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DVD Já
não tão rebelde Uma coleção
com os três filmes de James Dean ajuda a revisar o lugar do ator
na história  Isabela
Boscov
Divulgação
 | | Dean
em Vidas Amargas: de maneirista a ícone do cinema |
Nunca o cinema produziu um fenômeno semelhante a James Dean: pouco mais
de um ano de carreira, e uma idolatria que perdura há meio século.
Uma coleção lançada agora em DVD, com os três filmes
que Dean estrelou em sua brevíssima passagem por Hollywood, ajuda em parte
a entender esse culto e, por outra parte, levanta dúvidas sobre
quanto ele teria persistido sem o auxílio de um diretor sagaz e de uma
morte trágica. Vistos na ordem correta, Vidas Amargas (que estava
inédito em vídeo no Brasil), Juventude Transviada e Assim
Caminha a Humanidade dão uma pista sobre os rumos que a carreira de
Dean poderia ter tomado caso ele tivesse sobrevivido ao acidente que o matou aos
24 anos num Porsche Spyder, em 30 de setembro de 1955 e eles não
parecem tão gloriosos quanto hoje se imagina.
Os dramas pessoais de Dean são célebres. Órfão de
mãe aos 9 anos, ele foi despachado para a fazenda de seus avós,
no interior de Indiana, no mesmo trem que levava o caixão. Seu pai prometeu
comparecer ao funeral, mas não deu as caras. E assim, distante do filho,
se manteve sempre. É costume creditar a essas perdas a personalidade anti-social
de Dean, e atribui-se também a elas seu dom genuíno, aliás
para exprimir dor, frustração e o desejo de rebelião,
características que se teriam agravado quando a namorada do ator, Pier
Angeli, o trocou pelo cantor Vic Damone. Hoje, porém, é mais do
que sabido que parte do desajuste que Dean exprimia tão bem vinha de sua
bissexualidade, que ia rapidamente se definindo como homossexualidade. Os copiosos
extras que acompanham cada disco duplo da coleção também
ajudam a dar uma remexida nessa biografia oficial. Trechos de alguns dos cerca
de quarenta teleteatros que Dean fez antes de migrar para o cinema mostram um
ator que tenta imitar, com maneirismos insuportáveis, o grande ídolo
que acabara de estourar Marlon Brando.
O primeiro golpe de sorte de Dean foi ter ganho o papel principal de Vidas
Amargas e, com ele, a orientação do diretor Elia Kazan. O filme
trata de um rapaz que disputa a afeição paterna com seu irmão
mais velho e, nos bastidores, Kazan estimulava toda sorte de manha e hostilidade
entre o protagonista e seus coadjuvantes, até lapidar o que se tornaria
uma atuação memorável. Seu segundo momento decisivo foi estrelar
Juventude Transviada, pioneiro em retratar com alguma veracidade a rebelião
da adolescência. Juventude estreou menos de um mês depois da
morte de Dean, e a pertinácia da ficção se somou à
tragédia real para criar um dos mais duradouros ícones do cinema.
É em Assim Caminha a Humanidade, porém, que se pode vislumbrar
quão efêmero ele poderia ter sido. Nas mãos de George Stevens,
um diretor mais convencional do que Kazan ou Nicholas Ray, vê-se Dean de
volta a uma imitação superficial e titubeante de Brando, incapaz
de projetar o carisma de suas interpretações anteriores. Dean talvez
não fosse apenas uma fabricação do momento. Mas, não
tivesse ficado cristalizado nele, não teria chegado tão perto da
imortalidade. |