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Edição 1 711 - 1° de agosto de 2001
Diogo Mainardi

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Antiglobalização e 5%

"Tem gente demais lutando
contra a pobreza. Melhor deixar os
pobres em paz. Quanto mais se luta
por eles, mais pobres eles ficam"

Tem gente demais lutando contra a pobreza. Melhor parar de lutar. Melhor deixar os pobres em paz. Quanto mais se luta por eles, mais pobres eles ficam. Há poucos dias, durante a cúpula do G-8, o papa fez um sermão contra a pobreza, os líderes dos países mais ricos anunciaram medidas contra a pobreza, os ativistas antiglobalizantes levaram bala da polícia ao protestar contra a pobreza. O que os antiglobalizantes queriam, entre outras medidas, é que se instituísse a taxa Tobin, uma espécie de CPMF para transferências internacionais de capital. No Brasil, algum tempo atrás, ACM, muito aplaudido, também sugeriu criar uma taxa para combater a pobreza. Idéia que acaba de ser roubada pelo PT, que pensou em resolver o problema da fome cobrando 5% sobre as contas de restaurante. Presumo que, para diminuir a mortalidade infantil, o PT pretenda cobrar 5% das despesas em maternidades privadas. E tome 5% de quem tem casa própria, a fim de construir novas moradias para os favelados. E mais 5% de quem tem carteira assinada para sustentar os desempregados. A Fundação Getúlio Vargas preferiu enfrentar o tema da pobreza do ponto de vista macroeconômico. Conforme seus estudos, com um investimento mensal de 1,69 bilhão de reais daria para erradicar a miséria do país. Difícil saber se, para chegar a essa cifra, se incluiu a cota que inevitavelmente seria desviada pelo pessoal da Sudam, Sudene, Banpará, tribunais, empreiteiras e afins. Creio que sim. A Fundação Getúlio Vargas é conhecida por sua seriedade acadêmica. Enquanto isso, o governo colocou à disposição das famílias flageladas pela seca 943.000 cestas básicas. Até outro dia, apenas 349.000 haviam sido retiradas. Está faltando pobre por aí?

Todo mundo concorda com uma coisa: a única maneira para acabar definitivamente com a pobreza é educação. Um de nossos mais abnegados educadores é o autor de telenovelas Manoel Carlos. Li que em Laços de Família o personagem interpretado por Tony Ramos discorria sobre literatura brasileira. Li também que Manoel Carlos, cioso de sua missão, ameaçou não renovar o contrato com a Globo porque pretendiam cortar essas cenas da versão de Laços de Família a ser vendida ao exterior. Espero que, em seu próximo trabalho, Manoel Carlos não se limite a ensinar literatura brasileira, mas aproveite o espaço para abordar outras disciplinas. Matemática, por exemplo. Lima Duarte conduziria um trem de Petrópolis ao Rio de Janeiro a uma velocidade de 60 quilômetros por hora. Fernanda Montenegro conduziria um trem na direção oposta, a 80 quilômetros por hora. Em que ponto exato da estrada de ferro os trens colidiriam? Aliás, eu estenderia essa proposta a todos os programas, transformando nossa TV num gigantesco Mobral. Adriane Galisteu daria aulas de concordância pronominal. Raul Gil apresentaria concertos de Béla Bartók. Chico Anysio leria Juvenal e Marcial em latim. Os comerciais de cerveja seriam substituídos por mensagens de trinta segundos ensinando normas de higiene e profilaxia contra doenças tropicais. No horário eleitoral gratuito, Lula demonstraria como calcular 5% sobre as contas de restaurante. Aposto que no máximo em dois anos a pobreza seria eliminada do Brasil.

 
 
   
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