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Ciência 40
novas espécies por dia O estudo
da biodiversidade vive uma revolução as descobertas de
espécies se sucedem num ritmo vertiginoso
 José
Eduardo Barella
A biodiversidade do planeta está
sendo desbravada a uma velocidade nunca vista. Os pesquisadores identificam e
catalogam em média 15.000 novas espécies por ano. É o dobro
do que se descobria no fim da década passada. O esforço dos cientistas
para ampliar o conhecimento sobre os animais, os vegetais e os microrganismos
que habitam a biosfera é uma corrida contra o tempo. Estima-se que a ação
predatória do homem sobre o meio ambiente provoque a extinção
de 10.000 espécies por ano. O preço a ser pago por essa perda de
biodiversidade é alto: as plantas que desaparecem antes de ser estudadas,
por exemplo, podem conter substâncias com utilidades farmacêuticas.
E a extinção de certas bactérias prejudica a purificação
natural da água ou a fixação de nutrientes no solo. "Para
não desperdiçar o serviço que a natureza nos presta, é
importante saber o que ela tem a nos oferecer, identificando e estudando o maior
número possível de espécies", diz o zoólogo mineiro
Gustavo Fonseca, diretor da ONG Conservação Internacional, um centro
de estudos da biodiversidade com sede nos Estados Unidos. Ainda há muito
a ser feito. Estima-se que falte identificar entre 80% e 90% de todas as espécies
existentes. Quanto
menor o tamanho dos seres vivos, maior a ignorância da ciência sobre
eles. Desde que o botânico sueco Carlos Lineu criou o atual sistema de classificação
das espécies, foram identificados apenas 0,4% das bactérias, 1%
dos vírus, 5% dos fungos e 10% dos insetos da Terra. E é justamente
nessas categorias que se concentram as maiores esperanças para descobrir
a cura de doenças e combater pragas na agricultura. A grande maioria das
novas espécies descobertas a cada ano é composta de insetos e microrganismos,
justamente por representarem um mundo praticamente desconhecido para o homem.
Já a identificação de novas espécies de mamíferos
é mais rara. Quando isso ocorre, em média uma vez a cada três
anos, o feito é comemorado com estardalhaço pela comunidade científica
internacional. Foi o que aconteceu na semana passada, quando duas equipes de cientistas
americanos publicaram na revista científica Science a descoberta,
na Tanzânia, na África, de uma espécie de macaco. O surgimento
de novos tipos de pássaros também é uma raridade. Por ano,
são identificadas quinze novas espécies. No início do mês,
o biólogo Luís Fábio Silveira, da Universidade de São
Paulo, divulgou a identificação de um novo pássaro, batizado
de bicudinho-do-brejo-paulista, perto de uma represa da Grande São Paulo.
O trabalho dos biólogos foi
facilitado nos últimos anos pelo avanço de tecnologias como a internet
e o estudo do genoma, a identidade genética dos seres vivos. Trata-se de
uma revolução na taxonomia, o ramo da ciência que cuida da
classificação das espécies. Até a metade da década
de 90, o pesquisador se enfiava no mato, no mar ou em qualquer outro ambiente
natural para fazer a coleta de material de estudo bichos, plantas ou microrganismos.
Esse trabalho de explorador ainda é necessário. A diferença
está no que acontece depois. O cientista de dez anos atrás tinha
de passar vários meses, às vezes anos, enfurnado em um laboratório.
Era preciso estudar em detalhes as características e a forma da espécie
encontrada e compará-las com as de exemplares que, muitas vezes, só
existiam nas prateleiras de museus ou universidades estrangeiras. Os pesquisadores
tinham de pedir informações por correio ou viajavam até onde
estavam as coleções para fazer a comparação. Hoje,
o processo é mais rápido, barato e eficiente. Museus e instituições
científicas estão fotografando seus acervos com equipamentos que
fazem imagens em três dimensões e divulgando tudo na internet. Em
qualquer parte do mundo, um taxonomista pode vasculhar os bancos de dados de espécies
on-line e compará-las com o exemplar que está estudando. "Em breve,
teremos o equivalente a uma lista telefônica on-line de todas as espécies
já catalogadas no mundo", diz o microbiologista paulista Vanderlei Perez
Canhos, diretor do Catálogo da Vida, um projeto formado por instituições
de cinqüenta países para a criação de um inventário
completo da biodiversidade mundial. Ao lado da tecnologia de imagens digitais,
a genética deverá permitir aos cientistas quadruplicar em dois anos
o número de espécies identificadas anualmente. Um teste de DNA
uma ferramenta científica cada vez mais barata da amostra pesquisada
é capaz de confirmar, com precisão, a descoberta ou não de
uma nova espécie. O biólogo americano Edward Wilson, da Universidade
Harvard, nos Estados Unidos, acredita que, com o auxílio da tecnologia
digital e da genética, todos os seres vivos existentes na Terra serão
classificados até 2030. Todos. |