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Contra-ataque das
gueixas

Cristiano
Dias
Stuart Isett
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AFP
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| Japonesas
num impasse: com dinheiro para ir às compras, mas ainda precisando
de vagão exclusivo no metrô para evitar assédio |
A
chanceler Makiko Tanaka: herdeira de um cacique político, ela
foi alvo de comentários debochados na televisão |
O Japão
é a segunda economia do mundo e um dos países mais modernos
do planeta. Porém, quando o assunto são os direitos femininos,
os japoneses continuam vivendo no passado, com mulheres submissas e oprimidas
por uma sociedade na qual predominam os valores masculinos. Com algumas
décadas de atraso em relação aos demais países
industrializados, essa situação começa a mudar, a
duras penas. É o caso do assédio sexual, um termo novo no
Japão. Dez anos atrás, ninguém sabia do que se tratava
ou não se importava, pois era inconcebível que uma
mulher se queixasse de avanços sexuais indevidos. Até hoje
o delito ainda não tem penas claras para os acusados, que dificilmente
são condenados. O bom sinal é que mais de 100 processos
tramitaram na Justiça na última década. Há
um caso exemplar, relatado pelo jornal The New York Times, que
ajuda a entender por que poucas japonesas se arriscam a recorrer à
Justiça.
Maeko Tanaka,
pseudônimo escolhido por uma jovem de 21 anos que prefere manter-se
no anonimato, passou por uma sessão de terror dentro de um automóvel,
diante de vários colegas de trabalho. Durante trinta minutos, ela
foi apalpada pelo governador da província de Osaka, Knock Yokoyama,
para quem trabalhava como estagiária. Para levar o caso aos tribunais,
ela precisou enfrentar o preconceito dentro da própria casa. Por
considerar a atitude indigna de uma mulher, seu pai deixou de falar com
ela, o namorado a abandonou, assim como a maioria dos amigos. Em dezembro
do ano passado, veio a recompensa. Yokoyama renunciou ao cargo e foi condenado
a pagar 100.000 dólares a Maeko. A primeira
a conseguir a façanha de condenar um homem num tribunal foi a jornalista
Mayumi Hareno, que processou por difamação o editor da revista
em que trabalhava, há dez anos. "No Japão, a mulher é
sempre culpada", disse Hareno.
Os processos
não chegaram a provocar uma revolução de costumes.
Mas, pelo menos, o assunto está deixando de ser tabu. O Parlamento
finalmente aprovou uma lei que proíbe a discriminação
sexual, em 1999. No metrô de Tóquio, cartazes divulgam uma
campanha contra o assédio sexual e alertam que os molestadores
podem ser processados pelas vítimas. O hábito de bolinar
as passageiras era tão comum que, no início do ano, a direção
do metrô reservou alguns vagões exclusivamente para mulheres.
O moderninho primeiro-ministro Junichiro Koizumi, muito popular entre
o público feminino e os jovens em geral, colocou cinco mulheres
um recorde em seu gabinete de dezessete ministros. Mesmo
que algumas delas tenham chegado pela força do sobrenome
a chanceler Makiko Tanaka é filha de um primeiro-ministro que governou
o país nos anos 70 , é um índice considerável
em um país onde apenas 7% do Parlamento é constituído
por mulheres, metade da representatividade nos Estados Unidos, mas um
pouco mais que os 5% do Brasil.
As reações
tradicionalistas às transformações são enormes.
O prefeito de Tóquio, Shintaro Ishihara, em um programa de TV,
disse que o temperamento explosivo da chanceler Makiko, descrita como
"um cavalo indomável" pelo próprio pai, "é conseqüência
da menopausa". Em outro país causaria constrangimento ao prefeito
e uma gritaria geral das feministas. No Japão desencadeou um debate
debochado sobre a menopausa da chanceler. Feminismo, aliás, é
palavra pejorativa por lá. "No Japão há um conceito
rígido de que o homem deve sair para o trabalho enquanto a mulher
cuida da casa e dos filhos. Essa mentalidade é muito difícil
de mudar", disse a VEJA Tamae Onishi, que chefia a Secretaria de Igualdade
de Gêneros, órgão criado pelo governo há sete
anos.
As japonesas
só tiveram direito a voto depois da II Guerra, quando os americanos
impuseram valores democráticos ao país. Há coisas
que nunca mudaram. Por razões protocolares, a princesa Masako,
mulher do príncipe herdeiro, Naruhito, que estudou em Harvard,
é uma das poucas que ainda observam a antiga tradição
de andar respeitosamente dois passos atrás do marido. O velho costume
só é observado em comunidades distantes. Os japoneses esperam
que as mulheres façam o trabalho doméstico, cuidem dos filhos,
cozinhem e, se for o caso, tomem conta dos sogros. Tentando escapar desse
destino, muitas jovens estão fugindo do altar. Uma pesquisa do
Ministério da Saúde, do Trabalho e do Bem-Estar mostrou
que metade das japonesas adia o casamento até os 29 anos. Tornou-se
comum que o primeiro filho nasça depois dos 35 anos, uma clara
opção pela carreira profissional. Faz parte da tradição
japonesa que as esposas controlem o orçamento familiar, cabendo
ao homem apenas trabalhar para gerar renda. Nas grandes áreas urbanas,
além de fazerem de tudo em casa, as japonesas também estão
saindo para trabalhar. Com dinheiro e ótima disposição
para o consumo, as jovens japonesas estão cada vez mais distantes
do perfil submisso de suas mães e avós. De acordo com números
oficiais, 40% do total da força de trabalho já é
feminino, número similar ao do Brasil. O senão: elas seguem
ocupando apenas 0,1% dos cargos de direção administrativa
e, mesmo assim, em empregos burocráticos.
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A
volta da segunda esposa
As
concubinas eram um símbolo de riqueza e posição
social na China imperial. Vários filmes chineses que fizeram
sucesso no exterior nos anos 90, como Lanternas Vermelhas
e Adeus Minha Concubina, buscaram inspiração
nessas personagens típicas. Os comunistas que tomaram o poder
há mais de cinqüenta anos decretaram que manter er
nai (segundas esposas, em chinês) constituía um
vício burguês decadente mas nunca chegaram a
proibir. Mao Tsé-tung, o comandante da revolução
vermelha, vivia cercado de amantes. Pois agora, após duas
décadas de abertura e prosperidade econômica, o concubinato
está novamente em moda na China. Por enquanto, como os gastos
de manutenção de uma amante são pesados, só
os caciques do partido e os novos-ricos podem dar-se ao luxo de
manter uma "segunda esposa". O sustento mensal de uma jovem, incluindo
o aluguel do apartamento, pode custar entre 700 e 1 000 dólares,
um bom dinheiro para os padrões da China. De acordo com a
imprensa oficial, 95% dos homens acusados de crimes econômicos
em Guangdong uma das províncias mais ricas da China
tinham um caso extraconjugal. Um vice-governador foi condenado
a dez anos de cadeia por ter aceitado um suborno de 18 000 dólares
para sustentar não uma, mas quatro amantes. A volta do concubinato
teve suas conseqüências. Aos poucos, os chineses vão
descobrindo que a figura da tradicional esposa também está
mudando. Hoje, o número de divórcios é quatro
vezes maior do que vinte anos atrás. Nas grandes cidades,
o índice de casais divorciados chega a 20%. A pressão
das mulheres foi tanta que há três meses o governo
aprovou uma lei que proíbe ao mesmo tempo a bigamia e o concubinato.
Sob a nova lei, as esposas traídas têm direito a receber
uma indenização e o marido pode pegar até dois
anos de cadeia.
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