Edição 1907 . 1° de junho de 2005

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Medicina
Neurônios à deriva

Finlandeses descobrem um novo método
para o diagnóstico precoce da dislexia


Giuliana Bergamo

 

Lailson Santos
Ralph, de 17 anos: aprendendo a conviver com a falta de sentido espacial e a dificuldade para memorizar textos

A dislexia, que se manifesta principalmente por uma dificuldade exagerada para ler e escrever, é um dos distúrbios de aprendizagem mais comuns. Quando não recebem o diagnóstico correto, as crianças que o apresentam tornam-se problemáticas em todas as disciplinas escolares e freqüentemente são tachadas de "burras", "ignorantes" e "indolentes" – o que tem, é lógico, um impacto nefasto sobre sua auto-estima. A dislexia não tem cura, mas é possível controlar os sintomas associados a ela. Um estudo de pesquisadores finlandeses a ser publicado na edição especial da revista científica Cortex comprovou a eficácia de um exame na identificação da tendência à dislexia. Trata-se do potencial evocado, que surgiu para medir a capacidade auditiva de uma pessoa.

O teste consiste no acompanhamento da atividade elétrica do cérebro mediante estímulos sonoros. No caso do trabalho finlandês, os sons usados eram sílabas. Os pesquisadores acompanharam por cinco anos 49 crianças – metade delas com histórico familiar de dislexia e metade não. Todas foram examinadas quatro vezes: a primeira, logo depois do nascimento, e a última, aos 5 anos. Com base nessas análises, os pesquisadores finlandeses conseguiram determinar padrões de resposta cerebral para aquelas com risco de desenvolver dislexia e para as que não correm esse perigo. Os autores do trabalho propõem que o exame de potencial evocado seja usado para identificar precocemente crianças com alta propensão de apresentar dislexia e, assim, levar a que iniciem logo um tratamento que as livre de constrangimentos na idade escolar.

A ciência ainda tem muito a descobrir sobre a dislexia. Sabe-se que se trata de um problema de ordem genética, mais comum entre os meninos. A hipótese mais aceita para a sua origem é a de que o distúrbio começa a se estabelecer ainda durante o processo da formação cerebral. Entre a vigésima e a 25ª semana de gestação, neurônios migram do núcleo para a periferia do cérebro do feto. Nos disléxicos, alguns neurônios se perderiam no caminho, comprometendo as áreas cerebrais envolvidas no processamento da linguagem. Por isso, o cérebro dos disléxicos seria menos especializado para decifrar e ordenar letras e números, para a orientação espacial e para capacidades motoras finas e grossas, como desenhar e chutar uma bola. Não se inventou nada capaz de recuperar essas funções. "Mas um disléxico, quando bem orientado, encontra alternativas para driblar os sintomas do distúrbio", diz o neurologista infantil Mauro Muszkat, professor da Universidade Federal de São Paulo. Muszkat inicia no próximo mês um dos maiores estudos já feitos no Brasil sobre dislexia. Com a ajuda de exames neuropsicológicos, neuroimagem e uma máquina que rastreia o movimento ocular enquanto um indivíduo lê uma palavra, o neurologista e sua equipe querem decifrar quais são os mecanismos fisiológicos que estão envolvidos na dislexia.

O estudante Ralph Marquetti Teixeira, de 17 anos, só descobriu que era disléxico aos 10 anos. Até então, já havia repetido duas séries escolares e passado por vários professores particulares. Desesperada, sua mãe chegou a procurar até a ajuda de um "parapsicoterapeuta", que evocou algo como as forças do além na tentativa de descobrir o que atrapalhava a alfabetização do menino. Diante da dificuldade de Ralph, parentes e amigos diziam que ele era "burro e incapaz de nascença". Outros argumentavam que ele era, isso sim, "preguiçoso e pouco esforçado". Todas as provas escolares voltavam cheias de rabiscos vermelhos feitos pelos professores, com a seguinte observação: "Você pode mais". "Eu me sentia um completo inútil. Chorava trancado no quarto e até tive vontade de me matar", diz Ralph. Com a descoberta da dislexia, ele foi novamente alfabetizado por uma fonoaudióloga. Para ajudá-lo a estudar outras matérias, a terapeuta gravava em fitas os textos dos livros didáticos. Ralph usa o recurso até hoje. Isso porque tem uma dificuldade tremenda não só de ler as palavras como de memorizar o que acabou de ler. O garoto também não consegue decifrar relógios analógicos nem discernir entre direita e esquerda. Números de telefone, Ralph só decora depois de digitá-los no teclado do celular. "Eu memorizo o movimento, não a ordem dos números", diz.

A história está repleta de personagens brilhantes vítimas de dislexia. O físico Albert Einstein, por exemplo, durante boa parte de sua infância foi considerado um "retardado". "As vítimas desse problema conseguem até superar alguns de seus sintomas mais marcantes, mas é importante lembrar que o cérebro delas funciona de maneira diferente", diz Maria Angela Nogueira Nico, fonoaudióloga e psicopedagoga da Associação Brasileira de Dislexia. Existe uma lei federal que determina que pessoas com algum distúrbio de aprendizagem (a dislexia, entre eles) têm o direito de receber avaliação personalizada. No caso de um disléxico, a prova escrita pode ser substituída por uma avaliação oral.

 

 

Gênios e disléxicos

Disléxicos famosos são a prova de que é possível conviver com os sintomas do distúrbio. Para tanto, basta desenvolver alternativas para contornar as dificuldades de leitura, escrita e orientação espacial, entre outras

AGATHA CHRISTIE
A escritora inglesa ditava seus textos para uma datilógrafa

ALBERT EINSTEIN
O físico tinha problemas de memória e só aprendeu a ler aos 9 anos

WALT DISNEY
O desenhista tinha dificuldade para ler e escrever e durante muito tempo se sentiu um "incapaz"

 
 
 
 
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