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Perfil "De
pé, a madame chegou" Como a embaixatriz
Lúcia Flecha de Lima se tornou imperatriz no governo de Brasília
 Camila
Antunes, de Brasília
Ana
Araújo
 | | Lúcia,
em sua casa: agenda de 14 000 telefones, amizades inquebrantáveis e um
copeiro parecido com Severino |
A embaixatriz
Lúcia Flecha de Lima teve de aprender a conviver com a inveja desde cedo.
Nos anos 60, era considerada uma das mulheres mais bonitas de Brasília.
Suas pernas eram tão famosas quanto as de Hebe Camargo. Nos anos 70, às
formas exuberantes e ao sorriso encantador acrescentou-se o traquejo social. Quando
sua beleza encontrou o outono, Lúcia passou a atrair inveja por sua amizade
com a princesa Diana e a ex-primeira-dama americana Hillary Clinton, celebridades
que conheceu quando o marido, Paulo Tarso Flecha de Lima, serviu em Londres e
em Washington. Agora, aos 65 anos, Lúcia acha que a idade lhe deu o direito
de ser "um pouco matrona". Ela não provoca mais tanto frisson entre os
homens, está certo, e vai longe a época das recepções
elegantérrimas (por culpa da geografia, claro, que a colocou longe do circuito
Elizabeth Arden). Mas Lúcia ainda é capaz de causar alvoroço.
Há dois anos, tornou-se secretária de Turismo do Distrito Federal.
Acreditava-se que, na função, ela seria apenas um diamante lapidado
a refulgir em meio às pedras brutas (e não tão preciosas)
que compõem a equipe do governador Joaquim Roriz. Engano não tão
ledo para alguns. Lúcia decidiu ser uma secretária de Turismo que
viaja por diferentes paisagens. Até nas negociações entre
a Varig e a TAP ela andou metendo sua colher sempre de prata. E surpreendeu
ao mostrar que, quando lhe convém, ignora as regras da diplomacia. Já
brigou com políticos, empresários e colegas. Dona de um espetacular
senso de sobrevivência no governo, Lúcia agarrou-se à cadeira,
porque, no futuro, quer ser invejada também pela competência.
O histórico de confusões da embaixatriz fez com que o governador
Roriz cogitasse demiti-la. Em março, ele pretendia aproveitar uma reforma
do secretariado para transferi-la de posto. O senador Paulo Octávio tomou
a iniciativa de levar a notícia a Lúcia, oferecendo-lhe uma possível
mudança para a Secretaria de Cultura. Paulo Octávio tocou no assunto
num jantar na casa do presidente do Senado, Renan Calheiros. Lúcia não
se conteve e passou uma descompostura no senador: "Se o governador quiser, que
me demita pessoalmente". Paulo Octávio não demoraria a levar seu
troco. Lúcia descobriu que os hotéis de Brasília haviam aumentado
os preços das diárias às vésperas daquela bizarra
Cúpula América do SulPaíses Árabes. Enfurecida,
bateu o pé e forçou-os a voltar atrás. Adivinhe qual foi
um dos empresários do setor que mais perderam. Paulo Octávio, dono
de alguns dos hotéis mais caros da cidade. Entre seus colegas, o desafeto
maior é o presidente do Fórum dos Secretários de Turismo,
Marcelo Safadi, de Goiás. A embaixatriz acha que ele só pensa em
se promover. Num encontro dos secretários, ela atacou-o na frente de quarenta
pessoas. "Você não presta. Seu governador me disse que nem ele te
agüenta", disse Lúcia. "Prefiro esquecer esse constrangimento", desconversa
Safadi. Joaquim Roriz faz de tudo para não
bater de frente com Lúcia. Em primeiro lugar, por uma dívida pessoal.
Enquanto morava em Washington, ela arregimentou doadores de remédios para
um neto hemofílico do governador. Outro motivo é que Roriz tem uma
certa dependência da agenda de telefones da sua subordinada. A agenda é
o exemplo mais concreto da influência de Lúcia. Contabiliza nada
mais, nada menos do que os números de 14.000 pessoas, várias delas
amizades inquebrantáveis, como a do senador Antonio Carlos Magalhães.
O prestígio de Lúcia e do embaixador Paulo Tarso garantiu o acesso
do Distrito Federal a empréstimos internacionais. Logo que Roriz chegou
ao governo, Paulo Tarso marcou-lhe uma audiência com o presidente do Banco
Interamericano de Desenvolvimento (BID), Enrique Iglesias. Roriz saiu do encontro
com a promessa de financiamentos para projetos ambientais e de transporte coletivo.
Em fevereiro, o governador tentou uma nova incursão pelo exterior. Queria
discutir com a Organização das Nações Unidas a construção
de uma sede da instituição em Brasília, mas não conseguia
ser recebido. Com um simples telefonema, Lúcia marcou uma reunião
em Nova York, em pleno sábado. Roriz arrumou até uma vaguinha no
funeral do papa João Paulo II. Quem arranjou? Ela, Lúcia.
Para uma mulher tão refinada, o cenário de uma secretaria brasiliense
não é exatamente a moldura mais apropriada. A embaixatriz faz o
que pode para melhorá-lo. Decorou o gabinete com móveis próprios
e impôs a etiqueta dos diplomatas aos seus funcionários. Os homens
foram obrigados a usar terno e gravata. Apavorado com a exigência, um contínuo
pediu transferência a Roriz. "A imperatriz quer que eu use paletó
e eu não tenho dinheiro para comprar", explicou. Depois dessa gafe do serviçal,
Lúcia passou a ser chamada de imperatriz (pelos invejosos, e sempre pelas
costas, claro). Talvez em virtude da estreita convivência com a finada princesa
de Gales, a imperatriz, ou melhor, a embaixatriz, exige que os funcionários
se levantem quando ela chega. Lúcia estendeu a norma aos seus colegas do
secretariado e até a Roriz. "De pé, a madame chegou", dizem os malvados
quando ela se aproxima. À tarde, um garçom de jaqueta branca de
botões dourados (muito parecido com Severino Cavalcanti, fazer o quê?)
lhe serve pães de queijo e cappuccinos na porcelana que a chefe
trouxe de casa, of course. Na semana passada, Lúcia soube que um
deputado a descreveu como "sedutora, no melhor sentido da palavra". Ela o ignorou.
"Na Câmara tem cada um que eu prefiro até dispensar o elogio", disse
a embaixatriz. Noblesse oblige. |