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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo Se
não é enrascada, é bicicleta ergométrica
São esses os
dois desfechos possíveis do
esforço brasileiro para ganhar vaga vitalícia
no Conselho de Segurança
...E vamos nós, outra vez. Na semana passada, em sua enésima viagem
ao exterior, lá estava o presidente Lula, pela enésima vez, a angariar
apoios para a candidatura brasileira a membro permanente do Conselho de Segurança
das Nações Unidas. Na Coréia do Sul o pedido foi explícito.
No Japão não precisou, já que esse país, também
ele candidato a uma vaga vitalícia num Conselho de Segurança ampliado,
é sócio na empreitada. Ao mesmo tempo, o Itamaraty montava uma blitz
de visitas de seus diplomatas a sessenta países, em poucas semanas
do Butão a Papua Nova Guiné, de Tonga a Vanuatu para cabalar
votos. O país comportava-se como candidato à Academia Brasileira
de Letras na vertigem das visitas aos eleitores. Disso tudo podem resultar dois
desfechos. Um, improvável, é que dê certo e então
o país se verá numa enrascada. Outro é que dê errado
e então se terá assistido ao mais intenso exercício
de bicicleta ergométrica já empreendido por nossa diplomacia, do
tipo em que se pedala, pedala, sua, sua, e no fim não se saiu do lugar.
Examinemos os dois cenários, a começar pelo segundo.
Não é bem a candidatura brasileira que pode dar errado. Ou melhor,
ela também pode dar errado, mas antes disso há a forte possibilidade
de a própria reforma do Conselho de Segurança dar errado. Há
demasiados desencontros a atrapalhá-la. O Brasil, junto com Japão,
Alemanha e Índia, formalizou neste mês, num documento, a proposta
de ampliar o conselho, dos quinze membros atuais para 25, sendo que os membros
permanentes passariam de cinco (Estados Unidos, Rússia, França,
Inglaterra e China) para onze, e os rotativos de dez para catorze. O documento
não diz, mas é manifesto que os signatários pleiteiam quatro
das novas vagas permanentes, e aí começa o problema. A China opõe-se
à candidatura do Japão, dois rivais históricos, assim como
o Paquistão se opõe à da Índia, dois inimigos montados
ambos sobre arsenais nucleares. Nem precisaria continuar a enumeração
e dizer que a Itália se opõe à candidatura alemã e
que a Argentina (mais) e o México (um pouco menos) se opõem à
brasileira. Bastam aqueles dois confrontos, explosivos, para jogar a questão
no impasse. Não é plausível, nem seria sábio, que
tais questões sejam resolvidas no voto da Assembléia-Geral, com
o resultado de China ou Japão, Paquistão ou Índia saírem
feridos do embate. Mais admissível é a hipótese de que, para
não chegar a tanto, a reforma permaneça bloqueada.
Atrapalha a reforma, além disso, a ilusão em que se assenta. Seus
propugnadores, a começar pelo secretário-geral, Kofi Annan, mostram-se
cheios de boas intenções. O objetivo seria tornar o Conselho de
Segurança mais efetivo e consentâneo com a realidade do mundo atual.
Ocorre que a realidade do mundo atual é a avassaladora preponderância
dos Estados Unidos nas relações internacionais. Se o conselho não
tem sido efetivo, em seu objetivo de preservar a paz e a segurança no planeta,
isso não se dá por um defeito intrínseco seu. Quando esses
objetivos são do interesse dos EUA acontecem, e quando não são
não acontecem. Se os EUA querem invadir o Iraque, ninguém vai impedi-los.
Os EUA mantêm-se quietos, por enquanto, quanto à reforma, porque
seu dilema com a ONU é outro. Ou ela se põe a reboque de seus interesses,
e terá todo o apoio, ou se mantém contra, e continuará merecendo
seu mais profundo desprezo. O governo Bush chegou ao escárnio com a indicação,
para embaixador na organização, de John Bolton, um falcão
para o qual, se o prédio da ONU em Nova York perdesse dez andares, "não
faria a menor diferença". Vá que
esses e outros óbices sejam superados, a reforma seja feita e o Brasil
se eleja membro permanente do conselho. E daí? Para que mesmo é
que queremos tal posto? Fora invocações de "liderança regional",
"peso específico" e semelhantes lucubrações, isso nunca foi
posto claramente. Assim como o Fome Zero ou a transposição do São
Francisco, Lula abraça a causa porque fareja nela um bom rendimento, em
termos de marketing. Vai daí que a conduza num clima de Copa do Mundo e
de Brasil Grande. O que se pode vislumbrar de concreto, em caso de vitória
da pretensão brasileira, porém, não é animador. Para
começar, o país teria de passar de devedor crônico de suas
contribuições à ONU para sócio com maiores encargos
financeiros ainda. Também teria de explicitar sua posição
sobre os mais variados conflitos no mundo, do árabe-israelense à
guerra civil no Sudão, e manter uma tropa bem treinada e equipada
logo o Brasil, que mal-e-mal sustenta suas Forças Armadas para as
missões de paz. Mas isso não é o principal. Posto lado a
lado com o colosso americano, no mesmo foro, ao concordar com ele o país
arrisca fazer papel de cão fiel, como aliás já faz no Haiti,
e ao discordar arrisca criar fissuras que podem lhe custar caro. Bem pesadas as
coisas, o mais desejável é que a lengalenga em torno de um assento
no Conselho de Segurança não resulte mesmo senão num exercício
de bicicleta ergométrica. |