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Edição 1 711 - 1° de agosto de 2001
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Bolívia aposta num
salvador: o Brasil

Compras brasileiras de gás dão fôlego à
economia arruinada pelo combate à coca

Reuters
Agricultores protestam contra erradicação da coca: pobreza atinge 63% dos bolivianos

Enquanto os brasileiros ouviam notícias sobre medidas contra o apagão na semana passada, os bolivianos vibravam do outro lado da fronteira. A importação de gás natural da Bolívia não é apenas uma boa alternativa para resolver a crise energética do Brasil. É também a grande esperança da economia boliviana. A Bolívia é um dos países mais pobres do mundo – está na relação das nações miseráveis que tiveram parte da dívida externa perdoada pelos sete países mais ricos. Seis em cada dez bolivianos vivem abaixo da linha de pobreza, quatro deles na pobreza absoluta. Em meados da década de 80, a Bolívia aderiu ao mantra planetário da liberalização da economia e cresceu em ritmo espetacular durante boa parte dos anos 90. Foi então que decidiu mexer em dois temas extremamente delicados: começou a combater o cultivo da coca, a planta usada na produção de cocaína, e o contrabando. O resultado foi desastroso.

O impacto sobre a economia informal foi tão pesado que o ritmo de crescimento desabou para próximo de zero em 1999. A salvação foi a exportação de gás natural para o Brasil, que aumentou oito vezes no ano passado, chegando a 120 milhões de dólares e mudando o ranking dos produtos mais importantes do país. Há dois anos, o gás ocupava apenas a sexta posição entre os produtos mais exportados pela Bolívia. Hoje é o terceiro, atrás somente da soja e do zinco, e em breve será o primeiro. No ano passado, 12% das exportações bolivianas foram para o Brasil, número que só deve crescer. Em 1999, era apenas 3%. Isso é só o começo. Em três anos, as compras de gás do Brasil devem pular para 700 milhões, o equivalente a quase 10% do PIB boliviano. Investimentos gerenciados pela Petrobras e seus sócios já totalizam 900 milhões de dólares, uma enormidade numa economia de 8 bilhões de dólares. "O Brasil está trocando gás pelo desenvolvimento da Bolívia", diz Décio Oddone, presidente da Petrobras Bolívia, uma subsidiária da estatal brasileira.

A Bolívia tem mostrado sinais de maturidade nos últimos tempos. No começo de julho, o presidente, Hugo Banzer, foi obrigado a se ausentar do cargo para realizar um tratamento contra câncer nos Estados Unidos. O vice-presidente, Jorge Quiroga, assumiu o comando, e pouca gente duvida que o país terá uma transição tranqüila até as eleições do ano que vem, caso Banzer não volte à Presidência. É verdade que os pequenos agricultores continuam fechando estradas, mas a situação atual está longe de se parecer com a da época em que o país se tornou célebre pelos golpes militares em cascata. A decisão de eliminar o cultivo da coca não foi fácil. O atual governo já erradicou 34.000 hectares de plantações localizadas na região de Cochabamba (mais de dois terços do total). Os efeitos colaterais têm sido dolorosos. A renda no setor informal registrou uma queda equivalente a, pelo menos, 3% do PIB. É sorte que a Bolívia tenha em abundância o gás de que o Brasil tanto precisa.




 
 
   
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