Edição 1907 . 1° de junho de 2005

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"De pé, a madame chegou"

Como a embaixatriz Lúcia Flecha de Lima
se tornou imperatriz no governo de Brasília


Camila Antunes, de Brasília

Ana Araújo
Lúcia, em sua casa: agenda de 14 000 telefones, amizades inquebrantáveis e um copeiro parecido com Severino

A embaixatriz Lúcia Flecha de Lima teve de aprender a conviver com a inveja desde cedo. Nos anos 60, era considerada uma das mulheres mais bonitas de Brasília. Suas pernas eram tão famosas quanto as de Hebe Camargo. Nos anos 70, às formas exuberantes e ao sorriso encantador acrescentou-se o traquejo social. Quando sua beleza encontrou o outono, Lúcia passou a atrair inveja por sua amizade com a princesa Diana e a ex-primeira-dama americana Hillary Clinton, celebridades que conheceu quando o marido, Paulo Tarso Flecha de Lima, serviu em Londres e em Washington. Agora, aos 65 anos, Lúcia acha que a idade lhe deu o direito de ser "um pouco matrona". Ela não provoca mais tanto frisson entre os homens, está certo, e vai longe a época das recepções elegantérrimas (por culpa da geografia, claro, que a colocou longe do circuito Elizabeth Arden). Mas Lúcia ainda é capaz de causar alvoroço. Há dois anos, tornou-se secretária de Turismo do Distrito Federal. Acreditava-se que, na função, ela seria apenas um diamante lapidado a refulgir em meio às pedras brutas (e não tão preciosas) que compõem a equipe do governador Joaquim Roriz. Engano não tão ledo para alguns. Lúcia decidiu ser uma secretária de Turismo que viaja por diferentes paisagens. Até nas negociações entre a Varig e a TAP ela andou metendo sua colher – sempre de prata. E surpreendeu ao mostrar que, quando lhe convém, ignora as regras da diplomacia. Já brigou com políticos, empresários e colegas. Dona de um espetacular senso de sobrevivência no governo, Lúcia agarrou-se à cadeira, porque, no futuro, quer ser invejada também pela competência.

O histórico de confusões da embaixatriz fez com que o governador Roriz cogitasse demiti-la. Em março, ele pretendia aproveitar uma reforma do secretariado para transferi-la de posto. O senador Paulo Octávio tomou a iniciativa de levar a notícia a Lúcia, oferecendo-lhe uma possível mudança para a Secretaria de Cultura. Paulo Octávio tocou no assunto num jantar na casa do presidente do Senado, Renan Calheiros. Lúcia não se conteve e passou uma descompostura no senador: "Se o governador quiser, que me demita pessoalmente". Paulo Octávio não demoraria a levar seu troco. Lúcia descobriu que os hotéis de Brasília haviam aumentado os preços das diárias às vésperas daquela bizarra Cúpula América do Sul–Países Árabes. Enfurecida, bateu o pé e forçou-os a voltar atrás. Adivinhe qual foi um dos empresários do setor que mais perderam. Paulo Octávio, dono de alguns dos hotéis mais caros da cidade. Entre seus colegas, o desafeto maior é o presidente do Fórum dos Secretários de Turismo, Marcelo Safadi, de Goiás. A embaixatriz acha que ele só pensa em se promover. Num encontro dos secretários, ela atacou-o na frente de quarenta pessoas. "Você não presta. Seu governador me disse que nem ele te agüenta", disse Lúcia. "Prefiro esquecer esse constrangimento", desconversa Safadi.

Joaquim Roriz faz de tudo para não bater de frente com Lúcia. Em primeiro lugar, por uma dívida pessoal. Enquanto morava em Washington, ela arregimentou doadores de remédios para um neto hemofílico do governador. Outro motivo é que Roriz tem uma certa dependência da agenda de telefones da sua subordinada. A agenda é o exemplo mais concreto da influência de Lúcia. Contabiliza nada mais, nada menos do que os números de 14.000 pessoas, várias delas amizades inquebrantáveis, como a do senador Antonio Carlos Magalhães. O prestígio de Lúcia e do embaixador Paulo Tarso garantiu o acesso do Distrito Federal a empréstimos internacionais. Logo que Roriz chegou ao governo, Paulo Tarso marcou-lhe uma audiência com o presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Enrique Iglesias. Roriz saiu do encontro com a promessa de financiamentos para projetos ambientais e de transporte coletivo. Em fevereiro, o governador tentou uma nova incursão pelo exterior. Queria discutir com a Organização das Nações Unidas a construção de uma sede da instituição em Brasília, mas não conseguia ser recebido. Com um simples telefonema, Lúcia marcou uma reunião em Nova York, em pleno sábado. Roriz arrumou até uma vaguinha no funeral do papa João Paulo II. Quem arranjou? Ela, Lúcia.

Para uma mulher tão refinada, o cenário de uma secretaria brasiliense não é exatamente a moldura mais apropriada. A embaixatriz faz o que pode para melhorá-lo. Decorou o gabinete com móveis próprios e impôs a etiqueta dos diplomatas aos seus funcionários. Os homens foram obrigados a usar terno e gravata. Apavorado com a exigência, um contínuo pediu transferência a Roriz. "A imperatriz quer que eu use paletó e eu não tenho dinheiro para comprar", explicou. Depois dessa gafe do serviçal, Lúcia passou a ser chamada de imperatriz (pelos invejosos, e sempre pelas costas, claro). Talvez em virtude da estreita convivência com a finada princesa de Gales, a imperatriz, ou melhor, a embaixatriz, exige que os funcionários se levantem quando ela chega. Lúcia estendeu a norma aos seus colegas do secretariado e até a Roriz. "De pé, a madame chegou", dizem os malvados quando ela se aproxima. À tarde, um garçom de jaqueta branca de botões dourados (muito parecido com Severino Cavalcanti, fazer o quê?) lhe serve pães de queijo e cappuccinos – na porcelana que a chefe trouxe de casa, of course. Na semana passada, Lúcia soube que um deputado a descreveu como "sedutora, no melhor sentido da palavra". Ela o ignorou. "Na Câmara tem cada um que eu prefiro até dispensar o elogio", disse a embaixatriz. Noblesse oblige.

 
 
 
 
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