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Gustavo
Franco
FMI,
eleições e
interesses
nacionais
"Muita
poesia pode ser construída sobre
a identidade nacional e os danos a ela causados
pelos acordos com o FMI. Mas
o problema concreto a debater é o que
exatamente o FMI está exigindo de nós"
Ilustração
Ale Setti
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Dizem que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar, mas não
parece impossível que tenhamos uma segunda eleição
presidencial em meio a uma crise importada de outro país. Em boa
medida podemos reclamar da sorte, pois, afinal, são circunstâncias
fora de nosso controle. Pode-se dizer, por outro lado, que não
estamos inteiramente inocentes, nem agora nem em 1998, visto que o contágio
apenas se estabelece quando as defesas estão baixas. Em 1998, dizia-se
que o problema era a falta de reformas, a fragilidade do ajuste fiscal
e o regime cambial. Atualmente se diz exatamente a mesma coisa, a despeito
das mudanças ocorridas nesses três campos, especialmente
no terceiro.
Hoje, como em 1998, a pergunta relevante é se a presença
de eleições prejudica nossa capacidade de tomar as medidas
ditas impopulares necessárias para superar uma crise. Não
deve haver dúvida de que o precedente é plenamente favorável
ao governo. Em meados de 1998, Fernando Henrique, diante dos efeitos da
crise da Rússia, não interferiu no Banco Central quando
os juros foram elevados para mais de 40% e não hesitou diante da
decisão de ir ao FMI.
Quantos presidentes de República, ou aspirantes ao cargo, teriam
a coragem de tomar essas iniciativas a poucos meses de uma eleição?
Na ocasião, Fernando Henrique observou que as implicações
políticas e eleitorais de entender-se com o FMI eram mínimas.
E provavelmente continuam sendo. Embora a militância de esquerda
possa ir à loucura com esse assunto, e enganar-se com a tese de
que ir ao FMI é como perder para Honduras, o interesse das classes
C, D e E na questão é basicamente nulo. E, nas classes A
e B, não parece que as demandas do FMI responsabilidade
fiscal e reformas estejam em desacordo com a vontade da maioria
e, em conseqüência, com os interesses nacionais.
Na verdade, o resultado das eleições de 1998 permite uma
boa reflexão sobre o que realmente são medidas "populares",
especialmente num momento de crise, ou sobre o que o país espera
dos governantes em momentos difíceis. Um dos recursos de que se
pode lançar mão é um acordo com o FMI.
Não se deve perder de vista que a função primordial
do FMI é emprestar dinheiro a países impondo-lhes condições.
O tempo e a experiência serviram para aprimorar a qualidade dessas
recomendações, o que, todavia, não garante que as
exigências sejam sempre cem por cento corretas. Com freqüência,
a taxa de acerto é bem menor, e elevá-la depende muito dos
negociadores do lado de cá. Mas, mesmo que tudo esteja correto
e adequado, tecnicamente, um acordo com o FMI é uma violação
consentida à soberania. Da mesma forma como acontece com outras
convenções internacionais de que o Brasil participa, como
as referentes a direitos humanos, armas químicas, comércio
internacional e emissões de carbono.
Abster-se de emitir a própria moeda, por exemplo, pode parecer
um dano irreparável à identidade nacional. Mas diversos
países europeus o fizeram, e em benefício de um banco central
supranacional e totalmente independente.
Muita poesia, assim como muitos paradoxos, pode ser construída
sobre a identidade nacional e os danos a ela causados pelos acordos com
o FMI. Porém o problema concreto a debater é o que exatamente
o FMI está exigindo de nós. Se os requisitos consistem em
programas que já estamos tocando, inclusive porque fazem parte
da plataforma de um presidente eleito na plenitude democrática,
qual o problema em contar com o apoio internacional para ações
que estão em linha com os interesses nacionais?
A expressão "interesses nacionais" foi seqüestrada faz tempo
por minorias radicais que formulam as próprias interpretações
nesse campo sem se dar conta de que esse é um assunto decidido
nas urnas, e de que o presidente Fernando Henrique é quem tem a
autoridade para estabelecer se um acordo com o FMI é de interesse
para o país. Curiosamente, até a oposição
se manifestou favoravelmente sobre esse tema. A sensatez, às vezes,
é cometida pelas razões erradas.
Gustavo Franco é economista da PUC-RJ e
ex-presidente do Banco Central (gfranco@palavra.com)
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