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Antiglobalização
e 5%
"Tem
gente demais lutando
contra a pobreza. Melhor deixar os
pobres em paz. Quanto mais se luta
por eles, mais pobres eles ficam"
Tem gente demais lutando contra a pobreza. Melhor parar de lutar. Melhor
deixar os pobres em paz. Quanto mais se luta por eles, mais pobres eles
ficam. Há poucos dias, durante a cúpula do G-8, o papa fez
um sermão contra a pobreza, os líderes dos países
mais ricos anunciaram medidas contra a pobreza, os ativistas antiglobalizantes
levaram bala da polícia ao protestar contra a pobreza. O que os
antiglobalizantes queriam, entre outras medidas, é que se instituísse
a taxa Tobin, uma espécie de CPMF para transferências internacionais
de capital. No Brasil, algum tempo atrás, ACM, muito aplaudido,
também sugeriu criar uma taxa para combater a pobreza. Idéia
que acaba de ser roubada pelo PT, que pensou em resolver o problema da
fome cobrando 5% sobre as contas de restaurante. Presumo que, para diminuir
a mortalidade infantil, o PT pretenda cobrar 5% das despesas em maternidades
privadas. E tome 5% de quem tem casa própria, a fim de construir
novas moradias para os favelados. E mais 5% de quem tem carteira assinada
para sustentar os desempregados. A Fundação Getúlio
Vargas preferiu enfrentar o tema da pobreza do ponto de vista macroeconômico.
Conforme seus estudos, com um investimento mensal de 1,69 bilhão
de reais daria para erradicar a miséria do país. Difícil
saber se, para chegar a essa cifra, se incluiu a cota que inevitavelmente
seria desviada pelo pessoal da Sudam, Sudene, Banpará, tribunais,
empreiteiras e afins. Creio que sim. A Fundação Getúlio
Vargas é conhecida por sua seriedade acadêmica. Enquanto
isso, o governo colocou à disposição das famílias
flageladas pela seca 943.000 cestas básicas. Até outro dia,
apenas 349.000 haviam sido retiradas. Está faltando pobre por aí?
Todo mundo concorda com uma coisa: a única maneira para acabar
definitivamente com a pobreza é educação. Um de nossos
mais abnegados educadores é o autor de telenovelas Manoel Carlos.
Li que em Laços de Família o personagem interpretado
por Tony Ramos discorria sobre literatura brasileira. Li também
que Manoel Carlos, cioso de sua missão, ameaçou não
renovar o contrato com a Globo porque pretendiam cortar essas cenas da
versão de Laços de Família a ser vendida ao
exterior. Espero que, em seu próximo trabalho, Manoel Carlos não
se limite a ensinar literatura brasileira, mas aproveite o espaço
para abordar outras disciplinas. Matemática, por exemplo. Lima
Duarte conduziria um trem de Petrópolis ao Rio de Janeiro a uma
velocidade de 60 quilômetros por hora. Fernanda Montenegro conduziria
um trem na direção oposta, a 80 quilômetros por hora.
Em que ponto exato da estrada de ferro os trens colidiriam? Aliás,
eu estenderia essa proposta a todos os programas, transformando nossa
TV num gigantesco Mobral. Adriane Galisteu daria aulas de concordância
pronominal. Raul Gil apresentaria concertos de Béla Bartók.
Chico Anysio leria Juvenal e Marcial em latim. Os comerciais de cerveja
seriam substituídos por mensagens de trinta segundos ensinando
normas de higiene e profilaxia contra doenças tropicais. No horário
eleitoral gratuito, Lula demonstraria como calcular 5% sobre as contas
de restaurante. Aposto que no máximo em dois anos a pobreza seria
eliminada do Brasil.
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