Edição 1907 . 1° de junho de 2005

Índice
Lya Luft
Millôr
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

DVD
Já não tão rebelde

Uma coleção com os três filmes
de James Dean ajuda a revisar
o lugar do ator na história


Isabela Boscov

 

Divulgação
Dean em Vidas Amargas: de maneirista a ícone do cinema

Nunca o cinema produziu um fenômeno semelhante a James Dean: pouco mais de um ano de carreira, e uma idolatria que perdura há meio século. Uma coleção lançada agora em DVD, com os três filmes que Dean estrelou em sua brevíssima passagem por Hollywood, ajuda em parte a entender esse culto – e, por outra parte, levanta dúvidas sobre quanto ele teria persistido sem o auxílio de um diretor sagaz e de uma morte trágica. Vistos na ordem correta, Vidas Amargas (que estava inédito em vídeo no Brasil), Juventude Transviada e Assim Caminha a Humanidade dão uma pista sobre os rumos que a carreira de Dean poderia ter tomado caso ele tivesse sobrevivido ao acidente que o matou aos 24 anos num Porsche Spyder, em 30 de setembro de 1955 – e eles não parecem tão gloriosos quanto hoje se imagina.

Os dramas pessoais de Dean são célebres. Órfão de mãe aos 9 anos, ele foi despachado para a fazenda de seus avós, no interior de Indiana, no mesmo trem que levava o caixão. Seu pai prometeu comparecer ao funeral, mas não deu as caras. E assim, distante do filho, se manteve sempre. É costume creditar a essas perdas a personalidade anti-social de Dean, e atribui-se também a elas seu dom – genuíno, aliás – para exprimir dor, frustração e o desejo de rebelião, características que se teriam agravado quando a namorada do ator, Pier Angeli, o trocou pelo cantor Vic Damone. Hoje, porém, é mais do que sabido que parte do desajuste que Dean exprimia tão bem vinha de sua bissexualidade, que ia rapidamente se definindo como homossexualidade. Os copiosos extras que acompanham cada disco duplo da coleção também ajudam a dar uma remexida nessa biografia oficial. Trechos de alguns dos cerca de quarenta teleteatros que Dean fez antes de migrar para o cinema mostram um ator que tenta imitar, com maneirismos insuportáveis, o grande ídolo que acabara de estourar – Marlon Brando.

O primeiro golpe de sorte de Dean foi ter ganho o papel principal de Vidas Amargas e, com ele, a orientação do diretor Elia Kazan. O filme trata de um rapaz que disputa a afeição paterna com seu irmão mais velho – e, nos bastidores, Kazan estimulava toda sorte de manha e hostilidade entre o protagonista e seus coadjuvantes, até lapidar o que se tornaria uma atuação memorável. Seu segundo momento decisivo foi estrelar Juventude Transviada, pioneiro em retratar com alguma veracidade a rebelião da adolescência. Juventude estreou menos de um mês depois da morte de Dean, e a pertinácia da ficção se somou à tragédia real para criar um dos mais duradouros ícones do cinema. É em Assim Caminha a Humanidade, porém, que se pode vislumbrar quão efêmero ele poderia ter sido. Nas mãos de George Stevens, um diretor mais convencional do que Kazan ou Nicholas Ray, vê-se Dean de volta a uma imitação superficial e titubeante de Brando, incapaz de projetar o carisma de suas interpretações anteriores. Dean talvez não fosse apenas uma fabricação do momento. Mas, não tivesse ficado cristalizado nele, não teria chegado tão perto da imortalidade.

 
 
 
 
topovoltar