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Edição 1 711 - 1° de agosto de 2001
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Contra-ataque das gueixas

Cristiano Dias

Stuart Isett
AFP
Japonesas num impasse: com dinheiro para ir às compras, mas ainda precisando de vagão exclusivo no metrô para evitar assédio A chanceler Makiko Tanaka: herdeira de um cacique político, ela foi alvo de comentários debochados na televisão

O Japão é a segunda economia do mundo e um dos países mais modernos do planeta. Porém, quando o assunto são os direitos femininos, os japoneses continuam vivendo no passado, com mulheres submissas e oprimidas por uma sociedade na qual predominam os valores masculinos. Com algumas décadas de atraso em relação aos demais países industrializados, essa situação começa a mudar, a duras penas. É o caso do assédio sexual, um termo novo no Japão. Dez anos atrás, ninguém sabia do que se tratava – ou não se importava, pois era inconcebível que uma mulher se queixasse de avanços sexuais indevidos. Até hoje o delito ainda não tem penas claras para os acusados, que dificilmente são condenados. O bom sinal é que mais de 100 processos tramitaram na Justiça na última década. Há um caso exemplar, relatado pelo jornal The New York Times, que ajuda a entender por que poucas japonesas se arriscam a recorrer à Justiça.

Maeko Tanaka, pseudônimo escolhido por uma jovem de 21 anos que prefere manter-se no anonimato, passou por uma sessão de terror dentro de um automóvel, diante de vários colegas de trabalho. Durante trinta minutos, ela foi apalpada pelo governador da província de Osaka, Knock Yokoyama, para quem trabalhava como estagiária. Para levar o caso aos tribunais, ela precisou enfrentar o preconceito dentro da própria casa. Por considerar a atitude indigna de uma mulher, seu pai deixou de falar com ela, o namorado a abandonou, assim como a maioria dos amigos. Em dezembro do ano passado, veio a recompensa. Yokoyama renunciou ao cargo e foi condenado a pagar 100.000 dólares a Maeko. A primeira a conseguir a façanha de condenar um homem num tribunal foi a jornalista Mayumi Hareno, que processou por difamação o editor da revista em que trabalhava, há dez anos. "No Japão, a mulher é sempre culpada", disse Hareno.

Os processos não chegaram a provocar uma revolução de costumes. Mas, pelo menos, o assunto está deixando de ser tabu. O Parlamento finalmente aprovou uma lei que proíbe a discriminação sexual, em 1999. No metrô de Tóquio, cartazes divulgam uma campanha contra o assédio sexual e alertam que os molestadores podem ser processados pelas vítimas. O hábito de bolinar as passageiras era tão comum que, no início do ano, a direção do metrô reservou alguns vagões exclusivamente para mulheres. O moderninho primeiro-ministro Junichiro Koizumi, muito popular entre o público feminino e os jovens em geral, colocou cinco mulheres – um recorde – em seu gabinete de dezessete ministros. Mesmo que algumas delas tenham chegado pela força do sobrenome – a chanceler Makiko Tanaka é filha de um primeiro-ministro que governou o país nos anos 70 –, é um índice considerável em um país onde apenas 7% do Parlamento é constituído por mulheres, metade da representatividade nos Estados Unidos, mas um pouco mais que os 5% do Brasil.

As reações tradicionalistas às transformações são enormes. O prefeito de Tóquio, Shintaro Ishihara, em um programa de TV, disse que o temperamento explosivo da chanceler Makiko, descrita como "um cavalo indomável" pelo próprio pai, "é conseqüência da menopausa". Em outro país causaria constrangimento ao prefeito e uma gritaria geral das feministas. No Japão desencadeou um debate debochado sobre a menopausa da chanceler. Feminismo, aliás, é palavra pejorativa por lá. "No Japão há um conceito rígido de que o homem deve sair para o trabalho enquanto a mulher cuida da casa e dos filhos. Essa mentalidade é muito difícil de mudar", disse a VEJA Tamae Onishi, que chefia a Secretaria de Igualdade de Gêneros, órgão criado pelo governo há sete anos.

As japonesas só tiveram direito a voto depois da II Guerra, quando os americanos impuseram valores democráticos ao país. Há coisas que nunca mudaram. Por razões protocolares, a princesa Masako, mulher do príncipe herdeiro, Naruhito, que estudou em Harvard, é uma das poucas que ainda observam a antiga tradição de andar respeitosamente dois passos atrás do marido. O velho costume só é observado em comunidades distantes. Os japoneses esperam que as mulheres façam o trabalho doméstico, cuidem dos filhos, cozinhem e, se for o caso, tomem conta dos sogros. Tentando escapar desse destino, muitas jovens estão fugindo do altar. Uma pesquisa do Ministério da Saúde, do Trabalho e do Bem-Estar mostrou que metade das japonesas adia o casamento até os 29 anos. Tornou-se comum que o primeiro filho nasça depois dos 35 anos, uma clara opção pela carreira profissional. Faz parte da tradição japonesa que as esposas controlem o orçamento familiar, cabendo ao homem apenas trabalhar para gerar renda. Nas grandes áreas urbanas, além de fazerem de tudo em casa, as japonesas também estão saindo para trabalhar. Com dinheiro e ótima disposição para o consumo, as jovens japonesas estão cada vez mais distantes do perfil submisso de suas mães e avós. De acordo com números oficiais, 40% do total da força de trabalho já é feminino, número similar ao do Brasil. O senão: elas seguem ocupando apenas 0,1% dos cargos de direção administrativa e, mesmo assim, em empregos burocráticos.

 

A volta da segunda esposa

As concubinas eram um símbolo de riqueza e posição social na China imperial. Vários filmes chineses que fizeram sucesso no exterior nos anos 90, como Lanternas Vermelhas e Adeus Minha Concubina, buscaram inspiração nessas personagens típicas. Os comunistas que tomaram o poder há mais de cinqüenta anos decretaram que manter er nai (segundas esposas, em chinês) constituía um vício burguês decadente – mas nunca chegaram a proibir. Mao Tsé-tung, o comandante da revolução vermelha, vivia cercado de amantes. Pois agora, após duas décadas de abertura e prosperidade econômica, o concubinato está novamente em moda na China. Por enquanto, como os gastos de manutenção de uma amante são pesados, só os caciques do partido e os novos-ricos podem dar-se ao luxo de manter uma "segunda esposa". O sustento mensal de uma jovem, incluindo o aluguel do apartamento, pode custar entre 700 e 1 000 dólares, um bom dinheiro para os padrões da China. De acordo com a imprensa oficial, 95% dos homens acusados de crimes econômicos em Guangdong – uma das províncias mais ricas da China – tinham um caso extraconjugal. Um vice-governador foi condenado a dez anos de cadeia por ter aceitado um suborno de 18 000 dólares para sustentar não uma, mas quatro amantes. A volta do concubinato teve suas conseqüências. Aos poucos, os chineses vão descobrindo que a figura da tradicional esposa também está mudando. Hoje, o número de divórcios é quatro vezes maior do que vinte anos atrás. Nas grandes cidades, o índice de casais divorciados chega a 20%. A pressão das mulheres foi tanta que há três meses o governo aprovou uma lei que proíbe ao mesmo tempo a bigamia e o concubinato. Sob a nova lei, as esposas traídas têm direito a receber uma indenização e o marido pode pegar até dois anos de cadeia.

 

 
 
   
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