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Medicina Neurônios
à deriva Finlandeses descobrem um novo
método para o diagnóstico precoce da dislexia  Giuliana
Bergamo
Lailson
Santos
 | | Ralph,
de 17 anos: aprendendo a conviver com a falta de sentido espacial e a dificuldade
para memorizar textos |
A dislexia, que
se manifesta principalmente por uma dificuldade exagerada para ler e escrever,
é um dos distúrbios de aprendizagem mais comuns. Quando não
recebem o diagnóstico correto, as crianças que o apresentam tornam-se
problemáticas em todas as disciplinas escolares e freqüentemente são
tachadas de "burras", "ignorantes" e "indolentes" o que tem, é lógico,
um impacto nefasto sobre sua auto-estima. A dislexia não tem cura, mas
é possível controlar os sintomas associados a ela. Um estudo de
pesquisadores finlandeses a ser publicado na edição especial da
revista científica Cortex comprovou a eficácia de um exame
na identificação da tendência à dislexia. Trata-se
do potencial evocado, que surgiu para medir a capacidade auditiva de uma pessoa.
O teste consiste no acompanhamento da atividade
elétrica do cérebro mediante estímulos sonoros. No caso do
trabalho finlandês, os sons usados eram sílabas. Os pesquisadores
acompanharam por cinco anos 49 crianças metade delas com histórico
familiar de dislexia e metade não. Todas foram examinadas quatro vezes:
a primeira, logo depois do nascimento, e a última, aos 5 anos. Com base
nessas análises, os pesquisadores finlandeses conseguiram determinar padrões
de resposta cerebral para aquelas com risco de desenvolver dislexia e para as
que não correm esse perigo. Os autores do trabalho propõem que o
exame de potencial evocado seja usado para identificar precocemente crianças
com alta propensão de apresentar dislexia e, assim, levar a que iniciem
logo um tratamento que as livre de constrangimentos na idade escolar.
A ciência ainda tem muito a descobrir sobre a dislexia. Sabe-se que se trata
de um problema de ordem genética, mais comum entre os meninos. A hipótese
mais aceita para a sua origem é a de que o distúrbio começa
a se estabelecer ainda durante o processo da formação cerebral.
Entre a vigésima e a 25ª semana de gestação, neurônios
migram do núcleo para a periferia do cérebro do feto. Nos disléxicos,
alguns neurônios se perderiam no caminho, comprometendo as áreas
cerebrais envolvidas no processamento da linguagem. Por isso, o cérebro
dos disléxicos seria menos especializado para decifrar e ordenar letras
e números, para a orientação espacial e para capacidades
motoras finas e grossas, como desenhar e chutar uma bola. Não se inventou
nada capaz de recuperar essas funções. "Mas um disléxico,
quando bem orientado, encontra alternativas para driblar os sintomas do distúrbio",
diz o neurologista infantil Mauro Muszkat, professor da Universidade Federal de
São Paulo. Muszkat inicia no próximo mês um dos maiores estudos
já feitos no Brasil sobre dislexia. Com a ajuda de exames neuropsicológicos,
neuroimagem e uma máquina que rastreia o movimento ocular enquanto um indivíduo
lê uma palavra, o neurologista e sua equipe querem decifrar quais são
os mecanismos fisiológicos que estão envolvidos na dislexia.
O estudante Ralph Marquetti Teixeira, de 17 anos, só descobriu que era
disléxico aos 10 anos. Até então, já havia repetido
duas séries escolares e passado por vários professores particulares.
Desesperada, sua mãe chegou a procurar até a ajuda de um "parapsicoterapeuta",
que evocou algo como as forças do além na tentativa de descobrir
o que atrapalhava a alfabetização do menino. Diante da dificuldade
de Ralph, parentes e amigos diziam que ele era "burro e incapaz de nascença".
Outros argumentavam que ele era, isso sim, "preguiçoso e pouco esforçado".
Todas as provas escolares voltavam cheias de rabiscos vermelhos feitos pelos professores,
com a seguinte observação: "Você pode mais". "Eu me sentia
um completo inútil. Chorava trancado no quarto e até tive vontade
de me matar", diz Ralph. Com a descoberta da dislexia, ele foi novamente alfabetizado
por uma fonoaudióloga. Para ajudá-lo a estudar outras matérias,
a terapeuta gravava em fitas os textos dos livros didáticos. Ralph usa
o recurso até hoje. Isso porque tem uma dificuldade tremenda não
só de ler as palavras como de memorizar o que acabou de ler. O garoto também
não consegue decifrar relógios analógicos nem discernir entre
direita e esquerda. Números de telefone, Ralph só decora depois
de digitá-los no teclado do celular. "Eu memorizo o movimento, não
a ordem dos números", diz. A história
está repleta de personagens brilhantes vítimas de dislexia. O físico
Albert Einstein, por exemplo, durante boa parte de sua infância foi considerado
um "retardado". "As vítimas desse problema conseguem até superar
alguns de seus sintomas mais marcantes, mas é importante lembrar que o
cérebro delas funciona de maneira diferente", diz Maria Angela Nogueira
Nico, fonoaudióloga e psicopedagoga da Associação Brasileira
de Dislexia. Existe uma lei federal que determina que pessoas com algum distúrbio
de aprendizagem (a dislexia, entre eles) têm o direito de receber avaliação
personalizada. No caso de um disléxico, a prova escrita pode ser substituída
por uma avaliação oral. 
Gênios e disléxicos
Disléxicos famosos são a prova de que é
possível conviver com os sintomas do distúrbio. Para tanto, basta
desenvolver alternativas para contornar as dificuldades de leitura, escrita e
orientação espacial, entre outras AGATHA
CHRISTIE A escritora inglesa ditava seus textos para uma datilógrafa
ALBERT EINSTEIN O físico tinha
problemas de memória e só aprendeu a ler aos 9 anos WALT
DISNEY O desenhista tinha dificuldade para ler e escrever e durante muito
tempo se sentiu um "incapaz" | | |