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Europa em choque:
seus jovens foram torturados
Depois
da confusão em Gênova,
aparecem histórias sobre o que
aconteceu nas delegacias italianas
Raul Juste Lores
AP/Luca Bruno
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Reuters/Sergei Karpukhin
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AP/Andrew Medichini
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Ferido em confronto de rua, detidos sendo levados em Gênova e, ao lado, manifestação italiana contra a repressão policial, que deixou um morto, 300 feridos e 280 presos: "Fui levado a um centro de tortura que parecia filme de prisão na América do Sul" |
A
Europa está em estado de choque com a pancadaria em Gênova
durante o encontro do G-8, o grupo dos sete países mais ricos e
a Rússia, há uma semana. A indignação não
se deve à agressividade dos manifestantes nem à resposta
duríssima dada pela polícia italiana, encarregada de manter
a ordem na cidade. Os europeus estão espantados com o que aconteceu
depois, quando os manifestantes já estavam detidos. Os jornais
de Paris, Berlim, Roma e Londres estão repletos de relatos pungentes
de jovens espancados e humilhados em delegacias e quartéis italianos.
A polícia tem a obrigação de garantir a ordem pública
durante manifestações. É igualmente legítimo
que reaja com violência proporcional à usada pelos manifestantes.
A situação muda inteiramente, contudo, se o rebelde de passeata
é detido e conduzido a uma delegacia. O cidadão sob custódia
do Estado não pode ser maltratado nem humilhado. Num país
como o Brasil, a tortura é rotina em delegacias de polícia.
Na Europa, um comportamento desse gênero é motivo de escândalo.
As barbaridades ocorridas nos centros de detenção montados
pela polícia em Gênova são do tipo que a maioria dos
europeus imagina confinadas a países do Terceiro Mundo. Quase 300
pessoas foram presas, e seus relatos são espantosos. "Fui levado
a um centro de tortura que parecia filme de prisão na América
do Sul", contou o estudante italiano Enrico Sciaccalunga, de 19 anos.
"Levei pancadas no estômago, cuspiram em mim e me chutaram por todo
o corpo." Atingido por um golpe de cassetete na cabeça, Sciaccalunga
precisou de 22 pontos para fechar a ferida.
Um de cada três presos em Gênova era estrangeiro, quase todos
de países da União Européia. Ao voltarem para casa,
na semana passada, eles exibiam as marcas da brutalidade policial. "Fiquei
doze horas em pé, amarrado, sem comer nem beber, levando cotoveladas
e coronhadas dos policiais. Várias pessoas urinavam de medo e vomitavam",
contou o espanhol Adolfo Sesma, de 30 anos, ao jornal El País,
de Madri. A alemã Anna Giulia Kutschkau, 21 anos, que teve o maxilar
fraturado por um golpe, diz que foi ameaçada de estupro no centro
de detenção de Voghera. O fotógrafo italiano Alfonso
De Munno, de 26 anos, preso e espancado, tinha detalhes sinistros a relatar.
"Enquanto nos batiam, os policiais cantarolavam uma música horrenda
que acabei decorando: 'Uno, due, tre, viva Pinochet, quattro, cinque,
sei, a morte gli ebrei, sette, otto, nove, il negretto non commuove' (Um,
dois, três, viva Pinochet, quatro, cinco, seis, morte aos judeus,
sete, oito, nove, o negrinho não comove)."
A cantoria racista é mais um constrangimento para o primeiro-ministro
italiano, Silvio Berlusconi, que governa em coalizão com o Partido
Neofascista. O premiê direitista, que sonhava com seu primeiro grande
momento internacional, teve de se explicar no Senado. As chancelarias
da Alemanha, da França e da Inglaterra, países governados
pela social-democracia, pediram satisfações à Itália.
Há dúvidas se o governo italiano não havia previsto
as dimensões dos protestos antiglobalização ou se
os abusos foram intencionais. Estima-se que, entre os 150.000 manifestantes
reunidos em Gênova, uma minoria seria constituída de arruaceiros
assumidos, anarquistas e pós-punks, que estavam lá para
provocar a polícia. Impressiona que as vítimas identificadas
de torturas sejam manifestantes de alas mais pacíficas do Fórum
Social de Gênova, encontro organizado por ONGs. Cinqüenta participantes
estavam desaparecidos na sexta-feira passada, ninguém sabe se perdidos
no caminho de volta para casa ou presos em condições ilegais.
O Fórum Social reuniu esquerdistas que pediam o perdão da
dívida externa de países pobres (reivindicação
atendida em parte pelo G-7), hippies temporões, católicos
de esquerda e grupos pacifistas. Com suas críticas genéricas
ao capitalismo e às grandes corporações (seguindo
a tendência de sucessos recentes de Hollywood, como Erin Brockovich
e O Informante), a maioria dos participantes tinha menos de 30
anos e foi a Gênova em busca de uma causa nobre para defender
direitos humanos, fim do trabalho infantil, combate à pobreza e
melhor distribuição de renda no planeta. Esses jovens pertencem
à primeira geração européia criada numa sociedade
de abundância material e justiça social. Abuso policial era
uma indignidade só conhecida pela televisão. Nessas circunstâncias,
é natural que os europeus estejam em estado de choque: acabaram
de descobrir que seus filhos também podem ser torturados.
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