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As aventuras do
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Desde que assumiu a Presidência dos Estados Unidos, há seis meses, George W. Bush já descartou três relevantes tratados internacionais. Agiu assim por razões pragmáticas: só lhe importa proteger os interesses comerciais das empresas americanas. Em março, no mais ruidoso dos casos, ele se tornou o Capitão Sujeira ao anunciar que não iria ratificar o Protocolo de Kioto, costurado pela ONU para aliviar a poluição atmosférica. O argumento usado foi o seguinte: as exigências de redução de emissões de dióxido de carbono iriam causar desemprego e recessão nos Estados Unidos. Em maio, ameaçou ignorar o Tratado Antimísseis Balísticos de 1972, a peça-chave no equilíbrio nuclear com a Rússia. Isso porque o acordo constitui um entrave à construção do escudo antimíssil, megaprojeto de defesa que pode injetar 300 bilhões de dólares na indústria bélica americana. Na semana passada, decidiu não implementar o Protocolo de Armas Biológicas, que proíbe a produção de armas contendo germes capazes de causar a morte de seres humanos, animais e plantas. A justificativa foi que a inspeção internacional prejudicaria a indústria farmacêutica americana. Visitas-surpresa aos gigantes da biotecnologia, previstas no protocolo, poderiam ser aproveitadas para roubar segredos industriais, argumenta Bush.
O tempo em que diplomatas americanos ouviam seus aliados antes de tomar decisões cruciais e, mais importante, levavam em consideração a opinião alheia parece ter chegado ao fim. Hoje, o que prevalece é aquilo que está sendo chamado de unilateralismo: como única superpotência, os Estados Unidos estão decididos a só entrar em acordos que os favoreçam, custe o que custar. Alguém menos atento aos assuntos internacionais pensaria que Bush, na condição de presidente do país com a principal economia e o Exército mais poderoso do mundo, pode fazer pouco caso dos demais países. Não é bem assim que as coisas deveriam ser, sobretudo em tempos de globalização. A política externa de países sérios costuma ser consistente e imune às alternâncias de poder. Ou seja, mudanças nessa área acontecem no decorrer de vários anos, independentemente de o partido A ou B estar no poder. É por isso que as atitudes de Bush estão deixando em estado de estupor seus aliados na Europa. A rejeição do Protocolo de Kioto foi o caso mais chocante, diante do consenso alcançado entre as demais nações e dos quatro anos de negociações para aperfeiçoar o documento. Mas o acordo de Kioto foi apenas um dos muitos gestos surpreendentes de Bush na contramão da corrente internacional.
Antes mesmo de assumir o cargo, Bush anunciou que não iria enviar ao Congresso para ratificação o tratado que cria o Tribunal Internacional Penal. A razão: não seria admissível correr o risco de um soldado americano ser julgado em foro estrangeiro por delito cometido a serviço da pátria. Há duas semanas, ele ameaçou retirar-se do tratado das Nações Unidas que pretendia impor limites ao tráfico de armas. Com metade dos fabricantes mundiais de armas (o setor dá emprego a 16.700 americanos e fatura 2 bilhões de dólares por ano), os Estados Unidos não iriam permitir que a ONU se metesse com a freguesia. Some-se isso tudo e tem-se o que deve ser um recorde na história da diplomacia americana: cinco tratados arruinados em seis meses. Nem nos tempos da Guerra Fria, quando os partidos comunistas da Europa Ocidental puxavam a vaia contra a Casa Branca, um presidente americano foi tão impopular nos países aliados.
Bush esteve duas vezes na Europa a última na malfadada reunião do G-8 em Gênova (veja reportagem). Pouco afeito a discussões sofisticadas e sem grande interesse por questões internacionais, o presidente americano foi qualificado de caubói grosseirão pelos jornais europeus. Foi enorme o contraste com seu antecessor Bill Clinton, que é flexível, envolvente, diplomático e bom papo. Clinton só perde e de longe na sua postura adolescente em relação a conquistas amorosas e aventuras sexuais. No mais, a comparação é sempre favorável ao ex-presidente. O nariz torcido dos europeus também tem um viés ideológico. Com exceção da Itália, os grandes países da União Européia são governados por representantes de centro-esquerda, contrários a várias das idéias defendidas pelos republicanos americanos. Para ingleses, alemães e franceses, a posição de Bush em apoio à pena de morte e contra o aborto é, no mínimo, bizarra. Tony Blair, primeiro-ministro mais próximo aos Estados Unidos, não escondeu a falta de intimidade. Acostumado com as conversas sobre terceira via que tinha com Bill Clinton, Blair ainda não encontrou muitos pontos em comum com o texano.
Nada que Bush tenha feito até agora se compara ao mal-estar causado pela rejeição do Protocolo de Kioto. Negociado numa conferência organizada pela ONU em 1997, previa que os países mais industrializados cortariam as emissões de dióxido de carbono até atingir os níveis de 1990, o que ocorreria no período entre 2008 e 2012. Os Estados Unidos, que abrigam 4% da população mundial, emitem 36% de todo o dióxido de carbono produzido pela humanidade. Os países da União Européia são responsáveis por 24% e o Japão, por 8%. Esse poluente é o resultado da queima de combustíveis fósseis e, uma vez na atmosfera, forma uma camada em torno do planeta, impedindo que os demais poluentes se dissipem. Isso cria o efeito estufa, que se supõe ser responsável pela elevação da temperatura global. A Casa Branca estima que reduzir a emissão, como exigia o Protocolo, levaria a uma queda do PIB americano de 3% a 4,3% em 2010, o equivalente a perdas entre 275 e 395 bilhões de dólares. No bolso de cada americano significaria aumentos de 86% no preço da eletricidade e 53% no da gasolina. Para um presidente republicano que prioriza as empresas, são cifras inegociáveis. Para um ecologista ou qualquer pessoa preocupada com o futuro da vida na Terra, o raciocínio de Bush não faz sentido algum. Ao rejeitar Kioto, o presidente dos Estados Unidos forneceu algo que faltava ao movimento ambientalista: um vilão. É ele próprio, o Capitão Sujeira.
Que a Casa Branca trafega na contramão ficou evidente na segunda-feira passada, quando 178 países, reunidos na cidade alemã de Bonn, chegaram a um acordo para colocar em prática o Protocolo de Kioto. Foi constrangedor para os americanos. Comparando-se a reunião de Bonn a uma partida de futebol, havia um sentimento de que, se os gringos saíssem de campo, o jogo não poderia continuar. Mas não foi isso que aconteceu. Os jogadores dos grandes países do mundo se reorganizaram, terminaram o jogo e deixaram os Estados Unidos assistindo no banco. Só não foi uma vitória por goleada porque foi necessário abrandar os termos originais do Protocolo para contentar Japão e Canadá, outros que ameaçam debandar. "Depois da rejeição americana, o acordo não resistiria à saída do Japão", diz Ronaldo Sardenberg, ministro da Ciência e Tecnologia e representante brasileiro na reunião de Bonn.
As mudanças permitem que os países compensem as emissões de gases poluentes com os chamados "ralos de carbono". Trata-se basicamente de florestas. Estima-se que cada 4.000 metros quadrados de bosques sejam capazes de absorver 5 toneladas de dióxido de carbono por ano. Com grandes áreas de reflorestamento, Rússia, Canadá e Japão foram os maiores beneficiados. Estima-se que as florestas nipônicas sejam suficientes para que o Japão corte apenas 2% em lugar dos 5,2% previstos originalmente. Os países que mais emitem gás carbônico ainda podem comprar o direito de poluir de países que não utilizem toda sua cota. Um vendedor potencial é a Rússia, cuja indústria encolheu nos últimos dez anos. O Brasil não se beneficia com nada, pois, como a China e a Índia, é considerado "em desenvolvimento" e está desobrigado de reduzir as emissões de poluentes. Como Bush reagiu a isso? Bem, não espere atmosfera mais limpa no país do Capitão Sujeira.
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Um governo na contramão Decisões de Bush que isolaram os Estados Unidos no cenário internacional
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O gênio da Casa Branca Os tropeços de raciocínio do presidente americano fazem a alegria dos humoristas "
A África é uma nação que
sofre doenças inacreditáveis" "
Não respondo a perguntas em francês, inglês
nem mexicano " "
Você ensina uma criança a ler e ele ou ela terá
condições de passar em um teste de alfabetização
" "
Espero que as pessoas ambiciosas se dêem conta
de que têm mais chances de ser bem-sucedidas com o sucesso
do que com o fracasso " "
Não estou preocupado em manter os poderes do Executivo
apenas para mim, mas também para meus predecessores "
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Com
reportagem de
Daniel
Hessel Tech
e Ana Santa Cruz
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