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Cinema Socorro:
o planeta sumiu O Guia do Mochileiro das
Galáxias tem nonsense e filosofia.
E é também uma ótima, e divertida, adaptação
da série criada por Douglas Adams 
Isabela Boscov
Divulgação  |
| Freeman como Arthur, o último terráqueo: um universo
repleto de burocratas e incompetentes |
Quem
planeja viajar de carona pelo espaço deve sempre: não entrar em
pânico; ter sua toalha à mão; saber que, se os vogons pegarem
um caronista em suas naves, vão torturá-lo até a morte com
leituras de sua poesia intragável. Esses conselhos são particularmente
úteis para pessoas como Arthur Dent, o protagonista de O Guia do
Mochileiro das Galáxias (The Hitchhiker's Guide to the Galaxy,
Inglaterra/Estados Unidos, 2005), que estréia nesta sexta-feira no país.
Depois de ignorar os insistentes alertas dos golfinhos achando que eles
não passam de saltos e piruetas , a humanidade perde seu planeta,
demolido pelos alienígenas vogons para dar lugar a um viaduto intergaláctico.
Arthur (Martin Freeman, da série The Office) é salvo por
seu amigo Ford Prefect (o rapper Mos Def), que na verdade vem não do interior
da Inglaterra, mas de algum lugar na constelação de Betelgeuse,
e trabalha como pesquisador para a publicação que dá nome
ao filme. Arthur torna-se assim um dos dois últimos terráqueos do
universo, o outro sendo sua quase-namorada Trillian (Zooey Deschanel), que escapou
da destruição por ter se engraçado com o presidente da galáxia,
o tolo e vaidoso Zaphod Beeblebrox (Sam Rockwell).
Ainda vestido com o pijama com que acordou na manhã da grande demolição,
Arthur vai experimentar simultaneamente o máximo em choque cultural e uma
estranha familiaridade: como a Terra, o restante da galáxia tem burocratas,
políticos incompetentes, multidões sem opinião própria
e supercomputadores que agem de forma obtusa sem falar na dificuldade que
é conseguir uma xícara de chá decente. O Guia do Mochileiro
representa, assim, não uma, mas duas ótimas notícias: uma
ficção científica que é também uma sátira
deliciosamente irreverente ao tom apocalíptico do gênero e uma adaptação
honrosa da popularíssima criação do escritor inglês
Douglas Adams (1952-2001). Adams
começou O Guia do Mochileiro como um programa de rádio, em
1978, e logo o expandiu para formatos variados: uma fiada de livros (retraduzidos
e relançados no Brasil pela editora Sextante), uma série de televisão
e novas séries radiofônicas, que arrebataram uma legião de
fãs tão zelosos de seu objeto de culto quanto os de Jornada nas
Estrelas ou Star Wars. Daí o temor que cercou essa passagem
para o cinema. Douglas fez vários esboços de roteiro, mas morreu
sem ter dado forma final a eles. Foi desses rascunhos que o roteirista Karey Kirkpatrick
(de A Fuga das Galinhas) e o diretor estreante Garth Jennings partiram.
O resultado é que o filme preserva o humor de Adams que, como o
do grupo Monty Python, usa o nonsense como ferramenta para reflexões cáusticas
sobre a pequenez humana , mas sem deixar de atender às exigências
da platéia habituada aos efeitos especiais. Um exemplo desse casamento
está na cena em que Arthur é levado pelo engenheiro Slartibartfast
(Bill Nighy) por um passeio ao que será a Terra II: detalhes surreais,
como o de operários enchendo os futuros oceanos com mangueiras, combinam-se
a uma visão poética (e muito bem executada) de um universo em formação.
Boa parte da graça de O
Guia do Mochileiro está na prosa espirituosa de Adams, manifestada
principalmente nos textos do guia (que, informa o escritor, se tornou um best-seller
por trazer em letras grandes e amigáveis, na capa, os dizeres "Não
entre em pânico"). A versão brasileira do filme se vale de um recurso
insólito, mas eficiente, para garantir que o humor de Adams não
se perca em metros e metros de legendas: os diálogos estão no inglês
original, mas a narração vem em boa tradução, e em
interpretação inspirada, a cargo de José Wilker. Se no universo
podem existir políticos com duas cabeças e robôs depressivos
como Marvin, que deveria ajudar o herói mas não tem energia para
nada, então não deve haver nenhuma regra que proíba um filme
de falar com a platéia na língua que mais lhe convenha.
| "Um cientista. Mas engraçado"
Divulgação  |
| Marvin, o robô depressivo: sem energia para nada |
Para a legião de admiradores de O Guia do Mochileiro
das Galáxias, o escritor Douglas Noël Adams era, antes de tudo,
um comediante com um senso apurado das vicissitudes da espécie humana.
Para cientistas como o britânico Richard Dawkins, ele era um dos seus: um
diletante, mas com conhecimentos extraordinários de física, biologia
e tecnologia, com quem se podia conversar de igual para igual e não raro
tirar dúvidas. Dawkins, que ficou amigo de Adams ao mandar para ele uma
carta de fã arrebatado, foi um dos muitos que falaram no funeral do escritor,
em 2001, ainda sob o choque de perdê-lo em razão de um infarto, aos
49 anos. Em seu discurso, ele lembrou como Adams se orgulhava de suas iniciais
serem DNA e de ter nascido em Cambridge, em 1952 um ano antes de a molécula
do código genético ser desvendada na universidade local. Dawkins
definiu assim o escritor: "Ele pensava como um cientista, só que era muito
mais engraçado". Adams era também um ambientalista ferrenho, que
certa vez subiu o Monte Kilimanjaro vestido de rinoceronte para protestar contra
a matança desses animais, e que se opunha com vigor à tese de que
o Homo sapiens é a culminação da vida na Terra
seria o mesmo que uma poça d'água achar que o buraco em que ela
está foi criado para que ela existisse, comparou. É essa perspectiva,
tão cômica quanto filosófica, que faz de O Guia do Mochileiro
uma criação única. | | |