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Edição 1 711 - 1° de agosto de 2001
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Europa em choque: seus jovens foram torturados

Depois da confusão em Gênova,
aparecem histórias sobre o que
aconteceu nas delegacias italianas

Raul Juste Lores

AP/Luca Bruno
Reuters/Sergei Karpukhin
AP/Andrew Medichini

Ferido em confronto de rua, detidos sendo levados em Gênova e, ao lado, manifestação italiana contra a repressão policial, que deixou um morto, 300 feridos e 280 presos: "Fui levado a um centro de tortura que parecia filme de prisão na América do Sul"

A Europa está em estado de choque com a pancadaria em Gênova durante o encontro do G-8, o grupo dos sete países mais ricos e a Rússia, há uma semana. A indignação não se deve à agressividade dos manifestantes nem à resposta duríssima dada pela polícia italiana, encarregada de manter a ordem na cidade. Os europeus estão espantados com o que aconteceu depois, quando os manifestantes já estavam detidos. Os jornais de Paris, Berlim, Roma e Londres estão repletos de relatos pungentes de jovens espancados e humilhados em delegacias e quartéis italianos. A polícia tem a obrigação de garantir a ordem pública durante manifestações. É igualmente legítimo que reaja com violência proporcional à usada pelos manifestantes. A situação muda inteiramente, contudo, se o rebelde de passeata é detido e conduzido a uma delegacia. O cidadão sob custódia do Estado não pode ser maltratado nem humilhado. Num país como o Brasil, a tortura é rotina em delegacias de polícia. Na Europa, um comportamento desse gênero é motivo de escândalo. As barbaridades ocorridas nos centros de detenção montados pela polícia em Gênova são do tipo que a maioria dos europeus imagina confinadas a países do Terceiro Mundo. Quase 300 pessoas foram presas, e seus relatos são espantosos. "Fui levado a um centro de tortura que parecia filme de prisão na América do Sul", contou o estudante italiano Enrico Sciaccalunga, de 19 anos. "Levei pancadas no estômago, cuspiram em mim e me chutaram por todo o corpo." Atingido por um golpe de cassetete na cabeça, Sciaccalunga precisou de 22 pontos para fechar a ferida.

Um de cada três presos em Gênova era estrangeiro, quase todos de países da União Européia. Ao voltarem para casa, na semana passada, eles exibiam as marcas da brutalidade policial. "Fiquei doze horas em pé, amarrado, sem comer nem beber, levando cotoveladas e coronhadas dos policiais. Várias pessoas urinavam de medo e vomitavam", contou o espanhol Adolfo Sesma, de 30 anos, ao jornal El País, de Madri. A alemã Anna Giulia Kutschkau, 21 anos, que teve o maxilar fraturado por um golpe, diz que foi ameaçada de estupro no centro de detenção de Voghera. O fotógrafo italiano Alfonso De Munno, de 26 anos, preso e espancado, tinha detalhes sinistros a relatar. "Enquanto nos batiam, os policiais cantarolavam uma música horrenda que acabei decorando: 'Uno, due, tre, viva Pinochet, quattro, cinque, sei, a morte gli ebrei, sette, otto, nove, il negretto non commuove' (Um, dois, três, viva Pinochet, quatro, cinco, seis, morte aos judeus, sete, oito, nove, o negrinho não comove)."

A cantoria racista é mais um constrangimento para o primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, que governa em coalizão com o Partido Neofascista. O premiê direitista, que sonhava com seu primeiro grande momento internacional, teve de se explicar no Senado. As chancelarias da Alemanha, da França e da Inglaterra, países governados pela social-democracia, pediram satisfações à Itália. Há dúvidas se o governo italiano não havia previsto as dimensões dos protestos antiglobalização ou se os abusos foram intencionais. Estima-se que, entre os 150.000 manifestantes reunidos em Gênova, uma minoria seria constituída de arruaceiros assumidos, anarquistas e pós-punks, que estavam lá para provocar a polícia. Impressiona que as vítimas identificadas de torturas sejam manifestantes de alas mais pacíficas do Fórum Social de Gênova, encontro organizado por ONGs. Cinqüenta participantes estavam desaparecidos na sexta-feira passada, ninguém sabe se perdidos no caminho de volta para casa ou presos em condições ilegais.

O Fórum Social reuniu esquerdistas que pediam o perdão da dívida externa de países pobres (reivindicação atendida em parte pelo G-7), hippies temporões, católicos de esquerda e grupos pacifistas. Com suas críticas genéricas ao capitalismo e às grandes corporações (seguindo a tendência de sucessos recentes de Hollywood, como Erin Brockovich e O Informante), a maioria dos participantes tinha menos de 30 anos e foi a Gênova em busca de uma causa nobre para defender – direitos humanos, fim do trabalho infantil, combate à pobreza e melhor distribuição de renda no planeta. Esses jovens pertencem à primeira geração européia criada numa sociedade de abundância material e justiça social. Abuso policial era uma indignidade só conhecida pela televisão. Nessas circunstâncias, é natural que os europeus estejam em estado de choque: acabaram de descobrir que seus filhos também podem ser torturados.

 
 
   
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