra. Ele não
enfrentava doentes num hospital de país desenvolvido, com tempo
para pensar, avaliar o caso sob todos os ângulos, conferenciar com
os parentes, além de com o próprio paciente, e marcar dia
e hora para o desenlace, como já vinha acontecendo havia algum
tempo na Holanda, de forma informal, e ultimamente ganhou amparo legal.
Seus casos eram de um desespero urgente. Ocorriam nas circunstâncias
mais adversas, nos locais mais precários. De toda forma, as declarações
de Kouchner tendem a relançar na França um debate que há
três anos esteve na ordem do dia, por força das aventuras
e desventuras de Christine Malèvre jovem enfermeira que
admitiu ter abreviado a vida de cerca de trinta pacientes do hospital
onde trabalhava, em Mantes-la-Jolie, nos arredores de Paris. Christine
Malèvre, que está na iminência de ter seu caso apreciado
na Justiça, agiu de forma arbitrária e insensata, talvez
criminosa, não se duvida, ao atribuir-se a decisão de encaminhar
os pacientes à morte. Mas o fez por compaixão. Por isso,
ganhou a compreensão da opinião pública.
O debate da eutanásia (chamemo-la assim, apesar das restrições
de Kouchner, e apesar da maldição que impregnou a palavra
desde que os nazistas a empregaram para apelidar a eliminação
das crianças que nasciam defeituosas, em nome do aprimoramento
da raça) mexe com os recônditos do ser humano mais ainda
que o do aborto. O aborto, muitos países permitem. A eutanásia,
só a Holanda. "Será que o homem ocidental quer tornar-se
senhor de sua própria morte?", perguntava um documento divulgado
há alguns anos pela Igreja Católica da Holanda, a maior
adversária das práticas que, de tanto amiudar-se, acabaram
legalizadas no país. Em outras palavras, a escolha da hora e da
modalidade equivaleria a uma intolerável dessacralização
da morte, indicativa da prepotência do homem contemporâneo.
E nós com isso? Nós, brasileiros, que temos a ver com esse
debate? Nada. Rigorosamente nada. O Brasil não está no ponto
nem de cogitar em eutanásia, por uma questão de base: ela
só é admissível numa sociedade estruturada e igualitária
como a holandesa, consciente dos próprios direitos, respeitadora
dos alheios, com instituições sólidas e regras iguais
para todos. O nosso é um país com hospitais que matam os
pacientes por descuidos tão aterradores quanto usar água
envenenada no processamento da hemodiálise, como aconteceu em Pernambuco,
e para chegar mais perto do assunto em tela com profissionais
tão desqualificados quanto o enfermeiro que eliminava pacientes
para ganhar dinheiro de funerárias, como ocorreu no Rio de Janeiro.
Não se trata de ambiente onde a eutanásia possa ser minimamente
administrável. O tema não é apenas complexo. Só
faz sentido numa sociedade madura e sadia. Eis então a conclusão
melancólica, quando se depara com discussões como a suscitada
por Kouchner: isso não é para o nosso bico. Ficar fora delas
é mais um preço a pagar pelo subdesenvolvimento.
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