Edição 1907 . 1° de junho de 2005

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Um gigante do pensamento 

Uma biografia de Agostinho, o filósofo e
santo que moldou a idéia de vida interior  


Luiz Felipe Pondé

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Trecho do livro

Para o leitor que não é especializado em teologia, Santo Agostinho pode parecer um personagem obscuro, distante no tempo – como todo santo, uma incógnita. A biografia Santo Agostinho (tradução de Vera Ribeiro; Record; 672 páginas; 69,90 reais), do historiador irlandês Peter Brown, é útil para aproximar Agostinho de tal leitor. Brown ilumina grande parte da trajetória desse fundador da Igreja Católica, ainda que com irregular sucesso de síntese. Ele opta por uma narrativa em que há poucas referências à fina discussão teológica de Agostinho – prefere retratá-lo apenas como um fundador da hierarquia católica. Mas em um ponto Brown faz justiça a Agostinho: a biografia revela a importância fundamental do autor de Confissões para a concepção moderna de subjetividade. Não por acaso, Agostinho tem sido comparado a Sigmund Freud, o fundador da psicanálise.

Uma das características interessantes da biografia é apresentar o contexto histórico em que atuou o santo filósofo. Agostinho viveu entre os anos 354 e 430 e foi bispo de Hipona, no norte da África, onde hoje fica a Argélia – era o lado provinciano do Império Romano. De família pobre, filho de pai pagão e mãe cristã – Santa Mônica, que exerceu grande influência sobre a conversão do filho –, Agostinho recebeu uma razoável educação em retórica, literatura clássica latina e filosofia. Foi um brilhante professor de retórica até se envolver com a filosofia platônica, o maniqueísmo e, finalmente, o cristianismo católico romano. Teve um filho e viveu com uma mulher, até abandoná-la pela vida religiosa. Consagrou-se já em vida como uma das maiores referências do pensamento cristão emergente. Para a posteridade, só Santo Tomás de Aquino, no século XIII, se equipara a Agostinho como um pilar da teologia católica. E não só para a católica: atormentado pela questão da origem do Mal, Agostinho elaborou – em polêmica com Pelágio, outro teólogo da época – uma teoria da graça divina que exerceria grande influência sobre a reforma protestante de Lutero e Calvino, no século XVI.

Entre o político administrador do cristianismo nascente e o teólogo do mal e da graça, Brown se sai bem no primeiro caso, mas tem sucesso limitado no segundo. A discussão teológica do biógrafo é irregular. Faz uma razoável reconstituição da crise juvenil de Agostinho, então um adepto do "cristão heterodoxo" Mani, em sua migração para o catolicismo. Na doutrina dualista de Mani – o maniqueísmo –, o mundo material era produto do princípio do Mal, a ser combatido pelos filhos da Luz, o princípio do Bem. A natureza prática e diligente de Agostinho logo percebeu a inviabilidade das exigências excessivamente idealistas do maniqueísmo perante o mundo real. Mas a importante polêmica contra Pelágio é um momento infeliz da biografia. Pelágio acreditava numa natureza humana sem a maldição do pecado original. Agostinho, ao contrário, não tinha a mesma confiança no alcance do livre-arbítrio humano: sem a ação da graça divina, a salvação seria impossível. Essa controvérsia fundou a reflexão cristã latina sobre a relação entre natureza humana e mal. Sob a pena de Brown, porém, toda a discussão parece uma reles disputa por poder conduzida por um Agostinho dogmático.

Um dos melhores momentos de Brown é o modo como descreve a importância de Agostinho para a posterior idéia de subjetividade moderna. Na descrição autobiográfica nas Confissões, Agostinho cria a noção de espaço interior como campo da verdade essencial do homem (verdade e Deus devem ser buscados na alma, e não no mundo exterior). Esse método "interior" será preservado na literatura mística cristã medieval e moderna e na observação moral severa de si mesmo levada a cabo pelos protestantes a partir do século XVI. Chegaria ao existencialismo de Kierkegaard, no século XIX, e com este ao pensamento moderno em psicologia. Agostinho viveu há mais de 1.500 anos – mas continua atualíssimo.

 

Milagres da inteligência

A influência e as intuições de Santo Agostinho
em várias áreas do conhecimento

• Teologia
Ele teve papel crucial na fixação da hierarquia na Igreja Católica e fez a síntese entre a filosofia grega e o pensamento cristão. Suas idéias influenciaram as reformas protestantes  

• Literatura
A obra Confissões, em que narra a juventude e sua conversão, é tida como a primeira autobiografia relevante da história

• Psicologia
O santo fixou a idéia da vida interior do homem como o palco essencial da construção da identidade – uma noção que seria cara à psicanálise  

• Ciência
Agostinho acreditava que o tempo não existia antes de Deus criar o mundo. Essa intuição se aproxima do modo como a física moderna concebe o início do tempo e do universo

 

Luiz Felipe Pondé é filósofo e professor de teologia

 
 
 
 
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