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Livros Um
gigante do pensamento Uma biografia de Agostinho,
o filósofo e santo que moldou a idéia de vida interior
 Luiz
Felipe Pondé
Para o leitor que não
é especializado em teologia, Santo Agostinho pode parecer um personagem
obscuro, distante no tempo como todo santo, uma incógnita. A biografia
Santo Agostinho (tradução de Vera Ribeiro; Record;
672 páginas; 69,90 reais), do historiador irlandês Peter Brown, é
útil para aproximar Agostinho de tal leitor. Brown ilumina grande parte
da trajetória desse fundador da Igreja Católica, ainda que com irregular
sucesso de síntese. Ele opta por uma narrativa em que há poucas
referências à fina discussão teológica de Agostinho
prefere retratá-lo apenas como um fundador da hierarquia católica.
Mas em um ponto Brown faz justiça a Agostinho: a biografia revela a importância
fundamental do autor de Confissões para a concepção
moderna de subjetividade. Não por acaso, Agostinho tem sido comparado a
Sigmund Freud, o fundador da psicanálise.
Uma das características interessantes da biografia é apresentar
o contexto histórico em que atuou o santo filósofo. Agostinho viveu
entre os anos 354 e 430 e foi bispo de Hipona, no norte da África, onde
hoje fica a Argélia era o lado provinciano do Império Romano.
De família pobre, filho de pai pagão e mãe cristã
Santa Mônica, que exerceu grande influência sobre a conversão
do filho , Agostinho recebeu uma razoável educação
em retórica, literatura clássica latina e filosofia. Foi um brilhante
professor de retórica até se envolver com a filosofia platônica,
o maniqueísmo e, finalmente, o cristianismo católico romano. Teve
um filho e viveu com uma mulher, até abandoná-la pela vida religiosa.
Consagrou-se já em vida como uma das maiores referências do pensamento
cristão emergente. Para a posteridade, só Santo Tomás de
Aquino, no século XIII, se equipara a Agostinho como um pilar da teologia
católica. E não só para a católica: atormentado pela
questão da origem do Mal, Agostinho elaborou em polêmica com
Pelágio, outro teólogo da época uma teoria da graça
divina que exerceria grande influência sobre a reforma protestante de Lutero
e Calvino, no século XVI. Entre o político
administrador do cristianismo nascente e o teólogo do mal e da graça,
Brown se sai bem no primeiro caso, mas tem sucesso limitado no segundo. A discussão
teológica do biógrafo é irregular. Faz uma razoável
reconstituição da crise juvenil de Agostinho, então um adepto
do "cristão heterodoxo" Mani, em sua migração para o catolicismo.
Na doutrina dualista de Mani o maniqueísmo , o mundo material
era produto do princípio do Mal, a ser combatido pelos filhos da Luz, o
princípio do Bem. A natureza prática e diligente de Agostinho logo
percebeu a inviabilidade das exigências excessivamente idealistas do maniqueísmo
perante o mundo real. Mas a importante polêmica contra Pelágio é
um momento infeliz da biografia. Pelágio acreditava numa natureza humana
sem a maldição do pecado original. Agostinho, ao contrário,
não tinha a mesma confiança no alcance do livre-arbítrio
humano: sem a ação da graça divina, a salvação
seria impossível. Essa controvérsia fundou a reflexão cristã
latina sobre a relação entre natureza humana e mal. Sob a pena de
Brown, porém, toda a discussão parece uma reles disputa por poder
conduzida por um Agostinho dogmático. Um
dos melhores momentos de Brown é o modo como descreve a importância
de Agostinho para a posterior idéia de subjetividade moderna. Na descrição
autobiográfica nas Confissões, Agostinho cria a noção
de espaço interior como campo da verdade essencial do homem (verdade e
Deus devem ser buscados na alma, e não no mundo exterior). Esse método
"interior" será preservado na literatura mística cristã medieval
e moderna e na observação moral severa de si mesmo levada a cabo
pelos protestantes a partir do século XVI. Chegaria ao existencialismo
de Kierkegaard, no século XIX, e com este ao pensamento moderno em psicologia.
Agostinho viveu há mais de 1.500 anos mas continua atualíssimo.
Milagres da inteligência A
influência e as intuições de Santo Agostinho em várias
áreas do conhecimento • Teologia Ele
teve papel crucial na fixação da hierarquia na Igreja Católica
e fez a síntese entre a filosofia grega e o pensamento cristão.
Suas idéias influenciaram as reformas protestantes •
Literatura A obra Confissões, em que narra a juventude e
sua conversão, é tida como a primeira autobiografia relevante da
história • Psicologia O santo
fixou a idéia da vida interior do homem como o palco essencial da construção
da identidade uma noção que seria cara à psicanálise
• Ciência Agostinho acreditava
que o tempo não existia antes de Deus criar o mundo. Essa intuição
se aproxima do modo como a física moderna concebe o início do tempo
e do universo | | Luiz
Felipe Pondé é filósofo e professor de teologia |