Edição 1907 . 1° de junho de 2005

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Cinema
Socorro: o planeta sumiu

O Guia do Mochileiro das Galáxias tem
nonsense e filosofia. E é também uma
ótima, e divertida, adaptação da série
criada por Douglas Adams


Isabela Boscov


Divulgação
Freeman como Arthur, o último terráqueo: um universo repleto de burocratas e incompetentes

EXCLUSIVO ON-LINE
Fotos do filme

DA INTERNET
Trailer

Quem planeja viajar de carona pelo espaço deve sempre: não entrar em pânico; ter sua toalha à mão; saber que, se os vogons pegarem um caronista em suas naves, vão torturá-lo até a morte com leituras de sua poesia intragável. Esses conselhos são particularmente úteis para pessoas como Arthur Dent, o protagonista de O Guia do Mochileiro das Galáxias (The Hitchhiker's Guide to the Galaxy, Inglaterra/Estados Unidos, 2005), que estréia nesta sexta-feira no país. Depois de ignorar os insistentes alertas dos golfinhos – achando que eles não passam de saltos e piruetas –, a humanidade perde seu planeta, demolido pelos alienígenas vogons para dar lugar a um viaduto intergaláctico. Arthur (Martin Freeman, da série The Office) é salvo por seu amigo Ford Prefect (o rapper Mos Def), que na verdade vem não do interior da Inglaterra, mas de algum lugar na constelação de Betelgeuse, e trabalha como pesquisador para a publicação que dá nome ao filme. Arthur torna-se assim um dos dois últimos terráqueos do universo, o outro sendo sua quase-namorada Trillian (Zooey Deschanel), que escapou da destruição por ter se engraçado com o presidente da galáxia, o tolo e vaidoso Zaphod Beeblebrox (Sam Rockwell).

Ainda vestido com o pijama com que acordou na manhã da grande demolição, Arthur vai experimentar simultaneamente o máximo em choque cultural e uma estranha familiaridade: como a Terra, o restante da galáxia tem burocratas, políticos incompetentes, multidões sem opinião própria e supercomputadores que agem de forma obtusa – sem falar na dificuldade que é conseguir uma xícara de chá decente. O Guia do Mochileiro representa, assim, não uma, mas duas ótimas notícias: uma ficção científica que é também uma sátira deliciosamente irreverente ao tom apocalíptico do gênero e uma adaptação honrosa da popularíssima criação do escritor inglês Douglas Adams (1952-2001).

Adams começou O Guia do Mochileiro como um programa de rádio, em 1978, e logo o expandiu para formatos variados: uma fiada de livros (retraduzidos e relançados no Brasil pela editora Sextante), uma série de televisão e novas séries radiofônicas, que arrebataram uma legião de fãs tão zelosos de seu objeto de culto quanto os de Jornada nas Estrelas ou Star Wars. Daí o temor que cercou essa passagem para o cinema. Douglas fez vários esboços de roteiro, mas morreu sem ter dado forma final a eles. Foi desses rascunhos que o roteirista Karey Kirkpatrick (de A Fuga das Galinhas) e o diretor estreante Garth Jennings partiram. O resultado é que o filme preserva o humor de Adams – que, como o do grupo Monty Python, usa o nonsense como ferramenta para reflexões cáusticas sobre a pequenez humana –, mas sem deixar de atender às exigências da platéia habituada aos efeitos especiais. Um exemplo desse casamento está na cena em que Arthur é levado pelo engenheiro Slartibartfast (Bill Nighy) por um passeio ao que será a Terra II: detalhes surreais, como o de operários enchendo os futuros oceanos com mangueiras, combinam-se a uma visão poética (e muito bem executada) de um universo em formação.

Boa parte da graça de O Guia do Mochileiro está na prosa espirituosa de Adams, manifestada principalmente nos textos do guia (que, informa o escritor, se tornou um best-seller por trazer em letras grandes e amigáveis, na capa, os dizeres "Não entre em pânico"). A versão brasileira do filme se vale de um recurso insólito, mas eficiente, para garantir que o humor de Adams não se perca em metros e metros de legendas: os diálogos estão no inglês original, mas a narração vem em boa tradução, e em interpretação inspirada, a cargo de José Wilker. Se no universo podem existir políticos com duas cabeças e robôs depressivos como Marvin, que deveria ajudar o herói mas não tem energia para nada, então não deve haver nenhuma regra que proíba um filme de falar com a platéia na língua que mais lhe convenha.

 

"Um cientista. Mas engraçado"

Divulgação
Marvin, o robô depressivo: sem energia para nada

Para a legião de admiradores de O Guia do Mochileiro das Galáxias, o escritor Douglas Noël Adams era, antes de tudo, um comediante com um senso apurado das vicissitudes da espécie humana. Para cientistas como o britânico Richard Dawkins, ele era um dos seus: um diletante, mas com conhecimentos extraordinários de física, biologia e tecnologia, com quem se podia conversar de igual para igual e não raro tirar dúvidas. Dawkins, que ficou amigo de Adams ao mandar para ele uma carta de fã arrebatado, foi um dos muitos que falaram no funeral do escritor, em 2001, ainda sob o choque de perdê-lo em razão de um infarto, aos 49 anos. Em seu discurso, ele lembrou como Adams se orgulhava de suas iniciais serem DNA e de ter nascido em Cambridge, em 1952 – um ano antes de a molécula do código genético ser desvendada na universidade local. Dawkins definiu assim o escritor: "Ele pensava como um cientista, só que era muito mais engraçado". Adams era também um ambientalista ferrenho, que certa vez subiu o Monte Kilimanjaro vestido de rinoceronte para protestar contra a matança desses animais, e que se opunha com vigor à tese de que o Homo sapiens é a culminação da vida na Terra – seria o mesmo que uma poça d'água achar que o buraco em que ela está foi criado para que ela existisse, comparou. É essa perspectiva, tão cômica quanto filosófica, que faz de O Guia do Mochileiro uma criação única.

 
 
 
 
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