BUSCA

Busca avançada      
FALE CONOSCO
Escreva para VEJA
Para anunciar
Abril SAC
REVISTAS
 

Comportamento
Unha, cabelo e muito mais

Para as muito vaidosas que ainda não completaram
12 anos, a ida semanal ao salão é só o básico. Elas
também mudam o formato dos dentes, fazem drenagem
linfática e até se internam em spa para perder peso


Bel Moherdaui

UMA IMPECÁVEL DUPLA DINÂMICA
Maria Isadora, 9, e Maria Victória, 12, brincam de boneca
e de se embonecar. Só escova progressiva já fizeram
mais de uma vez

Na casa das irmãs Maria Victória e Maria Isadora Silva, de 12 e 9 anos, bonecas concorrem por espaço no armário com bolsas (muitas, de variados tamanhos e marcas, estrangeiras inclusive), sapatos (sem e com salto), maquiagem e cremes, muitos cremes. Os livros são alternados com revistas de moda. "Sempre gostei de vê-las bem arrumadas. Tudo nelas é impecável", orgulha-se a mãe, Kyone Ojura, professora de balé. Isso inclui o sacrifício, cumprido com certo prazer, de acordar às 6 horas todo dia para fazer escova no cabelo das meninas. O penteado complementa os alisamentos feitos com a chamada escova progressiva. "Prefiro que sejam assim a que cresçam desleixadas. A mulher tem de ser feminina, tem por obrigação ser vaidosa, e esses hábitos, como fazer mão, pé, depilação, devem ser cultivados desde criança. É igual a escovar os dentes", argumenta Kyone, que já se acostumou a voltar das viagens de férias com folga de uma semana para que as filhas ponham a aparência em ordem no salão. "Outro dia a Maria Isadora disse para a diretora da escola que quando for mais velha vai colocar silicone, 1 000 litros de cada lado", conta a mãe, divertindo-se com a confusão da filha a respeito da medida das próteses – feita em mililitros, como todo mundo sabe.

Muito já se falou sobre o assunto, e muito ainda se falará. Com estímulos vindos da televisão, da internet, das outras crianças e das próprias mães, as meninas vão adotando atitudes cada vez mais precoces na maneira de agir, de se vestir e de se preocupar com a aparência. O movimento é ascendente: começa com meninas de 8 ou 9 anos fazendo pé, mão e cabelo uma vez por semana e desemboca nas mesmas garotinhas empenhadas, muito antes do que se esperaria, em limpar a pele, combater a celulite e até clarear os dentinhos. "Há dez anos, as pacientes mais novas tinham 14 anos. Hoje, têm 9 e já notam em si coisas como cravos e pele oleosa. Também usam filtro solar para não envelhecer cedo nem manchar a pele. São preocupações mais precoces", descreve a dermatologista carioca Karla Assed. "Antes elas vinham ao salão e só limpavam as unhas. Agora fazem francesinha, usam esmaltes de cores fortes, imploram para fazer escova progressiva", surpreende-se Cristiane Calçolari, sócia de um conhecido salão de São Paulo.

Nesse ambiente de expectativas inversas nas pontas e coincidentes no meio, em que mães querem parecer mais novas e filhas querem parecer mais velhas, a aspirante a atriz Laura Henares, 10 anos, acha muito importante ir bonita para a escola. "Começo a me trocar às 10 para poder sair às 12h50. Até escolher o colar, a sombra, o batom, fazer o cabelo, demora", diz ela. A mãe, a dermatologista Cláudia, conta que Laura via dois defeitos graves em sua aparência, os dentes superiores muito serrilhados e uma incipientíssima barriguinha. O primeiro foi solucionado pelo dentista Marcello Kyrillos, de uma clínica dentária especializada em estética em São Paulo. Kyrillos fez uma espécie de preenchimento de resina, que não exigiu o desgaste profundo do tratamento-padrão nem compromete o desenvolvimento futuro. "Antigamente, as meninas se preocupavam com a estética só no finzinho da adolescência, quando começavam a se maquiar. Agora, é tudo mais cedo", constata o dentista. "É normal os dentinhos nascerem meio tortos, separados, e irem fechando de acordo com o desenvolvimento do maxilar. Mas elas têm pressa, e é cada vez mais comum procurarem coisas puramente estéticas." Segundo Kyrillos, "as próprias mães perdem a referência do que é normal; por já terem feito clareamento ou colocado plaqueta, veem um dente normal e acham escuro". Dentes reformados, como Laura anda lidando com a imperceptível barriguinha? Vai aturando, que jeito. "O sonho dela é que eu arrume uma forma de exterminar a barriga", ri Cláudia – que já fez clareamento e plaquetas nos próprios dentes e, até pelas facilidades da profissão, cuida da pele com os mais avançados tratamentos.

Fotos Lailson Santos
BELEZINHAS PÕEM A MESA Gabriela (à dir.), 9, segue a dieta e adora a piscina
e a massagem do spa; Laura, 10, colocou resina para acertar a serrinha dos dentes

Exemplos extremos se multiplicam e evidentemente provocam reações muito críticas, às vezes descambando para o preconceito. Cuidados aparentemente excessivos com a aparência não são sinônimo de desajuste. Todas as meninas entrevistadas para esta reportagem brincam como crianças de sua idade, são boas alunas e vivem num ambiente familiar harmonioso. E até as mães mais despojadas encontram dificuldade em conter o processo desencadeado quando as filhas começam a escolher as próprias roupas, passar uma corzinha nas unhas e trocar informações estéticas com as amigas da escola. Quando as mães são vaidosas, as novidades são absorvidas com naturalidade. A dona de casa Carolina Arevalo Ramos, 36, nascida na Colômbia, radicada em São Paulo e mãe de duas meninas, Camila, 8, e Daniela, 6, relata como um fato da vida que a mais velha, entre outros procedimentos, já se submeteu a drenagem linfática, a massagem muito procurada por quem quer emagrecer. "A Cami estava um pouco gordinha. Fui com ela à endocrinologista e vimos que, além de dieta para perder peso, precisava eliminar um pouco de líquido, por isso começou a fazer drenagem. Experimentou ainda máscara facial para melhorar a pele", diz Carolina – que já fez tudo isso e tem implantes de silicone.

Os médicos se adaptam aos novos tempos e, no caso dos procedimentos mais leves, não veem inconvenientes. "Fazemos depilação a laser, tratamentos de estria e, se a acne começa a interferir na autoestima, tem de ser tratada também. Agora, se a menina de 10, 11 anos se queixa de celulite, digo para fazer ginástica", comenta a dermatologista Adriana Vilarinho. "Para crianças com menos de 12 anos, recomenda-se um cuidado maior na escolha dos produtos, que de preferência devem ser hipoalergênicos, porque sua pele é mais delicada e tanto perfume quanto pigmento podem causar uma dermatite. Equipamentos com laser, ultrassom ou radiofrequência têm de ser usados com muita moderação para evitar queimaduras. Nada é proibido, mas é preciso ter bom senso", acrescenta a dermatologista Andréia Mateus Moreira, coordenadora do departamento de cosmiatria da Sociedade Brasileira de Dermatologia. Filha de médico, a linda Maria Gabriela Moura, 9 anos, há três frequenta – a sério – o spa do pai. "Ela se hospedou com a mãe porque tinha muita dificuldade em comer verduras e legumes. Estava meio quilo acima do peso e perdeu seguindo apenas uma alimentação saudável, liberada nas quantidades. Aprendeu que precisa comer alimentos saudáveis durante toda a semana, começou a se empolgar com atividade física e, na parte estética, passou a se importar com a pele. Limpa toda noite antes de dormir", orgulha-se o endocrinologista Mauro Tadeu Moura, do Spa Med, que pretende expandir o programa kids – voltado a crianças com sobrepeso – a outras pequenas pacientes, dada a demanda. "Gosto de fazer massagem, de banho de pétalas de rosa e de nadar na piscina aquecida. Também adoro fazer penteado e a unha", conta Gabriela. "No ano passado eu estava mais gordinha, principalmente na barriga e nos ladinhos, mas prefiro ser magra. Fiquei uma semana no spa. Senti falta de bombom, na hora do lanche vinha pouca coisa, mas emagreci 2 quilos", gaba-se.

"Fazer tratamentos desse tipo esporadicamente pode ser até positivo, porque ensina e incentiva a menina a ter cuidados consigo própria. Mas regularmente, nessa idade, é exagero", diz a psicoterapeuta Mara Pusch, especialista em adolescentes e consultora de comportamento da Universidade Federal de São Paulo. Mas como estabelecer um equilíbrio entre os cuidados saudáveis e a valorização excessiva da aparência? Todo mundo já tem uma ideia do que é preciso. "A resposta está em dar limite. Não permitir tudo e explicar por que não, estabelecer uma idade. Deixar que se cuide, mas sem virar obsessão", recomenda Mara. Ou seja, mais difícil do que enfrentar uma escova progressiva.

 

Tal filha, tal mãe

Divulgaçaõ
PARCEIRAS NA TOXINA O primeiro Botox
de Jodie, aos 18, foi presente da mãe, Margaret

A psicologia é das mais básicas: a mãe que estimula cuidados estéticos exacerbados na filha está, na verdade, projetando nela suas fantasias. A menina "perfeita" é a idealização da própria imagem e causa, assim, intensa satisfação na mãe. As tensões naturais entre mãe e filha também se atenuam quando uma se transforma, magicamente, na outra. O equivalente masculino é o pai que se infla de orgulho quando dizem que seu garoto é inteligente, esperto ou um perfeito torcedor do time do coração. O sentimento de que os filhos são um "pedacinho" de nós mesmos, até melhorados, não tem nada de negativo. Ao contrário, contribui para o regime de dedicação incondicional e múltiplos cuidados necessários para criar um filho. A preocupação com cuidados estéticos pode causar desconforto em mães que não querem antecipar o julgamento com base na aparência que todas as meninas alguma vez vão enfrentar na vida. Outras, porém, se sentem perfeitamente à vontade nessa esfera. Há dois anos, no aniversário de 18 anos da filha Jodie, a inglesa Margaret King, 49, deu-lhe de presente uma injeção na testa – de Botox, para sumir com as primeiras ruguinhas.

"Jodie tem a testa como a minha, que fica cheia de linhas quando faz uma expressão facial. Eu sabia que Botox resolveria o problema", orgulha-se a dona de casa, que em si mesma calcula já ter gasto o equivalente a 148 000 reais com cirurgias plásticas de nariz, mamas, barriga e rosto, sem contar as aplicações da toxina botulínica feitas regularmente há onze anos. Jodie, hoje com 20 anos, segue pelo mesmo caminho: na última conta já havia gasto 3 200 reais em renovadas injeções de Botox e planeja para o futuro uma plástica de nariz e outra para aumentar os seios. "E daí se eu sou viciada em Botox? Não consigo pensar em nada pior do que ter cara de velha", diz. "Muitas dessas mães têm uma exigência alta de beleza em relação a suas filhas. São mulheres que conseguiram a independência, trabalham e têm um padrão de vida que sustenta o que veem como ideal. Se fazem regime, vão à academia, são magras, têm cabelos lisos e dentes alinhados, e acreditam que por causa de tudo isso são mais bem-aceitas pelos outros, a filha vai repetir esse comportamento", analisa a psicoterapeuta Mara Pusch, da Unifesp. Ser aceita e, sobretudo, aceitar-se é um processo que evidentemente envolve muito mais do que boa aparência. Mas as mulheres em geral dominam a psicologia básica e sabem muito bem como ela conta.



Publicidade
 
Publicidade

 
  VEJA | Veja São Paulo | Veja Rio | Expediente | Fale conosco | Anuncie | Newsletter |