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Intelectual, mas pop

Ítalo Moriconi puxa ferro, gosta de
rock, faz poemas gays e organiza
antologias que são um sucesso

Marcelo Marthe

 
Oscar Cabral
Moriconi, no local onde faz musculação: "Só entra o que eu gosto"

Como crítico, professor universitário e poeta, o carioca Ítalo Moriconi, de 47 anos, não alcançou projeção para além de um círculo estreito. Como organizador de antologias literárias, porém, está se tornando uma celebridade no mundinho das letras. Lançada no ano passado, sua coletânea Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século já vendeu mais de 70.000 exemplares – um número respeitabilíssimo em se tratando do mercado nacional. Há cerca de dois meses, saiu uma segunda versão, só de poemas, que nesta semana está no topo da lista de mais vendidos de VEJA (confira). A façanha é ainda mais impressionante pelo fato de o conto e a poesia não serem gêneros de grande procura nas livrarias. "Minha vida se divide entre antes e depois desses livros", reconhece. Há, no entanto, uma contrapartida: ao definir quem deveria entrar ou ficar de fora das seleções, ele fez uma legião de desafetos. "São tantas sensibilidades feridas que tenho medo de me pegarem de tocaia", brinca.

Moriconi tem uma explicação para seu sucesso como antologista: "Sou um intelectual pop". Embora seu habitat preferido seja uma biblioteca empoeirada e use óculos de nerd (10 graus de miopia), ele escuta as canções do grupo inglês The Smiths, faz musculação em aparelhos na praia de Copacabana e é gay assumido. Professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), já assinou obras teóricas sobre "o pós-moderno", mas em suas aulas dispensa os jargões acadêmicos em prol de uma abordagem descontraída. Se o tema é poesia, pode emendar uma comparação de Camões com letras de rock e MPB. "Ele é flexível e sabe se comunicar com os jovens", elogia Isa Pessôa, diretora da Objetiva, editora das antologias. Essas qualidades se refletiram em Os Cem Melhores Contos – um dos públicos-alvos, afinal, eram os universitários. O intelectual pop deixou de lado textos do começo do século, que os acadêmicos adoram, sob a alegação de que ninguém agüenta lê-los porque são chatérrimos. "O critério foi o seguinte: entrou aquilo que gosto", esclarece. "A vantagem da antologia é que até quem nunca leu tem vontade de levar para casa 100 obras maravilhosas, que alguém já teve o trabalho de escolher."

Seu estilo pop começou a causar mais constrangimento com o lançamento de Os Cem Melhores Poemas. Ele mexeu num vespeiro. Alguns críticos acham que a seleção destaca autores "digeríveis", enquanto tendências mais cerebrais têm pouca presença. Assim, por exemplo, os versos populares de Cecília Meireles ganham mais espaço que os do rigoroso João Cabral de Melo Neto – ela comparece com seis, ele com cinco poemas. Indignado com a seleção, o concretista Décio Pignatari não permitiu que um poema seu fosse compilado. Onde Moriconi feriu mais susceptibilidades foi na área contemporânea. "É um absurdo. Ele limou os adeptos da antipoesia, aqueles que fazem versos difíceis", acusa o carioca Carlito Azevedo, que foi escolhido, mas sentiu a falta de gente como Sebastião Uchoa Leite. "O corporativismo do ambiente poético é um horror", rebate Moriconi. "Se todo mundo quisesse indicar um amigo, o livro não teria fim." Outros que ficaram de fora são os adeptos da poesia metafísica, como o carioca Alexei Bueno. Moriconi os considera "neoconservadores" e "anti-pop".

Filho de pai italiano e mãe paraense, Moriconi diz que até agora não faturou muito com as antologias – pela primeira, por exemplo, teria embolsado menos de 5.000 reais de direitos autorais. Mas faz muitos planos. Pretende lançar uma coletânea de ensaios e já fareja três áreas para futuras antologias: as crônicas, as letras de música e os contos latino-americanos. Ele também não desistiu da sua própria poesia. Integrante, nos anos 70, do grupo de poetas marginais do qual faziam parte Cacaso, Chacal e Ana Cristina Cesar, o intelectual pop pretende lançar em breve seu quarto livro de versos. Moriconi escreve textos homoeróticos que, de tão apimentados, muitos consideram sombrios. "É que não ofereço nenhum consolo", explica. Um exemplo: "o esporte do olhar, inenarrável, / resíduo sem registro sem épica a épica / que atletas! que arena! e que armas!". Merece entrar numa antologia?

   
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