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Bolívia
aposta num
salvador: o Brasil
Compras
brasileiras de gás dão fôlego à
economia
arruinada pelo combate à coca
Reuters
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| Agricultores
protestam contra erradicação da coca: pobreza atinge
63% dos bolivianos |
Enquanto
os brasileiros ouviam notícias sobre medidas contra o apagão
na semana passada, os bolivianos vibravam do outro lado da fronteira.
A importação de gás natural da Bolívia não
é apenas uma boa alternativa para resolver a crise energética
do Brasil. É também a grande esperança da economia
boliviana. A Bolívia é um dos países mais pobres
do mundo está na relação das nações
miseráveis que tiveram parte da dívida externa perdoada
pelos sete países mais ricos. Seis em cada dez bolivianos vivem
abaixo da linha de pobreza, quatro deles na pobreza absoluta. Em meados
da década de 80, a Bolívia aderiu ao mantra planetário
da liberalização da economia e cresceu em ritmo espetacular
durante boa parte dos anos 90. Foi então que decidiu mexer em dois
temas extremamente delicados: começou a combater o cultivo da coca,
a planta usada na produção de cocaína, e o contrabando.
O resultado foi desastroso.
O impacto sobre a economia informal foi tão pesado que o ritmo
de crescimento desabou para próximo de zero em 1999. A salvação
foi a exportação de gás natural para o Brasil, que
aumentou oito vezes no ano passado, chegando a 120 milhões de dólares
e mudando o ranking dos produtos mais importantes do país. Há
dois anos, o gás ocupava apenas a sexta posição entre
os produtos mais exportados pela Bolívia. Hoje é o terceiro,
atrás somente da soja e do zinco, e em breve será o primeiro.
No ano passado, 12% das exportações bolivianas foram para
o Brasil, número que só deve crescer. Em 1999, era apenas
3%. Isso é só o começo. Em três anos, as compras
de gás do Brasil devem pular para 700 milhões, o equivalente
a quase 10% do PIB boliviano. Investimentos gerenciados pela Petrobras
e seus sócios já totalizam 900 milhões de dólares,
uma enormidade numa economia de 8 bilhões de dólares. "O
Brasil está trocando gás pelo desenvolvimento da Bolívia",
diz Décio Oddone, presidente da Petrobras Bolívia, uma subsidiária
da estatal brasileira.
A Bolívia tem mostrado sinais de maturidade nos últimos
tempos. No começo de julho, o presidente, Hugo Banzer, foi obrigado
a se ausentar do cargo para realizar um tratamento contra câncer
nos Estados Unidos. O vice-presidente, Jorge Quiroga, assumiu o comando,
e pouca gente duvida que o país terá uma transição
tranqüila até as eleições do ano que vem, caso
Banzer não volte à Presidência. É verdade que
os pequenos agricultores continuam fechando estradas, mas a situação
atual está longe de se parecer com a da época em que o país
se tornou célebre pelos golpes militares em cascata. A decisão
de eliminar o cultivo da coca não foi fácil. O atual governo
já erradicou 34.000 hectares de plantações localizadas
na região de Cochabamba (mais de dois terços do total).
Os efeitos colaterais têm sido dolorosos. A renda no setor informal
registrou uma queda equivalente a, pelo menos, 3% do PIB. É sorte
que a Bolívia tenha em abundância o gás de que o Brasil
tanto precisa.
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